• 27 de setembro de 2020

Delegacia: a primeira vez a gente nunca esquece!

 Delegacia: a primeira vez a gente nunca esquece!

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Por Eduardo Antonio Perine


Muito feliz pela repercussão do meu artigo anterior, agradeço a todos que me enviaram mensagens. Sem mais delongas, chegou a hora de contar a primeira vez em que estive na delegacia para atender um cliente.

Como disse no final do último artigo (veja aqui), recebi a ligação do meu tio contando a situação do filho de uma colega de trabalho. Assim que desliguei o telefone, me desloquei até a delegacia.

Na delegacia, o policial que me atendeu pediu a carteirinha da OAB. Como ainda não havia recebido a carteira, em razão do curto espaço de tempo entre o juramento e essa ida à delegacia, entreguei um certificado (uma folha sulfite com o meu número da OAB que me foi entregue no juramento) e já recebi uma nada agradável risada em tom de deboche.

Como particularmente não gosto de estrelismo jurídico e, a meu ver, delegacia não é o local para dar show com gritos e competição de conhecimento jurídico, não me importei com o deboche e fui trabalhar.

Em razão até do comportamento mais tranquilo, não foram poucas as vezes que pude utilizar o computador da própria delegacia para elaborar pedidos mais urgentes a fim de ganhar tempo em eventual ilegalidade. Tratamento agradável e educado que os policiais não teriam comigo se eu me comportasse na delegacia com soberbas e estrelismo, situações que já presenciei de alguns colegas.

Tinha consciência de que a conversa com o preso não ocorreria como nos filmes americanos, com salas/ambientes limpos, sentados em uma mesa, mas a situação da delegacia era deplorável. A situação me fez pensar muito naquele garoto. Para mim eram apenas alguns minutos de conversa, mas para meu cliente aquela situação poderia durar por longo tempo. A pressão para obter sucesso martelava a minha cabeça a todo instante.

‘K’ era um jovem, tinha acabado de fazer 18 anos, e aquela era a primeira vez que havia sido preso. K, então, relatou o que havia acontecido, informando detalhadamente o motivo pelo qual estava preso naquele momento. Procuração assinada. Fui embora fazer o pedido de revogação e o atendimento a família do jovem que aguardava notícia.

Embora estivesse ansioso com esse atendimento, receber o cliente com tranquilidade, paciência para ouvir e principalmente absoluta franqueza é fundamental. A mãe estava em pânico, nunca havia passado por isso, não conseguia dormir e mal comia. Precisava acalmar aquela mãe com o resultado positivo do pedido, pois a prisão, naquela situação, não era necessária e a fundamentação utilizada pela Juíza da Vara Criminal na decisão demonstrava isso.

Vale dizer, não é o momento para prometer resultados, oferecer garantias de que a pessoa em custódia responderá o processo em liberdade, etc. Isso vale até para casos similares, cada cabeça uma sentença, por isso promessas com base em casos anteriores podem trazer cobranças desnecessárias por situações alheias ao advogado.

Antes de protocolar o pedido de revogação de prisão preventiva, mudei de ideia. A juíza que converteu a flagrante em preventiva não revogaria a própria decisão, decisões em casos parecidos demonstravam isso. Protocolei, então, meu primeiro Habeas Corpus.

Essa, talvez, tenha sido a melhor decisão. Liminar deferida. Primeira vitória. O choro da mãe que outrora era de tristeza, agora refletia a felicidade em ter o filho em seus braços novamente. De minha parte, cabe agradecê-la pela confiança em depositar o futuro de seu filho em um jovem advogado.

Para essa experiência não há dinheiro que pague. Nessa hora, a melhor remuneração é o abraço apertado e gratidão da mãe. Até hoje, passado esse pesadelo, mantemos contato. O primeiro caso a gente nunca esquece.


Eduardo Antonio Perine – Formado em Direito pelo Centro Universitário de Curitiba e Advogado criminalista.

Eduardo Antonio Perine

Advogado (PR)