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Desejo de Matar e o direito penal do inimigo

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Desejo de Matar e o direito penal do inimigo

Charles Bronson imortalizou o matador e vigilante Paul Kersey em Desejo de Matar (1974), que teve ainda mais quatro continuações até 1994, sempre com o mesmo aspecto e mesma sagacidade daquilo que se espera de um thriller mocinho/bandido: não haver qualquer chance para aquele que escolhe ser o malfeitor.

Desejo de Matar trouxe em seu enredo a história de um homem simples, inocente e muito ligado à sua família, que é brutalmente assassinada por bandidos.

A partir desse momento, o homem se transmuta de uma forma cadenciada; sentindo a dor que deve sentir da maneira mais profunda, todavia, canalizando sua dor para a nova motivação de sua vida: matar.

Matar aqueles que abusaram de sua mulher e filha, aniquilar qualquer mal que possa andar pelos mesmos caminhos que ele; ser o protetor daqueles desprotegidos que clamam por liberdade de suas prisões domiciliares.

No entanto, Kersey inicia com parcimônia seu novo plano de vida, sabendo que ao matar os assassinos de sua família o Estado o consideraria inimigo, pois as coisas não funcionam dessa forma.

Ao enxergar essa possibilidade e notar que de outra forma as coisas não funcionaram ainda assim, deixou de lado seus papéis e pincéis de bom arquiteto, juntou suas economias e assumiu sua farda de vigilante, matando quem quer que fosse que cruzasse seu caminho, em prol dos necessitados e da urgente segurança que Kersey compreendia que faltava.

Na falta da polícia, das investigações precisas, de uma punição que nunca chegaria pelas vias estatais, o homem agiu e cumpriu sua sina.

Nos outros filmes da série, a fama do vigilante ficou tão estável que até mesmo o chefe de investigação de um setor da cidade de Nova Iorque chamou-o dizendo que o Instituto Médico Legal da cidade precisaria de mais corpos, senão teriam que demitir os médicos.

Os corpos de que precisava o detetive seriam facilmente encontrados num bairro local, marcado por encontro de gangues, violência e assassinatos. Deveria então, o vigilante levar essas pessoas ao encontro da fria padiola onde os aguardariam os médicos legistas.

E de fato a matança continua.

Para o matador eram conhecidos aqueles que deveriam morrer. Todos os que estavam juntos em gangues, ameaçando outros, roubando, matando e pilhando deveriam morrer por suas mãos. Entretanto, Kersey sabia que matava o pilantra, aquele que não merecia uma segunda chance.

Transformou-se o matador numa arma que se auto abastecia de ódio contra um tipo de pessoa: os desocupados. Fica claro, numa passagem de Desejo de Matar, quando em encontro com uma turma de jovens que o provocam chamando-o de velho, a ameaça velada é feita por Kersey, ao apontar o dedo em riste sinalizando uma arma disparando. Nesse momento, os jovens riram.

Para o homem ninguém assim deveria ou mereceria uma segunda chance, mesmo que nem ele saiba se alguma vez houve uma primeira chance. Estar junto com turmas assim simbolizaria o perigo, a ameaça, o futuro e promissor assassino ou ladrão, ou seja; o mal que deve ser abatido.

Destarte, o inimigo seria qualquer um que entrasse dentro de um arquétipo criado por uma forte emoção, de alguém mal vestido, roupas rasgadas, desocupado e segurando alguma bebida.

Essa definição de marginal criada por Kersey apareceu aos seus olhos quando matou os assassinos de sua família e perdurou até o último filme da série: Desejo de Matar V (1994).

O poder tem esse costume: o de marcar aquilo que não lhe é benéfico, útil e pragmático, mesmo que de forma estética.

Jovens grunges de Seattle transformaram-se, na década de 90, alvos da polícia local. Com suas roupas rasgadas e atitudes debochadas encontravam-se nas praças da cidade.

Segundo as autoridades, o que havia era um agrupamento de pessoas de baixa idade com o simples motivo de causar uma sensação de insegurança e mostrar que, de alguma forma, havia um estado anarquista entre eles.

O receio na época era que essa anarquia grunge levasse algumas pessoas a dois delírios coletivos: o primeiro era de que tais jovens em grupo causassem violência, quebra-quebra e tumulto, o que de fato nunca ocorreu.

O segundo delírio era que pessoas do grupo estabelecido na sociedade passassem a agredir os jovens por medo, receio ou desconhecimento, e até mesmo os matassem.

A prisão de vários desses jovens foi então celebrada como um ato de fé: se não os prendessem poderiam ser mortos por qualquer um.

Destarte, os vigilantes não enxergam apenas o sofrimento conforme sua dor própria, que pode ter sido causada pela violência alheia, mas pelos arquétipos diferentes que pessoas dessemelhantes tomam para si.

A personalidade e a aparência do indivíduo podem, então, moldar toda uma máquina de coerção e vingança contra ele. Vingança contra aquilo que não está certo e que pode nunca ter sido culpa da vítima.

Assim, os vingadores podem caminhar em paz, sabendo que não fazem parte desse modelo representados pelos grunges, grupos e minorias que se encontram nos centros da cidade.

Mesmo que o receio, o medo e uma ponta aflitiva de caráter os traga a sensação de que não se deve fazer justiça com as próprias mãos, pedem e bradam por justiça a moda antiga: a forca, cadeira elétrica ou pelotão de fuzilamento.

Negros passaram a se encontrar nos calçadões e praças de Curitiba, grandes grupos de haitianos fazendo aqui o que sempre faziam em sua terra natal após um dia de trabalho: trocar conversa com seus iguais em um local público, antes de ir para casa.

Não há nada que venha a criminalizar tal atitude. Mas o receio e o medo do arquétipo criado em conceitos formados a priori fala mais alto: batidas policiais e o poder do Estado pôde ser visto contra esse modelo de pessoa, fora dos padrões da maioria.

O que se torna interessante, tanto na história dos negros haitianos quanto dos grunges de Seattle é que nos dois casos o que ocorreu foram medidas de precaução e prevenção contra determinados grupos.

Da mesma forma, um grupo de jogadores de futebol de fim de semana sentado numa praça parece estar descansando, um grupo de homens vestidos para alguma audiência em algum canto da cidade conversando representam uma reunião importante.

Aqui não há necessidade da prevenção, não há anarquia, nem negros, nem ao menos jovens de calça rasgada.

Esse é o estereótipo que Paul Kersey procura em suas andanças. São essas pessoas que já estão marcadas, inicialmente, para morrer.

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