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Edmund Kemper, o gigante assassino

Edmund Kemper, o gigante assassino

Quando vejo uma menina bonita andando na rua, uma parte de mim quer levá-la para casa, ser agradável e tratá-la bem; já a outra parte se pergunta como a cabeça dela ficaria em um espeto. (Edmund Kemper)

A PERSONALIDADE

Como boa parte dos assassinos em série em todo o mundo, Edmund Emil Kemper III tinha, quando criança, problemas familiares. Passava todos os dias discutindo seriamente com a sua mãe. Ocorre que não eram meras discussões, senão humilhações proferidas por sua genitora.

Seus pais se separaram quando Kemper tinha 9 anos e, a partir daí, uma longa sucessão de padrastos frequentaram a sua casa. Sentia, desde a separação, muita falta de seu pai.

Fora isso, nunca se entendeu com as suas irmãs que, assim como a mãe, menosprezavam-no. Aliás, elas sentiam muito medo de Kemper e achavam-no bizarro. Isso tudo quando ainda criança – e você vai entender o porquê desse sentimento.

Quando tinha aproximadamente 10 anos de idade, Edmund contou a uma de suas irmãs que estava apaixonado por uma professora do colégio. Até aí tudo bem. O problema foi a sua conclusão: teria de matá-la para conseguir um beijo. Essa frase foi dita, espontânea e autenticamente, à sua irmã.

Além disso, desde cedo, Edmund gostava de brincadeiras bastante excêntricas para a sua idade: simular uma morte em uma câmara de gás e decepar os gatos de sua mãe, por exemplo. E Kemper era uma criança absurdamente alta (2 metros) e tinha mais de 100 kg.

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Kemper na adolescência, já com 2 metros de altura

Talvez a grande problemática na desenvoltura psíquica de Kemper foi o modo como seus responsáveis lidaram com o seu exotismo. Ao invés de procurarem ajuda psiquiátrica, ou até psicanalítica – naquela época, na metade do século passado, a escola psicanalítica, liderada por Freud, estava popularizando-se cada vez mais na Europa (e no mundo).

Entretanto, ao invés disso, a mãe de Edmund preferiu transferir o seu quarto para o porão – local sem o mínimo de ventilação e iluminação. Ou seja: segregar e esconder seu filho de conhecidos e da própria família.

Paralelamente a todas essas dificuldades, Kemper levava uma péssima vida escolar. Mesmo sendo muito alto, tinha muito medo de ser espancado e ridicularizado pelos colegas. Acabou sem amigos e sem uma pessoa com quem pudesse confiar.

Diante do total descontrole frente ao filho, a mãe de Edmund decidiu delegar a responsabilidade da criação aos seus pais. Aos 15 anos, Kemper passou, então, a morar com seus avós em uma fazenda em North Fork, na Califórnia – bastante isolada da cidade. Passava o dia caçando animais pelos campos com o seu rifle, dado de presente por seu avô. Entretanto, tinha um péssimo relacionamento com a sua avó.

Ela reclamava que ele ficava olhando fixa e ininterruptamente a ela, a ponto de assustá-la. Todavia, Edmund não a obedecia e também não entendia o motivo pelo qual deveria fazê-lo.

Até que, em certa oportunidade, de saco cheio de não ser compreendido – por mais que, realmente, fosse muito difícil –, resolveu atirar na cabeça de sua avó. Sem saber o que fazer com o seu avô, optou por ser mais prático: matá-lo também (por mais que gostasse dele).

Acabou sendo diagnosticado, por decorrência de tais crimes, como psicótico e paranoico. Foi, portanto, internado no hospital psiquiátrico de Atascadero, onde, finalmente, não se achava mais estranho perante os demais.

Quanto mais ouvia as experiências sádicas e doentias de seus colegas de quarto – os casos de estupro eram os seus preferidos –, mais incentivava psiquicamente as suas fantasias sexuais. Obviamente que nunca narrou tais ficções aos seus médicos.

Como aos olhos dos profissionais da saúde Kemper era um paciente obediente, religioso, focado nas tarefas a ele demandadas, inteligente e sobretudo arrependido de seus crimes, a sua alta médica estava na iminência de ser concedida. Enquanto isso, foi agraciado com 18 meses de liberdade condicional. Apesar de não indicado pelos médicos, voltou a conviver com a sua mãe.

Tinha uma grande admiração à carreira policial; o seu sonho era trabalhar na polícia. Ocorre que a sua aspiração foi frustrada, pois era alto demais para o máximo de altura permitido no edital. Chateou-se bastante e passou a colecionar armas de fogo e facas.

Além de sua grande decepção em não poder ser policial, mesmo tendo conseguido um bom emprego e adquirido a sua independência financeira, sua mãe continuava desprezando-o e humilhando-o. Aos 20 anos, comprou um carro extremamente parecido com uma viatura de polícia e divertia-se dando caronas a jovens mulheres. Foi quando começou o massacre de colegiais.

OS CRIMES 

Para finalmente satisfazer as suas fantasias sexuais, Kemper armou todo o cenário para as futuras práticas delituosas. Retirou a antena do seu carro, impediu a abertura da porta do passageiro e armazenou sacos plásticos, cobertores e armas dentro do automóvel.

Quando concedia carona a estudantes, logo percebiam que o motorista fugia da rota desejada e, ao alertá-lo da desvirtuação da rota, Edmund sacava a sua arma e exigia que nada mais fosse dito.

Após chegar a um local afastado, normalmente matava a sua vítima sufocando-a com um saco plástico, mediante inúmeras facadas ou com disparos de arma de fogo para, depois, “transar” com o cadáver.

Posteriormente, levava os cadáveres para casa (a mesma da sua mãe), onde examinava-os e aprendia um pouco mais sobre a anatomia humana. Após a “autópsia”, enterrava os restos mortais. Não raras vezes, transava com defuntos sem a cabeça.

Possuía muito orgulho e prazer ao conversar, nos dias posteriores ao crime, com os policiais da cidade que lhe narravam a crueldade dos novos casos de homicídio e estupro – mal eles desconfiavam que o autor era aquele para quem contavam as ocorrências.

Por mais que Edmund sentisse um prazer imenso ao matar e estuprar colegiais, nada se comparava ao deleite que sentia ao fantasiar uma relação sexual com a sua mãe. Era uma depravação edípica ao extremo. A sua compulsão erótica foi ficando cada vez mais forte até tornar-se incontrolável.

Determinado dia entrou, de madrugada, no quarto da mãe e, com golpes contundentes de um martelo, assassinou a genitora. Logo após, decapitou-a e, mesmo sem cabeça, transou com o defunto da própria mãe.

Não satisfeito, pegou uma faca e cortou todas as cordas vocais do cadáver, pois, mesmo sem vida, continuava a ouvir a voz da sua mãe aporrinhando-o. Por fim, separou o crânio de sua genitora e passou a dizer tudo o que pensava a seu respeito. Depois foi jogar dardos em seu quarto – sim, exatamente isso: foi friamente jogar dardos.

Horas após o crime, decidiu convidar a melhor amiga da sua mãe para um jantar em sua casa. Ela, por mais que tenha estranhado, aceitou o convite. Foi uma péssima ideia. Ao chegar à residência de Edmund, este lhe assassinou mediante estrangulamento.

Kemper estava em uma noite “inspirada”. No dia seguinte aos dois homicídios, em um domingo de páscoa, Kemper acordou e viajou sem rumo temendo ser preso pela polícia.

Entretanto, no decorrer da viagem, passou a gostar da ideia de ficar famoso por suas atrocidades, mas, ao ler os jornais locais, percebeu que não era tido como suspeito pela autoria de tais delitos. Decidiu, então, ligar para a polícia e confessá-los.

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O gigante sendo preso pelas autoridades policiais

Foi difícil os policiais acreditarem em “Big Ed”, como era chamado na polícia, pois todos lhe conheciam meramente como uma pessoa que sonhava em ser um policial.

Mas, para a surpresa de todos, Ed Kemper não apenas confessou seus crimes, como também levou os policiais a todos os lugares que utilizou para se livrar dos corpos das vítimas.

O JULGAMENTO

Com a confissão e a apresentação dos restos mortais das vítimas às autoridades policiais, restou à Defesa pouco a alegar em juízo. Com esta perspectiva em mente, o advogado James Jackson, designado pela corte para atuar no caso, arrolou diversas testemunhas buscando provar a insanidade de Kemper.

 Ed Kemper mostrando aos policiais onde havia enterrado os corpos


Ed Kemper mostrando aos policiais onde havia enterrado os corpos

Contudo, durante as três semanas em que o julgamento foi realizado, nenhuma testemunha conseguiu convencer o júri da insanidade. A Acusação foi exitosa e conseguiu rechaçar cada um dos todos os depoimentos fornecidos pelas testemunhas de Defesa.

A testemunha de acusação que mais causou impacto à tese defensiva foi o psiquiatra Dr. Joel Fort. O médico havia entrevistado Kemper no hospital psiquiátrico de Atascadero, oportunidade em que constatou a obsessão por sexo e violência. Acrescentou Fort que Edmund Kemper, caso fosse solto, mataria outra vez o mesmo tipo de vítima.

 O assassino de colegiais durante o julgamento


O assassino de colegiais durante o julgamento

Após cinco horas de deliberação, os jurados chegaram ao veredicto, considerando Ed Kemper culpado de assassinato em primeiro grau nos 8 crimes imputados. Em sentença, foi condenado à prisão perpétua com possibilidade de condicional (só escapou da pena de morte porque, na época, o estado da Califórnia a havia abolido).

A PRISÃO

Condenado, Kemper passou um breve período no California Medical Facility, uma instalação prisional localizada na cidade de Vacaville, no Estado da Califórnia (EUA). Após, foi encarcerado definitivamente na Prisão de Segurança Máxima de Folsom, onde permanece até os dias de hoje.

Kemper concedeu diversas entrevistas desde que foi preso, sendo considerado por agentes do FBI como uma das mentes criminosas mais inteligentes já vistas.

Seus diversos diálogos com o Bureau trouxeram contribuições para a compreensão da mente dos assassinos em série. Com um QI de 145, é também reconhecido pelos outros detentos como um serial killer genial. Na opinião de muitos, Ed Kemper jamais seria preso se não tivesse tomado, no passado, a decisão de confessar seus crimes para as autoridades policiais.

Atualmente, com 67 anos de idade, é considerado um preso-modelo, sem qualquer envolvimento com brigas ou discussões com outros detentos. Dentre as atividades que desempenha no presídio estão o agendamento de consulta com psiquiatras aos detentos, a tradução de livros para o braile e a confecção de copos de cerâmica.

 Kemper marcando consultas psiquiátricas para outros presos


Kemper marcando consultas psiquiátricas para outros presos

Em sua última audiência junto ao conselho de liberdade condicional, Kemper se recusou a comparecer e pediu que seu defensor, Scott Currey, fosse em seu lugar e dirigisse algumas palavras aos membros. Ao comparecer à audiência, o advogado assim se pronunciou:

Seu sentimento é de que ninguém jamais vai deixá-lo sair daqui, e ele está feliz. Ele apenas está feliz com sua vida na prisão...

REFERÊNCIAS

CASOY, Ilana. Serial killers: louco ou cruel? Rio de Janeiro: Darskide, 2014.

CHENEY, Margaret. The Co-Ed Killer. New York: Walker and Company, 1976.

Autor

Henrique Saibro

Advogado. Mestrando em Ciências Criminais. Especialista em Ciências Penais. Especialista em Compliance.
Autor

Bernardo de Azevedo e Souza

Advogado (RS)
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