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Diário de um agente penitenciário: Dia de visita na cadeia e tentativa de fuga

Por Diorgeres de Assis Victorio

“Como é que poderíamos treinar, para viver em liberdade, um homem que está preso; e que toda a sua composição interior está absolutamente intacta, e não pode ser reexperienciada naquele meio, porque aquele meio não tem mnada (sic) que ver com o meio do mundo livre, para onde terá que (sic) voltar e para onde nós desejaríamos que ele voltasse recuperado. Como nós podemos tentar, neste mundo típico da prisão, nesta estrutura sociológica típica, e fazer com que aquele homem se exercite para a liberdade, e possa estar apto a viver no mundo livre, com as exigências do mundo livre – que ele não conhece?” (PIMENTEL, Manoel Pedro.Visão do sistema penitenciário paulista, à luz da penologia moderna. Revista Jurídica. Porto Alegre, n. 1, ano 1, 1953, p. 118)

O dia que eu tanto esperava para trabalhar, chegara. Eu estava muito ansioso, não queria trabalhar no Setor de Cozinha, pois lá ficamos isolados da massa da população carcerária e também entendia que as visitas não teriam acesso àquele local para visitação. Eu já tinha questionado os agentes se havia algum lugar específico para a visitação e para as “visitas íntimas” (práticas de relações sexuais) e me informaram que antigamente havia um local específico para a visita íntima e também para a visitação, mas informaram-me que o Estado acabou “atendendo” (cedendo) a uma solicitação da massa carcerária e autorizou a visitação nos Raios. Essa foi e é uma das maiores reclamações dos agentes de segurança penitenciária, permitir que as visitas ocorram nos “pavilhões de convívio”.

Chegando à Unidade Prisional já vi algumas anormalidades, estava escuro, nem ao menos havia amanhecido e já tinham pessoas lá fora, achei que eram visitantes. Ao adentrar ao Setor de Portaria vi muita agitação, os agentes com muita pressa para irem embora, e outros já transportando umas caixas, arrastando mesas, puxando carrinhos e etc.

Fui sendo revistado e segui até ao Setor Penal. Chegando lá perguntei onde eu estava escalado. Eis que no Setor Penal me informaram que era para trabalhar na “gaiola da administração”, para abrir o portão que dava acesso à “radial” (galeria). Fui ao local e já havia um funcionário do meu plantão lá. Informei ao mesmo que estava escalado ali e ele me entregou o “chavão” do portão que dava acesso à galeria e ficou com o outro “chavão” que ficava responsável para liberar as pessoas para irem com destino à saída da cadeia.

Comecei a perguntar coisas a esse funcionário, disse que já tinham pessoas lá fora e que estava tudo muito agitado. Ele respondeu-me que algumas visitas já chegam na noite anterior e dormem “na porta” da cadeia, perguntou se eu já tinha tomado café e eu respondi que não, nisso ele falou que ele ia então e que depois eu iria.

Lá ia eu ficar de novo sozinho em um lugar que eu não sabia quem era preso e quem era funcionário. Ele tomou seu café e depois tomei o meu. Nisso começou um trânsito intenso naquele local, perguntei ao mesmo o que estava acontecendo, porque tinha muita gente indo ao sentido da saída da cadeia. Ele me disse que no dia de visita precisavam de muitos funcionários lá fora e que só o mínimo que ficava dentro da cadeia. Perguntei por que essa necessidade e ele me disse que precisavam de pessoas na revista de visitantes e no “jumbo” (local para revistar os pertences e alimentos que os visitantes trazem para os presos). Nisso alguém bateu no portão que ele estava e ele abriu. Era uma mulher, pensei que fosse visitante, ela veio até o portão que eu estava e parou, ele me disse: “Libera ela que ela vai lá na Penal”. Perguntei ao mesmo quem era ela, ele me disse que era uma agente. Disse ao mesmo que não sabia que tinha “mulher agente”. Ele me respondeu que lá por ser uma cadeia masculina tinham poucas, mas que era necessário para que elas fizessem a revista nas mulheres que iam visitar os presos. Percebi que ela ia buscar luvas descartáveis, absorventes íntimos e outras coisas usadas na revista, no Setor Penal.

Ele disse-me que eu devia olhar muito bem a face de todos os visitantes, porque aquele posto era o último que antecedia o portão da muralha (Portão da Revisora) e que se passassem por nós ali, era quase rua já. Fiquei aterrorizado com o que ele me disse, pois eu não sabia quem era preso, quem era funcionário e quem era visitante. Pensei comigo mesmo que eu deveria comer muito rápido no almoço e quando fosse ao banheiro deveria também ser rápido, pois nesse período de tempo poderia passar algum visitante adentrando a Unidade e eu não ver, e assim, como que eu ia fazer para liberar essa pessoa, se eu não tinha visto ela entrar? Ele ia ao banheiro e às vezes precisava sair do posto, nisso eu pensava que se fugisse alguém em uma ocasião dessas, a responsabilidade seria minha.

Eis que ele liberou o portão observei que era uma mulher com uma criança. Ela transportava duas bolsas, vi que a mulher transportava a bolsa com dificuldade e que isso era pelo fato do peso. Olhei no rosto dessas pessoas e vi que o adulto usava um crachá. Pensei comigo que era fácil assim, pois era só ver quem estava com crachá quando da saída. Eu disse isso ao meu companheiro de serviço e ele disse-me que o preso pega o crachá da visita e que às vezes inclusive usa roupa de mulher e faz peruca com cabelo para parecer mulher e que era por esse fato que a gente devia olhar bem no rosto dos visitantes quando da entrada, para que assim não tivéssemos nenhuma surpresa. Eu pensei comigo mesmo, que loucura tudo isso, e que local de trabalho de altíssima responsabilidade tinham me colocado. Comecei a pensar porque não tinham me escalado em um outro local, e porque tinham escolhido um “guarda” novo para ficar com uma responsabilidade assim tão grande, eu não conhecia ninguém, nem os funcionários eu conhecia. Pensei comigo que se dependesse de mim eu segurava todo mundo, e só liberava se alguém dissesse que era para liberar, que estava tudo bem. Aí pensei comigo, só tenho uma saída, quando alguém parar no meu portão querendo adentrar a gaiola da administração eu pergunto para ele se posso liberar, se está tudo bem, eu não tinha outra saída.

Começaram a chegar mais visitantes, mais mulheres, poucos homens e algumas crianças. A maioria todos carregando “jumbos” (sacolas pesadas).

No final da tarde por volta das quinze horas, vi que algumas pessoas já estavam saindo. Observei que era uma mulher e usava crachá. Olhei bem na face dela e a reconheci, olhei para ele e perguntei se podia liberar. Ele disse-me que sim. Fui até próximo dele e perguntei se os visitantes já estavam saindo. Ele respondeu-me que aquela visitante sempre era uma das primeiras a sair e que ainda era cedo para os demais começarem a sair. Escutei um sinal e perguntei se aquele era o sinal de término. Ele disse-me que era o primeiro sinal de um total de três e que agora sim ia começar a saída dos visitantes e que agora era para valer.

Vi que na frente do Setor Penal ficavam uns funcionários meio que olhando e controlando os visitantes, e os liberavam aos poucos. Observei que os homens, eles seguravam e liberavam de um em um, isso me trouxe mais tranquilidade. Eu olhava com muita atenção todos os visitantes, alguns eu não reconhecia, mas quando isso acontecia eu perguntava para ele se eu podia liberar. Eu confiava muito nele, pois ele conhecia até o horário de saída dos visitantes. Tudo ocorreu dentro da normalidade, precisei ir ao banheiro. Quando retornei percebi que alguns funcionários interceptaram uma pessoa no Setor de Revisora, eu olhava a pessoa (ela portava o crachá de visitantes) e não entendia, não tinha visto ela passar por mim, como ela teria passado pelo outro funcionário que conhecia bem os visitantes?

Eu precisava ver direito quem era esse “fujão” e saber de que Raio ou local ele teria saído e como o zelador do Raio, ou o responsável pelo local onde ele estava, não percebeu que ele estava fugindo, e como que os funcionários das gaiolas também não o teriam reconhecido, isso me trouxe um pouco de tranquilidade porque seria uma sucessão de postos com funcionários que ele teria conseguido passar sem ser notado, então se ele por ventura tivesse passado por mim em alguma falha minha eu não estaria sozinho em uma sindicância, apesar da minha preocupação, tendo em vista que eu ainda estava em estágio probatório.

Pedi para tomar um café no Setor Penal (mas meu objetivo era ver esse preso). Quando cheguei lá, vi ele ser “interrogado” pelos “guardas” e ele dizia que estava inconformado, dizia que tentou “ir (fugir) “na moral” (sem violência com nenhum funcionário) e que era para ir para o “pote” (castigo) sem “esculacho” (agressão). Disse que sempre fugiu assim, pela porta da frente, nunca fugiu em “tatu” (túnel), nem por “tereza” (corda improvisada para fugas).

Depois descobri que ele era um “conhecido” preso que praticava assaltos à banco, o mesmo que posteriormente teria roubado mais de trinta milhões do Banespa, era “fujão” mesmo, e já teria rodado pelo sistema passando por diversas cadeias (Penitenciária do Estado, Casa de Detenção de São Paulo e etc). Depois descobri que a Unidade Prisional achou melhor dar um “bonde” nele tendo em vista que temiam que ele passasse alguma informação relevante de como ele quase conseguiu fugir da Unidade Prisional pelo portão da frente. É realmente tenho que admitir que ele quase concluiu a fuga, foi por muito pouco mesmo.

A Unidade Prisional entendeu por bem fazer algumas mudanças quanto à verificação de saída de visitantes a fim de impedir que esse fato voltasse a acontecer.

Uma outra vez fui escalado para trabalhar naquele local, outros fatos mais estranhos também aconteceram lá, mas essa história fica para um outro dia.

_Colunistas-Diorgeres

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Diorgeres de Assis Victorio

Agente Penitenciário. Porta-voz da LEAP.

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