ArtigosCriminologia Penitenciária

Diário de um agente penitenciário: sexta-feira na cadeia

Por Diorgeres de Assis Victorio

“Teoricamente expõem BARNES e TEETERS em palavras destacadas pelo professor NOÉ AZEVEDO – a prisão pode ser uma excelente instituição para a reforma do criminoso, mas à luz de seus métodos práticos e de sua hodierna atuação talvez nada de mais ineficaz e vicioso possa ser concebido como método de proteção da sociedade para livrá-lo das depredações das classes anti-sociais. Quase tudo quanto pode contribuir para solapar e desmoralizar a personalidade humana se encontra nas prisões hoje e nos métodos contemporâneos de administração penal” (AZEVEDO, Noé. O fundo de vingança na penologia moderna, em Revista dos Tribunais, vol. 152, 1944, p. 432-433)

Eis que chega sexta-feira. Eu estava muito curioso e afoito, estava chegando o fim de semana e eu queria ver como acontecia a visitação na cadeia. Já tinha ouvido falar muitas coisas, mas eu queria ver na prática como a mesma ocorria. Quando bati o cartão de ponto e apresentei-me na “Penal”, fui informado que estava escalado de novo no Raio I (acho que eles queriam me adaptar primeiro nesse Raio, me avaliarem para verem se eu poderia “subir a galeria” para outros postos, eu ainda nem conhecia o temido “fundão da cadeia”).

Ao fazer a soltura dos presos depois das contagens, observei que já estavam de pé e que não havia mais o estender de braços através dos “come-quieto”. Verifiquei que os presos colocavam os colchões ao redor da quadra de futebol para tomarem sol, eles lavavam os lençóis para a prática de visita íntima, faziam filas para cortarem seus cabelos, pediam “peças” para se higienizarem. Aprendi que um preso ficava responsável para lavar e limpar o barraco.

O futebol acontecia normalmente na cadeia como todos os dias da semana (menos nos fins de semana, o que explicarei em um outro dia quando falarei do “dia de visita”). Os jogadores de futebol agora além de se preocuparem quanto a ganhar o jogo, tinham agora que ter muita atenção para desviarem dos colchões de espuma que ficavam ao redor da quadra tomando sol, para que assim eles aquecessem e saísse o cheiro característico das celas que só quem já entrou em uma cela sabe do que eu estou dizendo. Presos que estavam na função de goleiro utilizavam da trave em alguns momentos para fazerem “barra” enquanto não havia um perigo de sofrerem algum gol. Muita gente fazendo exercícios, correndo, pulando corda, fazendo flexões de braço, abdominais, a atividade física nesse dia era intensa, tudo com o objetivo de preparar os corpos para as visitações no fim de semana, o dia de visitação na cadeia.

O Setor de Almoxarifado começava a transportar os carrinhos cheios de alimentações para o Setor de Cozinha, tudo para que no fim de semana esteja tudo preparado para fazer a alimentação no dia de visitas, era um “eterno” vai e vem de carrinhos do Almoxarifado. Na cadeia alguns presos trabalhavam nas fábricas que se utilizavam do preso como “mão de obra barata” e eles além de receberem seus “salários” ainda poderiam utilizar o instituto da remição de pena (mais detalhes sobre os serviços nas fábricas serão prestados em um outro dia).

Os presos das fábricas não trabalhavam nesse dia no período da tarde, tudo em virtude da visitação no fim de semana, para que assim eles pudessem se preparar para o segundo dia mais esperado da cadeia, só perdendo assim para o dia da liberdade.

Muitos presos vinham e pediam “camisinhas” para terem relações sexuais, outros pediam para serem levados ao Setor de Rouparia para trocarem os colchões que estavam muito finos e estragados, também pediam para trocarem lençóis, pediam toalhas, era o dia de troca do “enxoval” do preso.

Presos nos pediam para entrar em contato com o Setor de Manutenção para virem desentupir o “boi” (vaso sanitário), pois amanhã era dia de visitas. Também nos pediam lâmpadas, pediam também para virem ver o por que da cela estar sem luz.

Alguns presos nos entregavam “pipas” (bilhetes) endereçados ao “Setor de Rol de Visitas” (setor da cadeia que ficava responsável para incluir e excluir visitantes dos sentenciados), nesses “pipas” eles pediam para conferirmos se realmente o visitante que ele pedira para ser incluído estava incluído no “Ral” (via de regra os presos não falavam Rol de visitas e sim “Ral de visitas”).

O Setor de Rol de visitas nesse dia recebia uma quantidade de “pipas” muito grande e só retornava as informações depois do almoço, mas muitos presos não aceitavam isso, ficando assim “cobrando um retorno” do agente muitas vezes, nisso alguns presos “piolhos” (presos mais experientes e que já estavam mais tempo cumprindo penas) irritavam-se e diziam: “- Aí vacilão, vai ficar acelerando o mestrão mesmo é? Depois que for para o castigo vai falar que preso não tem sorte”.

Nisso, esse tal preso, retirava o preso que pedia informações de perto da gente e mais “de quebrada” (escondido) dava um “esculacho” (reprimenda) no preso, porque ali estava em jogo a informação sobre o Rol de Visitas, informação que muitos presos ali solicitavam e como dizem na cadeia “visita é responsa”.

Os faxinas pediam para substituirmos as vassouras e os rodos, assim como também pediam pedaços de pano para secarem alguns lugares quando da lavagem dos Raios. Havia um controle rígido dos cabos das vassouras e dos rodos, porque eles eram muitas vezes utilizados para fixarem as “terezas” (cordas improvisadas para fugas).

Os presos rapidamente começam a pegar seus colchões (se alguém largar o colchão para fora da cela quando a mesma já estiver trancada, vai dormir sem o mesmo, eis mais uma “lei da cadeia” (uma vez trancada as celas não se pode mais abri-las para pegar colchão, tênis, roupa e etc é uma regra de segurança que só permitem que as mesmas sejam abertas em um caso de extrema necessidade e urgência e se fossemos ter que abrirmos as celas toda vez que algum preso esquecesse algo para fora nós nunca iríamos “trancar a cadeia”, seria um meio que eles se utilizariam para circular no Raio entregando drogas em outras celas e etc)

A “bóia do jantar” era “paga” (servida) pelos “boieiros”. O carrinho da bóia sai do Raio, eis que os faxinas do Raio aguardam ansiosamente à hora de “lavar a cadeia”. Boieiros retornam da entrega do carrinho da “bóia” ao Setor de Cozinha, eles começam a dar um “pião” (volta na quadra).

Por volta das dezessete horas era fornecida uma mangueira e ela era colocada em uma espécie de hidrante para que assim os presos da faxina lavassem todo o Raio para a visitação no fim de semana. Muito sabão em pó é jogado em tudo quanto é local, assim como também jogavam creolina, presos que não são faxinas estão proibidos de circular para que assim não atrapalhem a limpeza e consequentemente os faxinas não entendam que estão sendo “tirados na cadeia” (desrespeitados) e não tenham que “cobrar alguém por alguma fita furada” (é nessa hora que o aço come solto algumas vezes (alguém é furado por alguma “bicuda” (faca)), alguém tem que pedir “seguro” e até muitas vezes “bonde” (transferência). Litros de água e muito sabão descem as escadas da ala superior do Raio, nós agentes nos sentíamos meio que ilhados pela água e pela espuma. Tudo é muito bem lavado, impera um cheiro forte de sabão em pó no ar.

Um funcionário nos entrega as cartas dos presos para que nós entregássemos ao carteiro do Raio, mas ele não as pode receber porque a faxina ainda não tinha terminado e essa “lei da cadeia”, ele tinha que obedecer. Agora boieiros e carteiro, aguardavam o término da faxina e continuavam no “pião” no Raio.

Começam a retornar os presos do Raio que estavam trabalhando no Setor de Cozinha, os mesmos se juntam aos boieiros e a carteiro.

A faxina se encerra, alguns presos preferem “pagar uma ducha” (tomar banho) nos banheiro coletivo, para que não tenham que tomar banho no “barraco” (cela). O carteiro vem até nós, pega às cartas e inicia sua saga de entrega das cartas por todo o Raio. A entrega das cartas é feita com rapidez.

Os presos da cozinha pedem para serem trancados (querem descansar e entregar o “recortado” que trouxeram do Setor de Cozinha para que assim os moradores de suas celas e eles próprios possam dar uma melhorada na “gororoba” (alimentação) que acabara de ser “paga” (servida) pelos boieiros.

Aproveitamos a oportunidade e trancamos os presos que estavam no “pião”, agora temos que efetuar a contagem dessas celas que estamos trancando.

Mais um dia para mim (dia de serviço que se encerrava) e menos um dia (de cadeia) para os presos. Aguardava agora o dia da visita, o que contarei em uma próxima oportunidade.

_Colunistas-Diorgeres

Autor

Agente Penitenciário. Penitenciarista. Pesquisador
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