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Ele não gostava de advogados criminalistas… até seu filho ser preso

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Ele não gostava de advogados criminalistas… até seu filho ser preso

Quem, na condição de advogado criminalista, não sofreu um certo “bullying”, principalmente no início de carreira, nas festas de família ou reunião de amigos? Sempre, mas sempre me perguntavam e até hoje perguntam:

Como que tu podes defender bandidos? Tu não tens medo? Quando eles dizem que são culpados, tu os defende mesmo assim?

É, meu velho, são tantas perguntas que precisaria de artigo para responder, mas vamos nos concentrar na coluna de hoje. Infelizmente, numa destas reuniões familiares, tive o desprazer de romper relações com uma pessoa muito próxima, eis que ela sempre que me via, vinha com estas indagações ou discursos daquele tipo: “bandido bom é bandido morto; deveriam fazer um sopão com veneno no presídio e dar para aqueles bandidos vagabundos, eu não sei como é que pode um advogado defender esta gente etc.”

Amigos, um dia me irritei e disse tantas coisas (impublicáveis nesta coluna) para esse senhor e, por fim, fui mais além e como uma espécie de praga de madrinha, falei-lhe:

Espero que um dia tu não precise dos meus serviços!

E me fui embora rompendo relações com este cidadão.

O ano era 2005 e estava assistindo a Grêmio e Atlético/PR pela série B, como bom COLORADO, dando aquela “secadinha” no coirmão. Eram, mais ou menos, umas dez horas da noite quando o telefone de casa tocou e alguém aos gritos me chamou:

Jean, é urgente!

Obviamente, corri e fui atender à ligação. No entanto, não conseguia identificar quem era, bem como o que estava acontecendo. Disse-lhe:

Amigão, se acalma, o que houve?

E a única coisa que conseguia escutar é:

Meu filho foi preso! Vem me ajudar pelo amor de Deus.

No transcorrer da conversa telefônica, fiquei sabendo que o pai desesperado era aquela pessoa com a qual eu havia rompido há algum tempo, mais precisamente um ano. Aqui, vou chamá-lo de G. G me informou que seu filho estava detido no Palácio da Policia aqui em Porto Alegre e que havia sido preso com drogas. Surpreendi-me, afinal de contas, seu filho era um guri exemplar, estudante nota dez, atleta, como dizia G; um exemplo para os demais jovens.

Ao chegar no Palácio da Policia, local onde estava sendo lavrado o flagrante, deparei-me com um pai transtornado. Ajoelhou-se aos meus pés e implorou:

Solta meu filho! Solta meu filho!

Mas isso, meu irmão, era aos berros. O cara chorava copiosamente. Pedi-lhe que se acalmasse e fui iniciar meu trabalho.

Vamos chamar o nosso cliente de R. R me confessou, em conversa reservada, que gostava de fumar “unzinho” depois das refeições e antes de dormir. Dizia que ficava relaxado e que lhe fazia bem. R me confessou que havia comprado 50 gramas de maconha, como fazia todo o mês, assim não precisaria ficar indo toda hora em boca de fumo. Ocorre que aquele dia R, havia recebido a encomenda para todo mês e, infelizmente, caiu em uma barreira policial voltando da faculdade. Como estava queimando um back dentro do veículo, despertou a atenção dos policias que encontraram as cinquenta gramas.

R foi ouvido na delegacia, tendo sido preso em flagrante por tráfico de drogas. O inquérito foi enviado ao juiz de plantão que converteu a prisão em flagrante em preventiva, alegando a famosa garantia da ordem pública do art. 312 do CPP. Imediatamente ingressamos com pedido de liberdade provisória.

O magistrado, ao invés de despachar sobre o pedido, tendo o acusado ao seu favor primariedade, residência fixa e bons antecedentes, deu vista para o Ministério Público. Porém, nós tínhamos um problema: era sexta-feira e o nosso “amiguinho ia baixar” ao tenebroso Presídio Central de Porto Alegre, presídio este que é uma vergonha para o Rio Grande do Sul e para o Brasil, ficando preso por todo o final de semana, quando o pedido de liberdade seria analisado, ao menos, somente na terça-feira da semana seguinte.

Quando contei que seu R iria para o “casarão”, G desmaiou, caiu, e novamente surtou:

Vão matar meu filho! Vão violentá-lo na cadeia! Ele é um guri bonito, um guri bom e não merece isso.

Pois bem. Para acalmar nosso amigo, dirigi-me rapidamente ao Presídio Central antes que o ele fosse levado para lá. No estabelecimento,  fiz um parlatório com um cliente meu, que era “prefeito” de uma galeria e pedi-lhe que desce um apoio a R. De forma prestativa, meu cliente disse:

Doutor, fica tranquilo, vamos apoiar o cara aqui.

Pessoal, todo mundo sabe que quem comanda os presídios são as facções. O Estado,  há muito tempo, perdeu o controle das casas prisionais de nosso país. Quem comanda cada galeria são os prefeitos, juntamente com os “plantões”; eles organizam as galerias, possuem turnos ininterruptos de trabalho, inclusive com horários para o fechamento das celas. Pasmem, mas nem a Policia Militar ingressa nas galerias sem autorização da prefeitura e dos plantões.

Ao voltar para o Palácio da Policia, orientei R a informar, quando fosse levado ao presídio, a galeria em que gostaria de ficar, uma vez que, ´quando você é encaminhado ao presídio, pode indicar onde quer ficar; se tem amigos ou parentes ali até para evitar desafetos; se ele tem “guerra” na rua e outros assuntos do tipo. O apoio que meu cliente deu a R foi importante em sua rápida estadia no Presídio Central. R foi  recebido com um colchão e um copo de refrigerante, eis que não é possível tomar a água da cadeia pelo simples motivo de os pombos defecarem nas caixas d’água, contaminado as mesmas.

Os presos que bebem a água do presídio ficam com a “zica” da cadeia, que são terríveis dores abdominais. A  comida do “ panelão” também não dá para comer, pois a água utilizada vem dessa mesma fonte. O cara que quer comer um pouco melhor tem que comprar  comida e água das cantinas que estão dentro dos presídios. Sim, as cantinas dentro dos presídios são comandadas pelos presos, onde um refrigerante, que aqui fora custa três reais, lá custa vinte. O dinheiro “rola solto” na cadeia. Uma vez, outro cliente meu definiu-me como ninguém o que é o presídio: uma vila fechada, onde quem tem dinheiro e poder continua tendo.

Resumindo: quem sofre na cadeia são os presos “caídos”, aqueles que não possuem familiares que possam lhes ajudar; comem comida do “panelão“, dormem no chão puro e procuram trabalhar para os outros presos no presídio lavando roupas a centavos e prestando todo tipo de serviço. A única coisa que eles têm para oferecer é a mão-de-obra barata, por isso, não caia naquela conversa de que no presídio, os presos comem bebem e por conta do Estado. Somente aqueles que não possuem recursos são forçados a comer comida estragada e beber água contaminada, pois é assim a vida real e quem sofre mais ainda com tudo isto são as famílias dos presos.

Pois bem, voltando para o nosso cliente R, posso resumir a coluna dizendo que ele ficou preso dois dias, foi bem tratado em sua galeria e contou tudo isso que eu acabei de lhes informar para seu pai, aquele sujeito que odiava presos e queria a morte de todos  eles, juntamente com os advogados criminalistas. R falou que escutou várias histórias, todas de sofrimento, abandono, falta de apoio familiar e outras tragédias da vida real.

G, quando da soltura do seu filho, pediu-me desculpas e que iria pensar melhor sobre seus conceitos. Pagou meus honorários, deu-me um abraço e foi embora. Eu não lhe falei nada, pois sou advogado criminalista. Sou frio, sou padre no confessionário, sou humano, acredito no bem contra o mal, acredito na melhora do ser humano, na recuperação do homem.

Naquele dia, meu silêncio falou tudo.

Autor
Mestre em Ciências Criminais. Professor de Direito. Advogado.
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