• 24 de setembro de 2020

Empoderamento das mulheres na advocacia criminal

 Empoderamento das mulheres na advocacia criminal

Empoderamento das mulheres na advocacia criminal

A atuação na advocacia criminal já é um desafio diário para os profissionais que resolvem encarar as mazelas do direito e do processo penal e batem no peito para lutar pelas garantias e direitos dos cidadãos que estão sendo acusados por algum delito e privados (ou correndo o risco de serem privados) de sua liberdade.

Os artigos veiculados neste Canal possuem o propósito de colocar em pauta temas necessários, atuais, polêmicos sobre as ciências criminais e procura atender aos pedidos dos leitores para compartilhar, dessa forma, as palavras de diversos profissionais que efetivamente se encantam com a área criminal, que em seus textos demonstram “que os olhas brilham” quando se está a lutar pelos direitos dos outros, por “carregar a cruz” com louvor!

No entanto, é notável nos bancos acadêmicos que a área penal atrai menos os alunos quando se trata de ingressar no mercado profissional. No início da carreira as propostas cíveis, empresariais e trabalhistas se tornam mais fascinantes, inclusive financeiramente…

Assim, são poucos e bons os que encaram realmente a advocacia criminal como profissão e querem fazer disso o seu suado e agradável labor diário, principalmente porque não é qualquer um que tem coragem e vontade de enfrentar o preconceito intrínseco que existe por parte da sociedade com o exercício profissional dos advogados criminais. E então, se já é difícil no geral, como fica se a advogada criminal é mulher?

Posso fazer um relato fiel do que senti na prática nas diversas vezes em que estive em uma Delegacia de Polícia, em um presídio, em uma audiência, em uma sustentação oral e enfrentei o preconceito das pessoas que ali estavam prestando um serviço público! As mais clássicas como “Delegacia não é lugar de mulher” ou “presídio não é lugar de mulher”, outras vezes os questionamentos sobre o porquê de querer se meter com bandido quando eu poderia ter optado por uma carreira na área trabalhista…

Isso não ocorre sempre, por óbvio, mas o problema está justamente aí: o preconceito em relação a atuação da mulher como advogada criminal ainda existe e parte, muitas vezes, de nossos próprios colegas!!

Ou seja, ainda existe, sim, um pensamento machista enraizado nas instituições, sejam elas públicas ou privadas. De que a mulher não tem coragem de enfrentar sozinha um processo criminal, um juiz, um promotor, todos os desembargadores… Ou que só funciona mandar uma mulher se for pra chamar a atenção fisicamente destes mesmos juízes, promotores, desembargadores (!!!!!!).

Os próprios clientes, de início, já desconfiaram da minha capacidade em razão da idade e, por óbvio, por eu ser mulher e eles pensarem que eu poderia fraquejar diante de um delegado, juiz, ou quem quer que fosse, por não ter a “força” de um homem. Um juiz insistiu em me tratar como “assessora” de um colega advogado que estava na audiência comigo, mesmo vendo minha carteirinha da OAB, que em tese valia a mesma coisa que a do meu colega.

É preciso saber deixar bem claro, onde for e para quem quer que seja, que nós somos mulheres e escolhemos a advocacia criminal com orgulho, que somos competentes e absolutamente nada nos faz inferiores aos homens no exercício de nossa profissão. Não dá para abaixar a cabeça, não dá para fraquejar (se eles fraquejam há uma justificativa, se nós fraquejamos é porque somos mulheres…).

Não podemos interiorizar o preconceito. Precisamos de autodeterminação para definitivamente convencer a todos (e isso muitas vezes inclui o próprio cliente) de que somos capazes intelectualmente (óbvio!). E o empoderamento feminino é justamente isso, um processo pelo qual as mulheres tomam em suas próprias mãos as mudanças necessárias para vencer a subordinação de gênero e constroem um caminho rumo ao poder. Então, colegas ou futuras colegas, não desistam por acharem que essa área “não é para vocês”.

É fundamental levantar essa bandeira: por mais mulheres na advocacia criminal!

Ingrid Bays

Advogada (RS)