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Eike Batista e o mito de Midas: uma importante lição

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Eike Batista e o mito de Midas: uma importante lição

Os comportamentos humanos são realidades objetivas que podem ser observadas. A cultura e a mitologia revelam a expressão dos comportamentos da humanidade. 

Ao falar de Eike Bastista, parece ser evidente que sua conduta era revestida não somente de muita ganância, como de cinismo e arrogância. Brasileiro, nascido em Valadares (MG). Sua mãe era alemã e, para ele, segundo seu livro, era exemplo de autoestima e disciplina. Seu pai, um famoso ex-presidente da Vale do Rio Doce e também ex-ministro. 

Estudou engenharia na Alemanha, mas não concluiu os estudos. Explorou jazidas de ouro no Amazonas. Aos 21 anos de idade, já havia enriquecido, mas queria multiplicar ainda mais sua fortuna… Criou sua mineradora, MMX, que aumentou muito o seu valor. Mas será que o sucesso era referente a estratégias de negócios ou mecanismos psicológicos perversos? Que tipo de mecanismos estaria na base dessa conduta?

Chegou a estar entre os sete mais ricos do mundo. Na sigla de suas empresas, utilizava a letra X no final, representando o símbolo da multiplicação. (CCX, OGX, MPX, LLX, OSX). Para o seu conglomerado, utilizou as iniciais de seu nome e a letra X. (EBX). Era o seu toque de Midas.

Virou o símbolo de sucesso. Cada vez mais era visto glorioso nas revistas e colunas sociais. Era casado com uma linda mulher, a modelo e atriz Luma de Oliveira, que, com uma coleira gravada com o nome de Eike Batista em brilhantes, representava também mais uma ostentação, como ter carros de luxo no meio da sala. 

Com a imagem de um empresário bem quisto e de sucesso, usava exatamente dessa influência para manipular o mercado de modo criminoso e com isso obter vantagens. Fazia promessas que suas empresas chegariam a mais de um trilhão…. Porém, não foi isso que aconteceu. Por muitos foi considerado como charlatão. Seu cabelo era falso; seu filho atropelou um ciclista e nem parou para socorrê-lo…

A desmesura na sua conduta foi o que levou o empresário à ruína e, posteriormente, à prisão. Foi do sucesso esplendoroso à falência e ao cárcere, acusado de crimes de corrupção ativa, fraude e lavagem de dinheiro. 

Para compreender esse tipo de comportamento, encontramos no mundo muitos mitos que tratam do tema, porém nenhum deles é tão ilustrativo para o caso quanto o famoso mito do rei Midas, que deu o nome da investigação. 

Conta o mito que Dionísio foi o responsável por conceder ao rei Midas a realização de um desejo. Midas pediu o dom de transformar em ouro tudo o que por ele fosse tocado. Mesmo percebendo a ânsia gananciosa de Midas, Dionísio realizou o pedido.

Ao chegar em casa, ordenou aos criados que servissem a ele um banquete. Ao tocar no pão, este foi transformado em ouro. Ao pegar a taça de vinho e tocar com seus lábios na bebida, esta se transformou em ouro líquido. Midas ficou desesperado ao perceber que jamais poderia se alimentar novamente. Sua filha, Phoebe, vendo seu desespero tentou socorrê-lo e, ao tocá-lo, transformou-se em uma estátua de ouro…

Esse mito simboliza o castigo daquele que deseja a extrema riqueza, vítima de seu desejo perverso, de obter extrema riqueza como meio de acesso a todos os prazeres que o dinheiro proporciona. Tal desejo e tal ganância traz consigo seu castigo em forma de “empobrecimento psicológico e a deformação patológica do caráter”, expondo-se a perder gradativamente a capacidade desfrutar daquilo que pensa ser fortuna…

Eike Batista, ao ter sua prisão decretada pela justiça brasileira, já não estava mais no país. Porém, a essa altura sua prisão era inevitável: já se encontrava enganado pelo seu próprio estratagema.


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O ganancioso chega, assim, a um agravamento de seu estado perverso: crê ser mais esperto que seus semelhantes; transforma sua incapacidade secreta em triunfo cínico, que não será suficiente para aplacar o temor de ver-se desmascarado. 

Sendo cínico, sua intenção não era ser desmascarado em seus atos ilícitos, e sim poder continuar a cometer crimes; revela plena consciência de seus atos, inclusive sendo capaz de premeditar maneiras de ludibriar a identificação do ilícito por parte da justiça. Tudo isso para atingir seus objetivos de não ser descoberto.

Ao ver-se sem saída, e ao retornar ao Brasil, muitos brasileiros tiraram foto com o célebre criminoso. No entanto, a vã admiração não consegue camuflar a evidencia de seus crimes… Triunfante, mas desmoralizado, mais uma vez exerce seu cinismo. 

Eike Batista estava sempre pronto a exibir-se como glorioso, porém sua condenação pública revela o símbolo de uma arrogância excessiva, que o induziu a imaginar-se enganando a todos e a justiça. 

Criminosos do colarinho branco nem sempre são condenados pelos seus ilícitos, devido à influência de seu poder. Porém, para criminosos como Eike, atualmente o sistema prisional do qual esta recluso é o mais indicado para ele, no sentido de que o cárcere poderá lhe proporcionar, com o tempo, algum grau de amadurecimento e aquisição de valores que hoje aparentemente não possui.

Com os anos de reclusão, poderá perceber as vantagens que poderá ter, caso procure formas alternativas ao crime para sobreviver…


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Autor

Mestre em Enfermagem Psiquiátrica. Professor convidado do Instituto Paulista de Estudos Bioéticos e Jurídicos. Psicólogo forense.
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