• 23 de setembro de 2020

Do sexo à justiça: em tudo, atração e simbiose

 Do sexo à justiça: em tudo, atração e simbiose

Do sexo à justiça: em tudo, atração e simbiose

Hoje eu venho vos falar da simbiose. Do liame que nos une ao outro. Da conjunção que une homem e máquina, o praticante de esportes com o objeto esportivo, a mulher ao homem.

Na relação sexual, quando intensa e, existe entrega, no ápice das sensações, o outro desaparece. Você mesmo desaparece. Os dois são apenas uma criatura e as sensações nos arrebatam para outra realidade. Vivemos a essência da experiência com a arrebatadora sensação de estar em um mundo paralelo. A simbiose existe e não apenas no sexo, eis que em quase tudo pode ocorrer a junção de criatura e criatura, criatura e objeto, criatura e natureza.

Na direção, quando de posse de um carro ou moto, potente, o motorista sente que o torque do motor provém dele mesmo. A velocidade, o empuxo, lhe encanta, ocorre a simbiose entre criatura e máquina, e se não houver responsabilidade, o resultado por vezes é catastrófico, fatal. É o risco de se adicionar ao corpo frágil de uma criatura humana a força de trezentos cavalos.

No esporte, ao surfar sobre as ondas, ou ao saltar de paraquedas, ocorre a simbiose, e a criatura humana abraça o mundo quando em queda, sentindo-se parte do todo e integrada ao todo, ou torna-se parte do mar quando por sobre as ondas. O corpo humano é formado 60% de líquido. Somos parte de um todo e determinadas atividades possuem a capacidade de religar-nos com a natureza.

Somos feitos de poeira de estrelas. Somos o próprio universo que pensa e se observa. Quando você olha o céu noturno e vê estrelas distantes você provavelmente ignora que neste instante é o universo que se observa no espelho. Pesquisas comprovaram que tanto os seres humanos quanto os astros brilhantes possuem 97% do mesmo tipo de átomos.

Voltando as relações afetivas. A simbiose na relação entre duas criaturas, enlaçadas em alvos lençóis, é de tão grande importância que, quando finda a simbiose, passa-se a projetar outras criaturas que, quiçá, oportunizem o momento de arrebatamento. E não raro, o casamento perdura por anos, girando em torno dos filhos e do patrimônio, porque a criatura encontrou, fora do ambiente doméstico, a emoção que lhe traz um determinado brilho nos olhos. A vontade de viver. O sentir-se amado e desejado. Vivemos em busca das simbioses da vida.

Neste raciocínio, não podemos ignorar a lei da atração. Os planetas gravitam em torno do Sol pelo magnetismo da atração. A lua gravita em torno do planeta pela atração. As criaturas gravitam em torno umas das outras pela atração. Quando ocorre atração, imediatamente se projeta a simbiose, Não existe simbiose sem atração.

Pois bem. Chegamos ao tema da vida profissional.

Passamos muitos anos de nossas vidas no labor, no trabalho, na construção de nós mesmos e da sociedade. Se não houver atração pelo trabalho não haverá, pois, simbiose entre a criatura e a atividade desenvolvida. Uma vez que o trabalho constituiu grande parte do lapso de vida, trabalhar sem atração e/ ou sem simbiose é desprezar a vida.

O advogado, no plenário do Tribunal do Júri, faz ecoar a sua voz na defesa dos direitos do cidadão. Ele sabe que não está defendendo um assassino, mas o direito que toda criatura humana tem de ser julgado por um Tribunal justo e imparcial, sob ritos processuais que lhe garantam direito de ampla defesa, contraditório, a fim de evitar que o passado se repita. Um passado em que a máquina do Estado era usada pera perseguir desafetos políticos e ideológicos.

O advogado encontra-se apaixonado pois sabe que os homens são ruins, egoístas, e que se não houverem princípios, valores, e respeito as normas da constituição, à dignidade da criatura humana, os julgadores e acusadores tornar-se-ão algozes, vingadores, violadores de corpos negros no afã de fazer pretensa justiça. Sim. O racismo persiste e encontra-se institucionalizado no julgador embrutecido que ignora a seletividade do sistema criminal.

Para exercer a advocacia é necessário sentir atração pela liberdade, pela justiça, pela igualdade social, pelo respeito às diferenças, pela pluralidade, pela vida, para que ocorra a simbiose entre você e a justiça, sempre que uma criatura tiver seus direitos violados.

Quando existe simbiose entre a criatura e a justiça, e a criatura assiste um agente do Estado, garantidor das liberdades, agredindo um ser humano por ser pobre, por morar na periferia, por ser, portanto, vulnerável, a dor das pancadas, das agressões são sentidas naquele que vê ali uma injustiça.

A violação da justiça lhe constrange o peito. A voz se represa na garganta. O desejo de desforra percorre todas as veias e artérias de seu corpo. Um desejo de reparar a justiça lhe arrebata e o advogado torna-se a voz do oprimido.

Levanta-se, bate no peito do agente do Estado para lhe arrojar ao seu lugar de direito. O lugar do homem de farda é na salvaguarda da vida e do patrimônio.

Os homens são maus por natureza, e o poder, quando nas mãos de homens sem apreço pela justiça, os levam a violar os frágeis, os vulneráveis.

O advogado levanta-se, aviltado. Em nome da justiça, sempre. Entrega a vida em nome de valores sem os quais viver não vale a pena…

Liberdade, igualdade e fraternidade.


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Nelson Olivo Capeleti Junior

Bacharel em Direito pela Faculdade Cenecista de Joinville. Advogado.