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Análise da entrevista de Geraldo Alckmin ao Jornal Nacional

Análise da entrevista de Geraldo Alckmin ao Jornal Nacional

Ab ovo, informo que a análise não será feita quanto à integralidade da entrevista, mas sim quanto à parte que versa sobre o sistema prisional do qual Geraldo Alckmin era Governador até se “afastar” para concorrer a eleição para Presidente do Brasil.

O vídeo analisado está disponível neste link e, aos dezessete minutos e trinta segundos, deu-se início a parte que versa sobre o que me propus a escrever neste artigo:

Renata Vasconcellos: Candidato, vamos falar agora de segurança pública, que é um tema que aflige muitos brasileiros. A maior facção criminosa do Brasil nasceu em São Paulo e se espalhou pelo país. Inclusive, atravessando fronteiras. Para fora, para outros países. Em que a sua política de segurança falhou?

Geraldo Alckmin: A política de segurança de São Paulo é um exemplo.

Renata Vasconcellos: Não há falhas, na sua opinião?

Geraldo Alckmin: Nós tínhamos, nós temos os melhores policiais do Brasil, a melhor polícia do Brasil, a melhor tecnologia do Brasil.

Na verdade, não há estudo no qual esteja demonstrado qual é a melhor polícia do Brasil, e nem qual estado tem os melhores policiais do país, assim como não há muito menos estudo que comprove que o Estado de São Paulo tem a melhor tecnologia do Brasil.

Geraldo Alckmin: Tínhamos, em 2001, 13 mil assassinatos por ano. Reduzimos para 12, 11,10, 9, 8, 7, 6, 5, 4…No ano passado, 3.503 para 45,5 milhões de habitantes. São Paulo é maior que a Argentina.

Renata Vasconcellos: Mas o que que o senhor diz, então, sobre essa queda na taxa de homicídios? Muitos especialistas que estudam o assunto dizem que ela se deve mais ao fato dessa facção criminosa ter eliminado os rivais, dominado o crime no estado, do que propriamente à ação da polícia. O senhor refuta essa análise?

Geraldo Alckmin: Mas é inacreditável alguém dizer que 10 mil pessoas deixam de ser mortas por ano e que a culpa disso, ou melhor, a proposta disso é o crime que fez. Ele não, é a polícia que fez.

É difícil ao mesmo reconhecer o que já está demonstrado a todo o mundo. Tanto “na rua” (é assim que os presos se referem a um local, bairro, quebrada e etc.) como também nas faculdades (“cadeias”), quem autoriza a morte de alguém é o PCC. Lógico que, em razão de certas ocasiões, não há tempo hábil para “pedir a autorização”, sendo que logo mais essa morte será “sumariada” pela Sintonia responsável.

Na rua obviamente o Sintonia da Quebrada que incorreu no fato terá que informar ao seu superior. Se ocorrer um homicídio em um local de responsabilidade de um irmão (ele é o Sintonia da Quebrada, por exemplo), deverá mais que rapidamente (criminoso não “mósca”; mosca = vacilão) informar o fato, pois a polícia vai interferir nos negócios daquela “quebrada” que, sem sombra de dúvidas, deve ter uma “boquinha de drogas” do Partido.

Ou algum leitor aqui acredita que em seu bairro não exista tráfico de drogas? Obviamente que mais policiais circulando na Quebrada do PCC vão prejudicar os negócios do crime. Mesma coisa acontece na cadeia. “Cadeia em paz”, melhor para os negócios do Partido. Seguindo:

William Bonner: (…) para quem olha o que aconteceu com essa facção criminosa em São Paulo haverá de notar que, mesmo presos, líderes, chefes dessa facção continuaram a comandar o crime de dentro da cadeia, candidato. Se o PSDB…

Geraldo Alckmin: Um dos líderes do crime organizado ficou cinco anos em RDD. Você sabe o que é RDD? Ficar 22 anos na cana…

O candidato mostra total desconhecimento sobre o Regime Disciplinar Diferenciado, pois trabalho há mais de 24 anos no sistema prisional paulista, que foi o pioneiro a implementar o RDD no Brasil (mesmo RDD que foi o facilitador para a criação do PCC), depois “copiado” no ordenamento jurídico federal, e nunca vi alguém, um caso que seja, em que alguma pessoa presa tenha ficado tanto tempo nesse regime.

Sem sombra de dúvidas o candidato Alckmin “trocou alhos por bugalhos” quando, na verdade, trocou horas (de confinamento em cela) por anos.

William Bonner: Candidato, o comando… O senhor está negando que o comando, o comando dessa facção criminosa continua de dentro da cadeia.

Geraldo Alckmin: Crime organizado…

Renata Vasconcellos: O senhor nega essa realidade?

Geraldo Alckmin: Claro, mas é óbvio, óbvio. Isso aí são coisas que vão sendo repetidas e acabam virando verdade. Explica para mim: como é que no Brasil tem 30 homicídios por 100 mil habitantes e, no mesmo país, no país que tem a maior população, tem oito homicídios por 100 mil habitantes? Porque é lá que eles trabalham.

Vemos aqui que a história da negação do PCC permanece desde 1997:

Nossas autoridades das áreas de segurança e sistema prisional não deram crédito àquelas constatações, chegando mesmo a ridicularizar a nós integrantes da CPI da Assembléia Legislativa que investiga o Crime Organizado no Estado, como se estivéssemos mal informados ou ‘vendo fantasmas‘. (Fonte: Diário Oficial do Estado, Poder Legislativo, São Paulo, 107 (93), terça-feira, 20 de maio de 1997-5 (g. n.)

Mas continuemos com a entrevista:

William Bonner: A maior facção criminosa do Brasil, nascida em São Paulo, com seus líderes ou chefes presos em São Paulo, continuam operando, se expandindo pelo Brasil e fora do Brasil, e não tem comando de dentro das cadeias?

William Bonner: Sem bilhete apreendido, dentro de vaso sanitário, nada?

Geraldo Alckmin: Não tem, não tem, não tem. Nós temos scanner, nós temos controle, nós temos penitenciária de segurança máxima, antes do governo federal. Tem regime disciplinar diferenciado, isolamento absoluto, tanto é que nós reduzimos…

É inadmissível que o candidato que permaneceu no governo de SP por quatro mandatos não tenha sido informado sobre um fato dessa magnitude (Operação Echelon que versava sobre a Sintonia de Outros Estados e Países), em que o mesmo necessitou da união da SAP/SP, do MP/SP (GAECO) e da Polícia Civil e que o mesmo não tenha sido informado de nada por nenhum dos titulares da Pasta (SAP, MP,SSP) ou que até não tenha tomado conhecimento por qualquer meio de imprensa.

Será que o candidato está realmente, como dizem na cadeia, “de chapéu atolado até o pé” (não sabe de nada?)? Ao analisar a entrevista do candidato Alckmin eu a concluo com a “aula” de Manoel Pedro Pimentel que nos resume a verdadeira problemática do sistema prisional:

De modo que, para o sistema penal, o que seria fundamental, o que seria mais importante, acaba sendo subalterno – e por que? Porque o Governador espera que eu não lhe dê problemas na área dos presídios; eu espero que o Diretor Geral do DIPE não me dê problemas na área dos presídios; o Diretor Geral do DIPE espera que os Diretores dos Institutos não lhe tragam problemas com os presos; o Diretor de cada Instituto espera que os seus terapeutas; e o “staff” e sua guarda esperam que os presos não lhe dêem problemas. Então quem manda no sistema é o preso – porque o preso tem a sua opinião muitíssimo respeitada: se se vai fazer alguma coisa que contraria os presos, eles podem se revoltar; se os presos se revoltarem, incomoda o Governador. Então as transações se fazem na base, para que não haja trepidação. Quando nós queremos introduzir alguma modificação num presídio, os diretores advertem: Olha, Sr. Secretário, muito cuidado, porque isso pode não ser bem recebido. E se os presos não receberem bem nós vamos ter problemas. A disciplina está balançando; nós estamos com muitos problemas aqui dentro. É dificílimo modificar esse equilíbrio quase ecológico dentro da sistemática de uma prisão. Portanto o sistema não presta para nada; não conduz a coisa nenhuma; ele é um custo operacional altíssimo; um custo de investimento de obras altíssimo; um custo de pessoal altíssimo – e para nada, para não resultar em nada. (PIMENTEL, Manoel Pedro. Visão do Sistema Penitenciário Paulista, à luz da penologia moderna. 1953, p. 116, grifo nosso)

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Diorgeres de Assis Victorio

Agente Penitenciário. Porta-voz da LEAP.

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