ArtigosSerial Killers

Ed Gein, o louco carniceiro


Por Bernardo de Azevedo e Souza e Henrique Saibro


“Eu gosto desse lugar [referindo-se ao hospital psiquiátrico], todos me tratam bem, embora alguns deles sejam um pouco loucos” (Edward Gein)

A PERSONALIDADE

Há personalidades que inspiram filmes emocionantes em Hollywood, como, por exemplo, a do empresário Christopher Paul Gardner, interpretado por Will Smith em “A Procura da Felicidade”. Por outro lado, há pessoas que estimulam películas sangrentas e macabras como “Psicose”, “O Massacre da Serra Elétrica” e “O Silêncio dos Inocentes”. Essa pessoa foi Edward Thedore Gein.

Edward, mais conhecido como Ed, ou apenas Eddie, sofria de uma aflorada fantasia edípica. Sua mãe o protegia exageradamente quando ainda criança, proibindo-o de conversar com mulheres (“mulher boa é mulher morta”, dizia ela) e com meninos da mesma idade para não incorrer em pecado. Sua vida foi contaminada por crenças religiosas. Sentia ódio de seu pai; sujeito alcoólatra, desempregado e, nas palavras de Gein, “inútil”. Temia ser igual ao genitor. Criou-se, juntamente com seu irmão mais velho e sua mãe, em uma fazenda isolada da cidade, em Plainfield, Wisconsin, nos Estados Unidos. Ir para a escola era uma tortura – seus colegas não passavam um dia sem fazer bullying contra aquela criança tímida e que “parecia uma menina”.

Quando seu irmão e sua mãe morreram, Eddie isolou-se em sua fazenda. Possuía como hábito limpar os cômodos de sua falecida genitora, mas não mantinha a mesma higiene nos outros móveis da casa. O seu quarto, por exemplo, exalava um cheiro intragável, mas ele pouco se preocupava, desde que a sua mãe, mesmo morta, percebesse que as suas coisas estavam asseadas. Com o passar do tempo, Gein foi adquirindo hábitos estranhos. Passou a ler compulsivamente relatos de experiências feitas por médicos nazistas em judeus e livros sobre a anatomia feminina. Mas nada se comparava ao deleite que sentia com o seu principal entretenimento: ler a sessão de obituários e escolher, dentre os mortos, o defunto mais parecido com o de sua mãe.

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Ed “revirava” sepulturas para anatomizar mortos parecidos com a mãe (Augusta Gein)

Feita tal escolha, chamava o seu único amigo (Gus) para ajudar a desenterrar os corpos recém-enterrados no cemitério de Plainfield para levá-los até a sua casa. Furtava as lápides e violava as sepulturas sob o pretexto de realizar “estudos científicos” com os cadáveres. Seu amigo, enganado, lhe auxiliava cegamente. Em casa, Gein anatomizava os corpos e guardava algumas partes e órgãos (sempre do sexo feminino). Posteriormente, passou a retirar a pele dos defuntos e fazia “roupas” (daí a inspiração de Tobe Hooper e Jonathan Demme, diretores, respectivamente, de “O Massacre da Serra Elétrica” e de “O Silêncio dos Inocentes”). Com esse estranho “vestuário”, vestia um velho manequim que possuía em seu quarto e, em noites especiais, vestia a muda de pele e fazia um ritual bizarro com cantorias, pulos e danças ao redor de sua casa.

Também demonstrava certo fascínio por genitálias femininas. Costumava retirá-las dos corpos furtados e rechear calças do sexo oposto com os genitais. Dizia que se sentia mulher quando as vestia. Sonhava em ter condições financeiras para realizar um procedimento cirúrgico para trocar de sexo. Gein passou a ser conhecido pela vizinha como “o estranho velho Eddie”. Mas até em práticas anormais o ócio se instala. Eddie já não sentia tanto tesão ao revirar defuntos e, ainda por cima, o amigo Gus havia sido internado em uma casa para idosos. Passou, então, a traçar outros planos em sua mente. Foi quando tudo começou.

AS VÍTIMAS

Mary Hogan foi a sua primeira vítima. Foi assassinada com um tiro de calibre 32 na cabeça em 8 de dezembro de 1954. O que Gein fez com cadáver de sua vítima foi realmente surreal. Retirou, como de costume, a pele do corpo para depois vesti-la. Decepou a genitália de Mary e a pintou de prata deixando-a exposta em uma caixa de sapatos. Ao contínuo, separou alguns ossos e utilizou-os para a confecção de móveis para a sua casa. Também separou algumas especiarias humanas para fritá-las. Detalhe: Mary era muito parecida com a mãe de Eddie.

E assim Eddie procedeu com dezenas de vítimas – que, até hoje em dia, ninguém sabe informar um quantitativo certo de homicídios. Suas práticas macabras tiveram fim quando sequestrou e assassinou a mãe de um xerife local, Bernice Worden, que trabalhava em uma ferragem na cidade. Quando o seu filho entrou na loja e encontrou rastros de sangue verificou que, no livro diário, constava o nome de Edward Gein. Foi até à sua fazenda e não o encontrou, mas logo o achou em uma propriedade da vizinhança, momento em que, ao avistar o xerife, logo salientou:

“Como alguém pode me culpar pela morte de Bernice Worden?”

Como o assassinato ainda não havia sido veiculado pela imprensa nem pela própria polícia local, Eddie foi preso na mesma hora. Gein foi encaminhado pelos xerifes até sua residência para ser inquirido. Chegando ao local, eles não acreditaram no que viram. Bernice estava pendurada de cabeça para baixo fincada por um gancho (como os de açougue) sem cabeça e sem intestinos (posteriormente foram encontrados em uma caixa). O seu coração estava separado em um prato sob a mesa de jantar e outros órgãos estavam em pleno cozimento em uma panela.

Mas isso era apenas o começo. Vejam o que os xerifes apreenderam na casa dos horrores de Eddie: uma caixa de sapatos contendo vaginas; uma delas pintada de prata (você já sabe de quem era); pulseiras, poltronas, um terno, uma bolsa, uma bainha de faca, calças cadeiras, camisas, abajures e sutiãs feitos todos de pele humana; um cinto confeccionado de mamilos; vários crânios, alguns enfeitando os pés da cama e outros servindo como pratos para sopa; uma geladeira com órgãos humanos; lábios humanos dependurados em barbantes pelos corredores; máscaras feitas com faces de mulheres assassinadas, que serviam de decoração para o seu quarto; mesas feitas com ossos humanos; narizes, orelhas e órgãos espalhados pela residência; uma caixa de aveias contendo pedaços de cérebro.

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As autoridades policiais encontram “de tudo” na casa dos horrores

OS JULGAMENTOS

O julgamento de Ed Gein iniciou em 21 de novembro de 1957 na Corte Judicial de Waushara (cidade próxima à Plainfield, onde os crimes ocorreram). Durante a solenidade, o acusado se declarou como “não culpado” e alegou insanidade. Considerado mentalmente incapaz (e, assim, inapto para ser julgado) foi conduzido ao Central State Hospital for the Criminally Insane, uma instalação médica na cidade de Waupun, em Wisconsin.

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Ed Gein conversando com o advogado em seu primeiro julgamento (1957)

Após passar 10 anos na referida instituição médica, Ed Gein foi considerado apto a ser julgado. A nova solenidade iniciou em 14 de novembro de 1968 e durou uma semana. A Defesa insistiu na tese de insanidade. Já a Acusação sustentou que o carniceiro tinha plena ciência dos crimes praticados. Para tanto, arrolou diversas testemunhas, dentre elas técnicos de laboratório que efetuaram a autópsia de Bernice Worden, alguns policiais e também psiquiatras. As evidências materiais, os depoimentos precisos das testemunhas e a confissão anterior do próprio carniceiro (“Como alguém pode me culpar pela morte de Bernice Worden?”) levaram o júri a proferir o inevitável veredicto: Eddie foi considerado culpado de assassinato em primeiro grau.

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Gein sendo entrevistado pela imprensa no segundo julgamento (1968)

Alguns dias após, o magistrado Robert H. Gollmar proferiu a sentença. Apesar do veredicto condenatório dos jurados, entendeu – após ouvir médicos arroladas pela Acusação e pela Defesa, em sessão requerida por esta –que Gein realmente não tinha discernimento para compreender o crime praticado. Assim, declarou-o “não culpado por razões de insanidade”. O carniceiro foi escoltado para a mesma instituição médica em que permaneceu por uma década (Central State Hospital for the Criminally Insane), sendo, após, encaminhado para o Mendota Mental Health Institute, um hospital psiquiátrico gerenciado pelo Departamento de Serviços de Saúde de Wisconsin.

OS ÚLTIMOS DIAS

Ed Gein passou o resto de sua vida no Mendota Mental Health Institute, um hospital psiquiátrico gerenciado pelo Departamento de Serviços de Saúde de Wisconsin. Era considerado um paciente modelo, sem trazer quaisquer problemas para o instituto, sempre demonstrando bom convívio com os demais pacientes. O superintendente da instituição chegou a dizer que “se todos os nossos pacientes fossem como ele, não teríamos nenhum problema”. Embora amável e dócil na perspectiva de alguns membros da equipe, alguns funcionárias se queixavam que Gein costumava olhá-las fixamente sempre que aparecessem diante dele.

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O carniceiro em seu leito no Mendota Mental Health Institute

Com câncer, Eddie morreu no dia 26 de julho de 1984 em virtude de uma insuficiência cardíaca e respiratória. Foi enterrado no cemitério de Plainfield, próximo de sua mãe, e apenas a alguns metros das sepulturas que havia violado trés décadas antes para conduzir seus “estudos científicos”. Por ironia do destino, ao longo dos anos sua sepultura foi constantemente vandalizado por populares. A lápide do seu túmulo foi, ao final, também furtada


REFERÊNCIAS

CASOY, Ilana. Serial killers: louco ou cruel? Rio de Janeiro: Darskide, 2014.

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_Colunistas-henriquesaibro

Autor

Henrique Saibro

Advogado. Mestrando em Ciências Criminais. Especialista em Ciências Penais. Especialista em Compliance.
Autor

Bernardo de Azevedo e Souza

Advogado (RS)
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