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Das distopias e do totalitarismo

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Das distopias e do totalitarismo

Já é notícia velha: a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos trouxe novos vocábulos à linguagem: fake news, pós-verdade e o clássico de George Orwell, “1984”, foi parar na lista de best sellers novamente, segundo reportagem do icônico jornal “New York Times”.

No Brasil, outro clássico de Orwell, “A revolução dos bichos”, está na lista de mais vendidos, de acordo com diferentes fontes, da revista semanal “Veja” ao site da Livraria Cultura.

Quanto ao impacto das fake News, somente agora a mídia e a população começam a avaliar os estragos causados pelo uso dessas ferramentas relativamente novas, as redes sociais, para a disseminação de notícias tão absurdas, como a de que Hillary Clinton, a candidata derrotada do Partido Democrata, seria pedófila, que fica difícil entender como alguém poderia levar tais conteúdos a sério.

O documentário “Nobody speak: trials of the free press” (Ninguém fala: julgamentos da imprensa livre, numa tradução livre), disponível no serviço de streaming Netflix, mostrou que a promiscuidade entre milionários, políticos e grandes veículos da mídia comprometem a sobrevivência da própria liberdade de expressão, baluarte máximo da sociedade norte-americana, e especificamente nos EUA foram responsáveis diretos pela vitória de Donald Trump.

No início do século XXI, a sombra do totalitarismo e de governos antidemocráticos volta a crescer, tanto no oriente quanto no ocidente. O que faz um cidadão expressar preferência por regimes autoritários e rejeitar regimes democráticos?

Érico Veríssimo, em seu clássico “O tempo e o vento”, debruçou-se sobre a questão. Na trama que cobre duzentos anos de formação política, social e histórica do Rio Grande do Sul e do Brasil, os personagens não perdiam ocasião de discutir os eventos políticos:

Comentam-se ditadores e governos de força. Há pouco, Eduardo e irmão Zeca se engalfinharam numa discussão em torno da personalidade de Franco. O primeiro acha-o tão desprezível quanto Hitler e Mussolini. O marista tentou provar que o caudilho espanhol ‘é um pouco diferente’. Agora, mais calmos, discutem os motivos por que os povos se deixam levar tão facilmente pelos governos de força.

(…)

-Como é que explicas a necessidade que o povo tem de governos fortes?

– Bom – começa o filho-, eu acho que para a maioria das pessoas a liberdade, com a responsabilidade que envolve, é um fardo excessivamente pesado. Daí a necessidade que tem o homem comum de refugiar-se no seio dum grupo humano ou colocar-se sob a tutela dum chefe autoritário que, se lhe tira certas liberdades civis, lhe dá em troca a sensação de segurança e proteção de que ele tanto precisa.

(…)

– Ora, é sabido que nos Estados Unidos essa aparente democracia econômica, essa falsa coletivização não passa dum estratagema da indústria e do comércio para venderem mais. Como a economia ianque não é estatal, a competição se torna mais caótica e competitiva. Vocês vão ver…

Agora que terminou a Guerra e as fábricas americanas cessaram de receber grandes encomendas de armas e munições, milhões de operários vão ficar sem trabalho. Então, o remédio será criar e alimentar o medo de uma nova guerra, a fim de que se justifique novo aceleramento da produção bélica… E a propaganda já começou…

(…)

– Todos esses correligionários, amigos, peões, capangas, criados, todos esses ‘crentes’ que formavam a massa do eleitorado em tempo de eleição e engrossavam o exército em tempo de revolução, seguindo quase fanaticamente seus chefes, todos esses homens, fosse qual fosse a cor de seus lenços, viveram na minha opinião alienados. Aceitaram irracionalmente a autoridade de Castilhos, de Gaspar Martins, do senador Pinheiro, de Borges de Medeiros e outros como viriam mais tarde a aceitar a de Getúlio Vargas.

(…)

– Eu me refiro à autoridade irracional – replica Floriano -, a que não se baseia na competência mas se impõe pela força e se mantém pela propaganda, pela intimidação das massas  por meio da polícia ou pela exploração dos ‘medos sociais’: o de ficar sem proteção, de ser destruído por inimigos externos ou internos, o de não ter o que comer, nem o que vestir, nem onde morar. (…)” (O tempo e o vento – O Arquipélago I; pgs. 276-290).

Utopia (significado: não lugar), de Thomas More, criou a sociedade perfeita, um cenário em que a humanidade viveria livre e feliz.

Diante dos horrores da 1ª e 2ª Guerras Mundiais, o mundo conheceria o termo “distopia” ou “utopia negativa”. Orwell, Huxley com seu clássico “Admirável Mundo Novo”, o russo Zamyatin em seu livro “Nós”, mais recentemente a canadense Margaret Atwood com seu “O conto da aia”, lançado em 1984(uma data quase mítica), criaram, cada um a seu modo e de maneira brilhante, sociedades totalitárias, com perda total ou quase total das liberdades civis.

Distopias

Admirável Mundo Novo é sempre lembrado quando se fala em distopias. Seu título vem da peça de Shakespeare, “A tempestade”.


Se você gosta de distopias, leia mais sobre distopias em: 

  • Por que ler o livro Direito & Literatura, organizado por Paulo Silas Filho (aqui)

Huxley criou uma sociedade hedonista, na qual a promiscuidade era até incentivada, e onde toda a história foi redesenhada pelos donos do poder. Humanos eram criados em laboratório, divididos em Alfas, Gamas, Betas, Ípsilons, já com seu destino definido: cada um seria o que estava geneticamente determinado para ser:

– E esse – interveio sentenciosamente o Diretor – é o segredo da felicidade e da virtude: amarmos o que somos obrigados a fazer. Tal é a finalidade de todo o condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social do qual não podem escapar.” (Admirável Mundo Novo, pgs. 24/25).

Essa sociedade moderna, na qual aparentemente tudo era permitido, promiscuidade, drogas, era, na realidade, uma perfeita ditadura. Como todos estavam completamente alienados da realidade, ninguém ou quase ninguém a questionava.

Se “1984” tinha o Grande Irmão como mito, em Admirável Mundo Novo a história havia sido reescrita após uma revolução comandada por Ford, elevado a status de semideus:

Lembram-se todos – disse o Administrador, com sua voz forte e profunda -, lembram-se todos, suponho, daquelas belas e inspiradas palavras de Nosso Ford: ‘A história é uma farsa’. A História – repetiu pausadamente – é uma farsa. (Idem, pg. 46.).

A reescrita da História implica obviamente na destruição da cultura até então:

Acompanhada de uma campanha contra o Passado; do fechamento dos museus, da destruição dos monumentos históricos, que foram arrasados (felizmente, a maioria já havia sido destruída durante a Guerra dos Nove Anos); da supressão dos livros publicados antes do ano 150 d. F. (Idem, pg. 66).

Nessa ditadura não aparente, qualquer pessoa que desafiasse ou desobedece às regras explícitas ou implícitas era mandada ao exílio. Trabalhos culturais eram submetidos a autoridades que iriam decidir se seria publicado ou não. No entanto, como em todo sistema de poder, os que faziam as leis podiam se dar ao luxo de burlá-las:

– O senhor também o leu? – perguntou – Julguei que ninguém tivesse ouvido falar nesse livro aqui na Inglaterra.

– Quase ninguém. Sou uma das raríssimas exceções. O senhor compreende, ele está proibido. Mas, como sou eu que faço as leis aqui, também posso transgredi-las. Impunemente, senhor Marx – acrescentou, dirigindo-se a Bernard. – O que, lamento dizê-lo, o senhor não pode fazer.”(idem, pg. 265).

Desinformação, manipulação da realidade, ou simplesmente o exercício do medo: incutir o medo da punição é sempre uma estratégia eficiente aos que almejam chegar ou se manter no poder.


Se você gosta de distopias, leia mais sobre distopias em: 

  • Direito & Literatura: Diálogos com Orwell, Kafka e Harper Lee (aqui)

Para finalizar, sobre a Revolução dos Bichos, disse Christopher Hitchens:

O que o romance na verdade nos diz, com seus amenos empréstimos de Swift e Voltaire, é que aqueles que renunciam à liberdade em troca de promessas de segurança acabarão sem uma nem outra. Essa é uma lição que transcende o momento em que foi escrita.


REFERÊNCIAS

HITCHENS, Christopher. Repensando a Revolução dos Bichos. 2006.

HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. 1. ed. Globo: São Paulo, 1941.

VERÍSSIMO, Érico. O tempo e o vento: O arquipélago I. São Paulo: Círculo do Livro. 1961.

Autor

Especialista em Ciências Penais. Advogada.
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