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O que existe depois do melancólico drama do jovem advogado?

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O que existe depois do melancólico drama do jovem advogado?

Há pouco mais de um ano atrás, neste mesmo canal, escrevi um texto descrevendo as agruras do jovem advogado. Naquela ocasião, sentia-me destroçado pelo fato de não ter conseguido exercer a advocacia criminal.

Havia percebido que o mundo profissional pode ser bastante desolador para o advogado em início de carreira, sobretudo na área criminal, na qual milito. Eram muitos os obstáculos que se apresentavam à época. A questão ia desde problemas financeiros até a falta de oportunidades.

Creio que, ao mesmo tempo em que denunciei dificuldades severas dos profissionais, acabei por dissuadir muita gente de optar pela advocacia criminal. Algo que nunca foi minha finalidade.

O texto, aliás, nada mais era do que um desabafo pessoal. Aos que me conhecem de perto sabem que a advocacia para mim está no mesmo nível de importância que a família.

Eu realmente sou um “romântico” da advocacia – pois eles ainda existem – e vejo nela mais do que só o meu sustento, mas minha razão de ser e viver.

Por isso mesmo acredito que é um dever de minha parte mostrar que das dificuldades podem surgir oportunidades e que o tempo foi necessário para ensinar-me algumas lições preciosas. A advocacia ainda pode ser uma boa escolha.

Como boa parte dos leitores, também fui bombardeado com inúmeros questionamentos acerca dos motivos da minha recusa em prestar um concurso público. Coisas do tipo:

Você é inteligente, por que não tenta um concurso público? 
Fulano passou num concurso público e agora tem férias, plano de saúde e um bom salário, por que não faz igual?
Você é formado em direito? Que maravilha, então vai tentar o concurso para juiz, promotor, delegado, defensor público?
Sabe que a advocacia não dá dinheiro para ninguém, né? Tem muito advogado no Brasil, fora que advogados são todos picaretas, por que você não tenta ser promotor ou juiz?
Viu que abriu concurso para auxiliar técnico em numa repartição pública? Parece que tem questões de Direito na prova, você deveria tentar e garantir um ‘empreguinho’ público.

Mas, sinceramente, a carreira pública não me seduzia.

O que eu queria mesmo era a advocacia criminal. O meu desejo maior era estar do outro lado do “jogo processual”, ao lado daqueles que se viam oprimidos pelo poder do Estado, defender as liberdades.

Sei o quanto o direito de ser livre tem imenso valor, o quanto questionar excessos é mais do que um mero reclamo, mas um dever cívico em defesa do próprio Estado Democrático.

Ainda por cima, a advocacia criminal me permitiria ter mais liberdade profissional, traria a mim uma oportunidade melhor de escolha do meu destino, coisas que a carreira pública muitas vezes não permite.

Sem mencionar, é claro, o simples fato de que na advocacia criminal você é reconhecido pelo quanto trabalha, seja em termos financeiros, seja em termos de prestígio.

Não tinha jeito, o menino queria mesmo advogar.

Mas aí vieram os obstáculos que já descrevi no texto anterior. Advogado recém-formado, pouca experiência profissional, a concorrência com os “herdeiros” dos escritórios consagrados – sim, os filhos, netos, sobrinhos descendentes de linhagens jurídicas – e, claro, o aviltamento dos honorários praticados pelos tradicionais escritórios – os quais nos transformam em verdadeiros estagiários com habilitação para advogar, nem mesmo nos tratam como advogados.

E veja que já me considero um vencedor por ser advogado num país em que a realidade aponta que muitos sequer podem cursar uma faculdade de Direito. Muitos sequer podem ter o ensino básico ou serem alfabetizados.

Enfim.

As dificuldades de inserção na advocacia eram ainda maiores se levado em conta o fato de que não busquei fazer estágios em escritórios. Ora, se os advogados jovens já eram tratados de maneira abusiva, imagine o quão não sofriam os estagiários.

Em virtude disso optei por manter os estágios em órgãos públicos, especificamente no Tribunal de Justiça e no Ministério Público Federal.

Era ali onde eu vi a chance de poder aprender mais, a desenvolver o senso de crítica e, principalmente, poderia aperfeiçoar a minha escrita técnica e interpretação de processos. E, sinceramente, não me arrependi.

Assim que encerrou meu estágio no MPF fui direto em busca de vagas em escritórios de advocacia criminal. Por suposto não consegui.

Além de não ter estagiado em escritórios, aprendi ali que o mundo da advocacia criminal é mais restrito ainda que o da advocacia em geral. Poucas vagas, poucos escritórios especializados e poucas chances para um “desconhecido” (lembra daquela história de linhagens jurídicas?).

Quanta desilusão com uma profissão. E a coisa ficava pior quando o tempo passava e nenhuma chance surgia. Amigos advogando, contando casos de escritório e sobre seus clientes, fazendo sustentações orais, júris. E eu, bem, eu estava ali pensando o rumo que tomar. O primeiro tombo já havia levado.

Para minha surpresa, a única chance realmente interessante para começar minha vida profissional não veio de um escritório, mas, sim, de um órgão público. Alguns meses depois de me formar, o gabinete da Procuradora da República onde eu estagiava necessitava de um novo assessor.

A vaga era para um cargo em comissão. Como a equipe do gabinete simpatizou comigo – ainda não sei se pela minha pessoa ou pelo meu trabalho, espero que os dois – acabei sendo indicado para a função. Devidamente nomeado, tomei posse e parti ao trabalho.

A função não me era estranha. Já havia sido estagiário naquele mesmo gabinete. Logo, não foi muito difícil me adaptar ao serviço. Claro que agora eu era efetivamente assessor, o que culminava no exercício de responsabilidades muito maiores do que a de mero estagiário. Mas o trabalho era interessante e a equipe ótima.

Os assuntos tratados no gabinete eram bastante diversos da área criminal, que sempre estudei. Ali eu trabalhava com direitos do cidadão. Fazia ações civis públicas requerendo medicamentos, anulação de concursos públicos, respeito às garantias de idosos e deficientes. Também atuava com direitos indígenas.

Foi a primeira vez que me deparei com comunidades indígenas reais em situações de vulnerabilidade – coisas que não temos a oportunidade de tomar conhecimento pela mídia, por exemplo. Uma grande chance para atuar com matérias diferenciadas e, com isso, aprender novas formas de resolução de conflitos processuais.

Foi no MPF onde pude perceber que a escrita, antes mesmo do conhecimento jurídico, é a parte mais importante do nosso trabalho. O quanto pode ser desastroso ter conhecimento e não saber expressá-lo.

Como também foi ali onde pude investir em mim mesmo. Estudei uma nova língua – até então só sabia falar o português –, cursei uma especialização, viajei para outro país e comprei muitos livros, além de ter conseguido quitar a imensa dívida que fiz na época da faculdade, decorrente da compra de livros. Mas ainda faltava algo.

Não obstante o trabalho em gabinete tenha sido muito bom, todos os dias, quando tinha um momento somente comigo, pensava que queria mais. Poderia simplesmente ter me acomodado com aquela situação.

Os que trabalham ou já trabalharam em gabinete sabem que, uma hora, os casos passam a ser repetitivos, as soluções acabam sendo as mesmas e os desafios diminuem. A coisa estagna. Alguns gostam dessa rotina, o que não se aplicava a mim.

A saída era mesmo ingressar de vez na advocacia. Mas os “fantasmas” de outrora retornavam. Como conseguir uma chance? Será que a saída é montar o próprio escritório? Como conquistar clientes? Devo trocar meu salário mensal por uma empreitada incerta? Será que meu caminho não era mesmo a carreira pública?

Bom, lá vou eu de novo em busca de chances. Liguei para muitos escritórios de advocacia da cidade, até mesmo os que não eram da área criminal – nesses casos eu oferecia a chance de instalar um setor de direito penal (sim, bastante ambicioso para alguém que havia saído da faculdade recentemente) –, mandei currículos.

Nada. Raramente respondiam. De novo a desilusão e o segundo tombo.

De tanto tentar, uma hora eu acabei ficando angustiado. Não suportava mais sofrer daquele jeito, sem poder exercer a profissão que escolhi de maneira digna. Foi quando resolvi colocar no papel o que não suportava.

Daí nasceu o melancólico drama de um jovem advogado, publicado aqui mesmo, neste canal. Ali escrevi tudo que sentia. Minha tristeza. Minha vontade de largar a advocacia e quem sabe tentar um concurso público.

Para minha surpresa, o texto foi lido aos montes. Muitas pessoas se identificaram – algo triste e bom ao mesmo tempo. Pude perceber que o problema não era só meu (óbvio que não, onde eu estava com a cabeça achando que só eu tinha desilusões profissionais) e muitos colegas também eram aviltados e abusados na advocacia.

Pessoas me mandaram mensagem, afirmaram que sofriam dos mesmos problemas e que admiravam a minha coragem em escrever aquilo tudo. O texto, ao que parece, afetou muita gente. Mas, sobretudo, afetou minha vida.

Semanas depois do texto, surgiu numa rede social um aviso de vagas de advogados criminais num escritório aqui de Curitiba. No início relutei em mandar meu currículo, achava improvável que fosse eu o escolhido. E outra, imaginava que dificilmente teria um tratamento bacana.

Quantos não foram os que me apontaram escritórios predatórios com os jovens advogados e que não valorizavam o profissional? Por que eu tentaria de novo, abandonaria um cargo, ainda que em comissão, para arriscar-me num local desconhecido?

O amor e o desejo da advocacia criminal eram o único motor dos meus impulsos naquele momento. Arrisquei.

Hoje, enfim, sou advogado criminal. Aquele escritório, ao contrário do que eu imaginava, foi completamente diferente do que eu estava habituado a ver. Todos me trataram, desde o primeiro dia, como um membro da equipe. Viram em mim alguém com potencial para ir mais longe e cá estou eu, desde aquele mês de setembro após o texto.

Desde então, foram inúmeros casos criminais complexos, audiências, recursos, Habeas Corpus etc. E muitos outros estão por vir. Claro que ainda não cheguei nem perto de onde gostaria de estar.

Ainda não alcancei nem um quinto dos objetivos que almejei, mas sei que agora tudo é questão de tempo. Passadas mais largas serão dadas, mas sempre com calma, não dá para querer pular barreiras sem tomar tombos maiores. Tudo ao seu tempo.

Daquele tempo em que escrevi o primeiro texto, ficaram os amigos, o amor da família e da minha companheira de caminhada. E claro que também o velho Ford Escort branco – há vinte e um anos na família e há seis anos comigo.

Mas a vida mudou muito em um ano e tende, com certeza, a mudar muito nos próximos. Há um ano atrás estava eu sentado numa cadeira instalada num gabinete do MPF. Hoje, estou sentado na mesa de reunião atendendo clientes como advogado.

Com tudo isso não quero dizer aos que nos acompanham que minha história é exemplar ou que todos podem seguir os mesmos caminhos. Cada um sabe a cruz que carrega. Como eu disse, ainda posso chamar-me de vencedor por ser advogado num país em que educação nem sempre é prioridade.

Afora o fato de que sou branco e não estou sujeito a outros lamentáveis preconceitos que demais colegas sofrem. As dificuldades não são as mesmas para todos. Há gente que seguramente passa por agruras maiores.

Mas, independente das dificuldades, aprendi que é preciso três coisas: ambição, paciência e perseverança.

Ninguém toca duas horas de piano num espetáculo consagrado sem antes ter passado anos se digladiando com as teclas do instrumento.

Podem ter certeza que o acrobata do Cirque Du Soleil não acertou as suas primeiras acrobacias sem antes ter sofrido muitas quedas na rede de proteção. Ninguém se torna um sucesso do dia para noite – se isso acontecer, desconfiem.

Todo melancólico drama de um jovem advogado tem chance de se tornar a trajetória de sucesso do advogado consagrado, mas, com certeza, isso leva tempo, horas de sono e muitos estudos. O mesmo se diga a quem sonha em um dia ter uma carreira pública.

Sucesso a todos. Avante!

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