• 20 de setembro de 2020

Diário de um agente penitenciário: resgate, tentativa de fuga e mortes

 Diário de um agente penitenciário: resgate, tentativa de fuga e mortes

Por Diorgeres de Assis Victorio

“AS 12 REGRAS DO BOM BANDIDO

(- Extraído do Processo Administrativo nº 09/010 094/

1 – Não delatar;

2 – Não confiar em ninguém;

3 – Trazer sempre sua arma limpa, carregada, sem demonstrar volume, mas com facilidade de saque, e munição (sic) sobressalentes;

4 – Lembrar-se sempre que a polícia é organização e não substimá-la (sic);

5 – Respeitar mulher, crianças e indefesos, mas abrir mão desse respeito, quando sua vida ou liberdade estiverem em jogo;

6 – Estar sempre que possível documentado (mesmo com documento falso) e com dinheiro;

7 – Não trazer consigo retratos ou endereços suspeitos, bem como não usar objetos com seu nome gravado ou objetos de valor;

8 – Andar sempre bem apresentável, com barba feita; / evitar falar gíria; evitar andar a pé; não freqüentar lugares suspeitos; não andar em companhia de “chave de cadeia”;

9 – Saber dirigir autos, motocicletas, etc, conhecer/ alguma coisa de arrombamento, falsificação e noção de enfermagem;

10 – Lembrar-se sempre que roubar Cr$ 100,00 ou Cr$ 100 milhões resulta na mesma coisa;

11 – Estar sempre em contato com o criminalista, e

12 – Não usar, em hipótese alguma, tatuagem.

Folha de Processo.

OBS. – Encontrado em poder do bandido foragido do Instituto Penal Milton Dias Moreira de nome EDMILSON CONCEIÇÃO. (AMORIM, Carlos. Comando Vermelho: a história secreta do crime organizado. Rio de Janeiro: Record, 1993, p. 310) (g.n.)

Estávamos há dias sendo alertados de todas as formas que algo de muito ruim iria acontecer na cadeia. Era quase fim de ano, nessa época a “cadeia treme” porque muitos sentenciados ficam descontentes por ainda não ganharem o semiaberto, livramento condicional, e etc., reclamam sempre que há uma demora na apreciação dos benefícios, não admitem que irão passar mais um fim de ano presos, Natal, Ano Novo e Carnaval se aproximam e essas datas inflamam a população carcerária.

O stress “batia no teto”, toda a cadeia estava em estado de alerta “dentro das nossas possibilidades” em razão de sofrermos com um efetivo muito reduzido o que já é de conhecimento há anos do Governo sem que exista alguma solução para os nossos diversos pedidos.

Era noite de sábado, efetuamos a contagem quando assumimos o plantão sem nenhuma anormalidade, até porque assumimos o plantão de um encerramento de um dia de visitação, conversamos com os agentes que saiam e nos informaram que a visitação e a cadeia estavam tranqüilas, que não devíamos nos preocupar com nada, porque amanhã seria domingo e ninguém iria querer fazer nada para não atrapalhar a visitação do domingo, afinal de contas é Lei na cadeia, o respeito com o dia de visitas. Eu não acreditava mais nessa lei, até porque em 1995 nessa mesma Unidade Prisional já teria ocorrido uma rebelião com ASPs de refém e tudo isso em um domingo que também era um dia de visitas.

Em 2001 também ocorrera uma megarrebelião também em dia de vistas (o qual eu tive o desprazer de ficar de refém e que contarei em um outro artigo) e nesse diário que agora relato estávamos no fim do ano de 2003, porque que em virtude desses todos fatos aqui narrados, dessa vez não poderia acontecer algo no dia de visitas? Essa lei do cárcere tinha sido revogada sem sombra de dúvidas, somente alguns ASPs, acreditavam nela, ou tentavam nos acalmar com esse argumento sem sentido algum. É muitos ASPs estavam doentes em virtudes de rebeliões, afastados por problemas psiquiátricos, viraram alcoólatras, se envolveram com drogas e alguns até não aguentaram essa “carga nefasta” e faleceram em virtude das mazelas deixando esposa, filhos, etc.

Nada de suspeito durante o plantão. A cadeia estava um silêncio sinistro, só escutávamos o barulho do vento. Havia muita serração em virtude da cadeia ter sido construída em uma área rural e próximo de um rio e uma lagoa o que facilitava a “geladura” do ar e a intensidade da serração. Não se via mais que dois metros de distância. O uso de lanternas piorava a situação da neblina. Era entregar a Deus somente.

Por volta das três horas da manhã, ouvem-se disparos de armas de fogo, mais que rapidamente soa o alarme da cadeia, ouvimos pelo “rádio HT” o contato com os AEVPs (Agentes de Escolta e Vigilância Penitenciária, servidores que tinham substituído a polícia militar nas torres das Unidades Prisionais), eles nos informaram tratar-se de troca de tiros com elementos em uma ação de resgate de presos. Mais que rapidamente a polícia militar foi acionada pelo 190, o que rapidamente nos atendeu. Fomos informados que dois AEVPs estavam feridos e foram socorridos por uma viatura da PM. Iniciamos uma ronda na cadeia e verificamos que existiam celas com os “pirulitos” (barras de ferro da grade da cela) serrados.

Ao efetuarmos uma ronda no passadiço da muralha encontramos duas cordas com escada e dois ganchos (nesse caso não posso dizer que são “terezas”, ou seja, cordas improvisadas com lençóis e cabos de vassouras, porque não era essa a situação daquela realidade, pois não eram assim tão improvisadas quanto as que encontrávamos nas “blitz” (revistas de celas e da Unidade). Posteriormente, com o auxílio de mais “G.Ps” (guardas de presídios, agentes de segurança penitenciária) foi feita uma contagem nominal e verificação de grades das celas, onde foi constatado que nenhum preso havia fugido, mas constatamos que além das celas 25 as 23, 35 e 39 do Raio II estavam serradas, mas não existiam “jacarés” (serras), “bicudas” (facas), nada de anormal fora encontrado nessas celas.

Um AEVP nos disse que quando foi assumir o posto de uma Torre, foi rendido por dois elementos, os quais o mandaram deitar no chão, amarrando-lhe os pés e as mãos, sendo que, quando um outro AEVP veio render-lhe também foi rendido e amarrado. Quando os mesmos estavam rendidos, notaram que um elemento estava subindo a escada para a parte superior da Torre, um AEVP conseguiu se libertar e pegou a “calibre 12” efetuou disparos em direção ao elemento que subia a escada, nisso o outro AEVP também se soltou e também efetuou disparos alertando outros AEVPs, ocasião que houve troca de tiros vindo um AEVP a falecer, vindo um elemento que tinha “rendido” a torre também a entrar em óbito. Foram encontradas  várias armas nesse episódio, coletes à prova de balas, escadas que seriam utilizadas para a fuga, celulares e abandonado próximo a Unidade em uma valeta um veículo Pálio e dentro do mesmo foi encontrado uma submetralhadora com silenciador. Em um local mais distante da Unidade Prisional foi encontrado um outro veículo, um Vectra.

Já era domingo, visitantes aguardavam ansiosamente adentrarem a Unidade para efetuarem a visitação, alguns ouviram os tiros porque há visitantes que dormiam na “porta” da cadeia. As mortes e a tentativa de fuga não interferiram na visitação que ocorrera normalmente, sem que ao menos ocorresse uma Revista Geral na Unidade, a fim de procurar armas escondidas, “terezas” e etc., afinal de contas, funcionário é sempre substituído através de um concurso não é mesmo? Se preocupar com a segurança de visitantes, incluindo crianças e idosos também é besteira não concordam? Afinal de contas na prática a pena, a prisão é transpessoal, sem sombra de dúvidas e isso não posso me atrever a negar!

É, ta aí mais uma triste realidade da cadeia.

_Colunistas-Diorgeres

Diorgeres de Assis Victorio

Agente Penitenciário. Penitenciarista. Pesquisador