• 25 de setembro de 2020

O diabo e o advogado

 O diabo e o advogado

O diabo e o advogado

Mas por que diabos o diabo precisaria de um advogado? Seria a questão central a ser desenvolvida por todos, ao ler o título do famoso sucesso de 1997, com Keanu Reeves, Al Pacino e Charlize Theron, com direção de Taylor Hackford.

Mas a resposta é simples; vivendo em sociedade o contrato social deve ser respeitado para o bem de todos, e a autonomia do capeta precisa também receber determinada margem de atuação.

Claro que ele próprio sabe disso, por esse motivo contratou um determinado e jovem advogado que se encontra em busca daquilo que todos perseguimos: reconhecimento e uma oportunidade para demonstrar nosso valor.

Só que muitas vezes algumas questões confundem e o advogado pode escolher entre resolver o dilema que o assombra, bem como, quedar-se frente a ele e fazer valer o acordo pactuado com o cliente.

O anjo caído representa toda a maldade que há, mas por outro lado, ele também pode ter sido mal interpretado. A função investigativa é dever do advogado, em casos onde a dúvida é tão assombrosa que não o deixa em paz, nem um minuto?

Todavia, o personagem de Reeves é ambicioso, mas, mais que isso, ele é Narciso. A vaidade é o pecado, segundo o diabo, que mais apetece o coração do homem; o próprio mestre do inferno promete ao jovem tribuno “o mundo aos seus pés”, do alto de um edifício onde o horizonte é o caminho.

Tal qual a tentação de Cristo no deserto, sobre o “pináculo do tempo, transportado para a terra santa”, onde tragando toda a razão, “mostrou-lhe os reinos do mundo e a glória deles”, que se fizer ao modo “que me agrades, terás todas essas coisas” (Mateus, 4:8).

Para o jovem advogado Kevin os tribunais eram um jogo o qual ele não podia nunca perder, avaliando a justiça pelo simples entendimento da vitória ou derrota, tendo que manter a invencibilidade, custe o que custar. Essa ambição o levou até o diabo, que do alto do arranha-céu, o seduziu.

Mas o anjo caído também quer o seu quinhão de reconhecimento.

Ele não quer ser apenas, para o mundo, a origem de Baco ou das maldades insanas; mas deseja acima de tudo ser reconhecido como Prometheus; pois entregou o conhecimento ao homem da mesma forma que o fogo foi tirado do Olimpo, e entregue aos mortais.

Para isso ele precisa de um advogado. São questões de ponto de vista ou dogmas operacionais elaborados que surgem do metafisico ao universo do ser?

Enfim, a questão central é a defesa do demônio. Como ele seduz, Freud explica. Temendo pela propulsão da lei e ordem que se faça contraria aos seus desejos, abriu uma firma de advocacia em Manhattam e conquistou o jovem.

Entretanto, ao fim, o advogado entendeu que nem todas as vitórias tão almejadas na corte, nem toda a sua ambição, vale o caminho árduo, e desvencilhou-se do mau.

Eduardo Couture disse certa vez que ao perceber a luta entre direito e a justiça, luta-se por justiça. Parece bem a luta do bem contra o mal, do bom contra o ruim.

Pois grandes firmas e companhias que atentam apenas ao lucro crescem no mundo inteiro, em uma cupidez que atravessa os tempos, utilizando-se de todos os recursos possíveis para obter mais lucro, justificando os meios pelos fins pois vencer é o objetivo final, e é bem esse aspecto que o filme aborda.

Lutar com paixão pela vitória e não mais que isso, não importando o que é justiça; apenas desejando que o direito lhe dê a benção para atrocidades, maldades e exploração.

Em o Mentiroso de Jim Carrey, também de 1997, há uma cena onde o advogado se encontra numa dessas situações, afirmando ao juiz que não é pelo motivo de ter conseguido enganar o sistema, que o magistrado julgou certo.

Sabendo dos pormenores do caso, o advogado conhecia os interesses escusos de sua cliente, pois investigou e estudou.

 “Adoro as paixões e os defeitos humanos. Eu sou talvez o último humanista. O século XX foi inteiramente meu. E estou apenas esquentando!” Dizia Milton, o coisa ruim interpretado por Al Pacino.

Mas e quando o cliente for mesmo o diabo? Até ele precisa/merece a defesa justa e a ampla defesa em quaisquer instâncias? Nesse sistema a resposta é sim. Tem o direito de ser ouvido e defendido, bem como teria Judas, Barrabás e Bruto.

Por esse motivo é função do advogado estudar e investigar caso a caso, desejando sempre lutar por justiça.

Porém, se o seu cliente for mesmo o tinhoso “in persona”, sempre é bom estar com a fé em dia, pois entre o certo e o errado, dúvidas e certezas em um duelo de Titãs entre o céu e o inferno; “fico no meio”, diria Sêneca.


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Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.