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Efeito halo e roupa de presidiário

efeito halo

Efeito halo e roupa de presidiário

O conhecimento popular, aquele que de tão repetido não se sabe a origem ou a época em que se tornou conhecido, porém que está, pelo menos implicitamente, presente em grande parte da consciência das pessoas, por vezes pode estar certo ou errado – como tudo na vida.

Hoje é o dia de falar sobre um conhecimento popular correto, que é representado pela icônica frase “a primeira impressão é a que fica”. Foi o que identificou o psicólogo Edward Thorndike, em seu artigo “A constant error in psychological ratings“, descrevendo um viés cognitivo de percepção, que afeta a forma como as pessoas interpretam as informações sobre alguém.

Como fundamento empírico, Thorndike pediu a dois oficiais que avaliassem seus soldados sobre os seguintes critérios: qualidades físicas (I), intelectuais (II) e pessoais (III). O objetivo era saber como uma característica positiva ou negativa inicial afetavam o resto do julgamento.

Como conclusão, o estudo de Thorndike indicou que havia um padrão de respostas muito parecidas entre os oficiais, que, ao identificar os primeiros critérios (no caso, critérios físicos e intelectuais) como bons, o último critério indicava a mesma constância; porquanto que, quando as primeiras avaliações eram ruins, a seguinte (qualidades pessoais) eram igualmente ruins.

O efeito halo

O fenômeno analisado pelo psicólogo recebeu o nome de “halo”, em analogia ao anel luminoso que circunda a cabeça ou corpo de uma pessoa, sendo usado frequentemente em esculturas religiosas medievais e renascentistas. O observador pode, a partir do ponto luminoso, dobrar a percepção benéfica do objeto, concluindo que dali emanam também outras qualidades positivas.

Como dito, a primeira impressão impacta posteriormente no julgamento, atrapalhando a forma como se elabora o pensamento sobre uma pessoa. Justamente por isto, é chamado de distorção da percepção. O efeito halo ocorre quando inicialmente se tem uma boa impressão sobre a pessoa, enquanto que o efeito de chifre, também chamado de efeito diabo, é o exato contrário.

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O efeito de chifre

O efeito de chifre é a tendência de interpretar negativamente o comportamento das pessoas que se formaram um laço “negativo”, permitindo que o mesmo  influencie suas avaliações sobre outras características. Tal como colocar um halo em uma escultura transmite benevolência, colocar chifres transmite o exato contrário.

Na seara criminal o efeito não poderia estar mais presente, pois, ao observar inicialmente uma pessoa vestida como presidiário, cria-se uma imagem negativa sobre a mesma, esperando apenas informações complementares para concluir sobre a sua periculosidade e culpabilidade, podendo influenciar negativamente no julgamento, tanto do juiz quanto dos jurados, em caso de tribunal do júri.

Por isto, e justamente por isto, considero importante e fundamental o entendimento da 3ª Câmara Criminal do TJ/MA, ao julgar apelação criminal contra sentença que condenou réu a 15 anos e 6 meses de reclusão por prática de homicídio qualificado, devido o acusado ter sido submetido a julgamento no tribunal do júri utilizando vestes de detento.

Ora, séries e filmes já exasperaram a estigmatização da figura do detento, presente no nível periférico de consciência de todas as pessoas com acesso à televisão. Basta ver uma pessoa com a indumentária que lhe é costumeira para pontuar de prontidão e peremptoriamente: o acusado é culpado! 

Buscar a completa imparcialidade beira o nível da utopia, no entanto, a possibilidade de não alcançar a perfeição não deve ser razão para abraçar elementos que favoreçam um julgamento parcial, violando  – como demonstrou o entendimento acertadamente – o princípio da presunção de inocência.


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