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Entrevista, interrogatório e detecção de mentiras: análise de veracidade (pt. 2)

Canal Ciências Criminais

Por Thompson Cardoso


Concluindo, na continuidade da coluna anterior, vou abordar os derradeiros critérios, na linha da CBCA (Content Based Criteria Analysis), objetivando inferir com propriedade sobre a veracidade de um relato e produzir informações em uma entrevista ou em uma audiência que, na primeira, nos permita detectar enganações para que formemos convicção sobre a veracidade dos fatos e, na segunda, propicie estas condições ao juiz.

Critério 6 – correções espontâneas durante o relato, contrariando o senso comum, são indicadores de veracidade e não de enganação. Sempre que há o acesso aos blocos de memória, se o depoimento ocorre em estado de tensão, ou as recordações levam o depoente a reviver emocionalmente um trauma, o acesso a estas memórias se dá em condição de ansiedade, e a tendência é que sejam verbalizadas as primeiras conexões lógicas que fazemos com as memórias recuperadas, o que muitas vezes resulta em um raciocínio imediato não condizente com a verdade dos fatos. Instantes após estas primeiras conexões, o depoente reinicializa a conexão lógica das memórias recuperadas e passa a se recordar dos fatos como estes realmente ocorreram. E isto é verbalizado naturalmente. Observem que é completamente diferente de relatar uma história com uma versão e, também espontaneamente, em outro momento, alterar sua versão. Estamos falando de sinapses, ou seja, percepções de memória num cotinuum, e não em futuras correções de versões. E por ser algo absolutamente dinâmico, via sistema nervoso central, independente de resultar de qualquer raciocínio, ocorrências desta natureza fazem com que o próprio depoente coloque em xeque se os fatos ocorreram da forma com que este o relata. Se a admissão de se sentir confuso com suas próprias memórias levar o depoente a fazer declarações de sentir-se com baixa autoestima, teremos um bom indicador de veracidade. O mentiroso procurará sempre esconder qualquer sentimento de baixa autoestima, com medo que isto comprometa a segurança que tenta passar ao mentir. Em não havendo este indicador, só a capacidade do entrevistador em verificar o nexo causal das conexões emocionais com o relato (assunto que aprofundarei em futuras colunas), e em avaliar corretamente a baseline do depoente, é que o tornará capaz de identificar, neste comportamento, um forte indicador de veracidade ou um forte indicador de mentira, haja vista que o comportamento na linha do “não sei”, “não lembro” e “não tenho certeza”, tipifica a enganação. Temos exemplos bem claros e reiterados deste comportamento em uma figura pública bastante conhecida de todos.

Critério 7 – a descrição de detalhes característicos do tipo de situação narrada confere sinalização de veracidade à narrativa. Quanto mais experiente for o entrevistador, mais serão as possibilidades deste reconhecer se o comportamento do narrador tem detalhes característicos de vivência dos fatos narrados, ou se apresenta características de um depoimento estruturado apenas para convencer.  Há que atentar para não admitir como verdadeira apenas a história que relate atitudes que, naquela situação, seriam as que você entrevistador tomaria ou entende como corretas e lógicas de terem sido tomadas. Não entre neste mérito, nem avalie sob este prisma, pois você vai errar completamente sua inferição. A isso se denomina contaminação, assunto seriíssimo ao qual dedicarei pelo menos uma coluna oportunamente.

Critério 8 – quando a narrativa de uma experiência traumática der indícios de características similares à Síndrome de Estocolmo, mas pós-evento, quando o narrador vai demonstrando sinais de perdão ao perpetrador da mesma, temos aí um forte indício de veracidade. Esta é uma ação típica de quem vivenciou o trauma exatamente como descreve. É uma atitude que, ao entrevistador desavisado, poderia parecer um indicativo de mentira, haja vista não parecer razoável a vítima relatar uma agressão e, ao mesmo tempo, referir que perdoa o agressor. É porque esta não é uma atitude racional, e sim psicológica e incondicionada, exatamente como resultante do trauma que muda as percepções de quem o vivencia, gerando comportamentos típicos de compaixão por quaisquer que sejam os intervenientes, em razão do narrador ter superado o mesmo. Tudo está bem. Até a atitude do agressor é “compreendida”.

Se vocês se lembrarem do caso da dentista que foi assassinada na Rota do Sol, viajando de Torres para Caxias do Sul, e quiserem dar uma olhada no depoimento de uma das testemunhas que vivenciou, mesmo na condição de testemunha, muito medo real durante o evento, poderão “visualizar” exatamente a situação que acabo de descrever.

Estamos no nosso quinto encontro. Quem só leu minha primeira coluna, porque a partir da segunda o assunto passou a ser eminentemente técnico e aprofundado, vai continuar a, ensimesmado, contaminar suas convicções e…errar em suas avaliações de veracidade. Quem leu todos os artigos, até aqui, certamente está focado em de fato saber produzir informações e detectar, nestas, o que corresponde ou não à verdade dos fatos. E é pra estes que eu continuarei escrevendo e passando estas informações técnicas, efetivas e fruto de muita vivência e pesquisa, que estou dividindo com vocês para que tenham mais uma ferramenta à disposição em suas lides na operação do Direito.

Como o próximo tópico que ou abordar carece de uma coluna inteira, a coluna desta semana ficará um pouco mais curta que as anteriores.

Acredito que terei a oportunidade de conhecer pessoalmente alguns de vocês  no dia 9/4, durante as sete horas e meia, do evento presencial organizado pelo Canal Ciências Criminais, e com inscrições em andamento, no Centro de Eventos do Plaza São Rafael, e que será destinado especialmente aos operadores do Direito, visando transmitir aos participantes o domínio operacional de ferramentas de produção de informações e detecção de mentiras, indo bastante além da simples transmissão de informações que procuro fazer nestas colunas, com muitas dinâmicas que mudarão, em todos os participantes, a forma de conduzir, produzir e enxergar os depoimentos, em entrevistas e audiências. Saiba mais sobre o curso clicando AQUI.

Por enquanto, até a coluna de 15/3. Um Abraço!

_Colunistas-Thompson

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