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“É proibido beijar em estações de trem”: leis históricas e contextos sociais

Canal Ciências Criminais

Por Vitor da Matta Vivolo


Charles Darwin, treze anos após o rebuliço causado por sua famosa obra evolucionista, publicou um ensaio chamado “A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais”. Nele, diversos comportamentos julgados inatos na humanidade são postos em perspectiva e contextos sociais diferentes. No oitavo capítulo, ao comentar demonstrações de ternura, diz:

“Nós, europeus, estamos tão acostumados a beijar como sinal de afeição que poderíamos pensar que isso é inato ao ser humano; mas não é o que acontece. (…) O que parece ser natural ou inato é o prazer associado ao contato íntimo com uma pessoa amada; assim, o beijo foi substituído em diversos lugares do mundo pelo esfregar dos narizes, por roçar ou apertar os braços, o peito, a barriga, ou por um homem bater no seu próprio rosto com as mãos ou os pés do outro. Talvez o costume de soprar em diversas partes do corpo como sinal de afeição tenha se originado do mesmo princípio”.

É curioso notarmos que associações entre o sopro e o beijo remontam laços matrimoniais e de confiança desde a época medieval, séculos antes da obra quase antropológica de Darwin. Acreditava-se que, para “selar” um contrato, a troca de hálitos era necessária. Aproximavam-se os lábios e a respiração dos envolvidos servia de permuta, no sentido religioso de “compartilhamento de almas”.

Biologicamente, sabemos que o contato labial é gatilho na atuação e liberação de diversos compostos químicos associados à sensação de prazer: dopamina, oxitocina, epinefrina (também conhecida como “adrenalina”) e serotonina. Além disso, a fisiologia comportamental nos apresenta diversas evidências de que o toque compartilhado entre duas pessoas, somado a esse coquetel orgânico, colabora na criação de vínculos simultaneamente emotivos e sociais.

Herdamos muitos comportamentos afetivos (e, neste caso, labiais) dos movimentos românticos medievais e suas posteriores reapropriações até a era novecentista, responsáveis pela criação do ideário amoroso nas relações de envolvimento. A já cansativa (mas inescapável) figura dos amantes, os envoltos no conflito impossível entre seus corações e compromissos sociais: Romeu e Julieta, Lizzy e Sr. Darcy, etc. A própria Rainha Vitória contrariou seus conselheiros, dizendo que casaria, acima de tudo, por amor e somente após se apaixonar pensaria na simbologia política de seu ato.

O advento da modernidade também trouxe repercussão nos campos da filematologia (a ciência de estudo dos beijos), responsável não só pela representatividade e biologia do contato entre lábios, mas também por seu impacto higiênico e medicinal. Panfletagens contra a demonstração pública de afeto – no caso, a “prática da osculação” –  não eram raras, revestindo a austera moralidade do século XVIII e XIX com os discursos científicos sobre propagação de doenças (em sua maioria venéreas), febres e epidemias bacterianas.

Há também pitorescos relatos de viagem. O explorador inglês William Winwood Reade, apaixonando-se por uma filha de um rei de uma tribo africana, tentou beijá-la… A garota correu desesperadamente para longe, tendo acreditado que o rapaz havia tentado devorar seu rosto. Beijar, como Darwin já dizia, não era uma prática tão universal e sem contradições como gostamos de acreditar.

Apesar disso, o beijo permaneceu inerente ao imaginário idílico e romanesco, sendo mais desejado do que repelido pelos amantes através da história ocidental. O povo francês era especialmente identificado com tal prática, inclusive até hoje sendo homenageado pelos povos de origem inglesa através da expressão “french kiss” (nosso famoso “beijo de língua”). Foi com inevitável choque, então, que os jornais internacionais receberam a notícia da aprovação de uma lei em cinco de abril de 1910. O jornal The West Australian trazia na íntegra sua transcrição:

“Defense de s’Embrasser. – É estritamente proibida a troca de beijos nas plataformas de trem ou nas áreas de espera ou nos degraus dos carros ferroviários do Estado, devido aos frequentes atrasos ocasionados pela prevalência desta prática dilatória e responsável pelo distúrbio do adequado transcorrer do trânsito, através do retardo na saída de trens, que é, portanto, plena de inconveniência e até mesmo perigo público, visto que a primeira condição de segurança ao se viajar é a pontualidade. Indivíduos descobertos beijando-se serão aptos à acusação legal”.

O texto acima era afixado em diversos ambientes das estações ferroviárias, acompanhado pelo aviso “proibido beijar” nos chãos das plataformas em garrafais letras azuis. Os jornais britânicos satirizaram a prática, dizendo que os franceses haviam descoberto a solução definitiva aos constantes atrasos de diversas empresas ferroviárias. No entanto, um famoso ditado é conhecido entre aqueles que estudam o passado: “a história se repete”.

Em fevereiro de 2009, a estação Warrington Bank Quay, na Inglaterra, recepcionou seus passageiros com duas placas proibindo a prática de beijos de despedida. O motivo? O mesmo apresentado quase cem anos antes na França, atrasos e melhor eficiência, desta vez encaminhando os beijoqueiros às áreas reservadas para tal prática. Os casais são encaminhados a um espaço de despedidas no estacionamento do local, podendo lá permanecer por cerca de vinte minutos.

Em diversas entrevistas realizadas com os responsáveis pela ideia, o público foi tranquilizado de que medidas legais não seriam tomadas. A proibição era de caráter muito mais conscientizador do que coercitivo.

Não há registros se sua antiga irmã francesa (que, afinal, era uma lei) chegou a punir os afetivos criminosos que a violassem. Aliás, ela continua em voga na legislação francesa, juntamente a demais leis antigas como “é proibido nomear um porco Napoleão”. Ambas não parecem ser levadas à risca, nos fazendo refletir sobre a relevância de leis cujo teor não mais sequer é cogitado por nossos costumes. Legalidade, quotidiano e usos das leis são absolutamente relativos e produtos sociais de seus tempos.

Aos nossos olhos modernos, tais práticas são vistas como completamente ridículas. Devemos pensar que o humor presente nesses casos só é por nós possível por vivermos em uma época diferente, em uma sociedade diferente, cercados de práticas diferentes das de séculos atrás. Além de episódios divertidos, podem nos revelar o quão contraditórios são os resquícios do passado em nossa vivência moderna: uma época ainda obcecada por eficiência e produtividade, mas que, pelo menos, permite alguns beijos de despedida.

_Colunistas-VitorMatta

Autor
Historiador. Mestrando em História. Pesquisador com ênfase no Século XIX e Belle Époque.
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