“Eu não consegui proteger o meu filho”: a dor de uma morte violenta

Por Felipe Faoro Bertoni

Semana passada o engenheiro Ronei Wilson Jurkfitz Faleiro testemunhou a morte de seu filho, Ronei Júnior, quando o buscava em uma festa para arrecadação de fundos para a formatura, na cidade de Charqueadas, Rio Grande do Sul. O jovem tinha 17 anos e foi morto por uma turba enfurecida que o agrediu com socos, chutes e garrafadas, conforme noticiado pelos veículos de informação (ver aqui).

Pelo que consta das informações divulgadas, o jovem conhecia alguns dos agressores (todos jovens, alguns menores de idade) que, aliás, se vangloriaram do feito em aplicativos de comunicação e nas redes sociais. As mensagens reprisavam a dinâmica da agressão – “eu dei duas garrafadas, com a garrafa quebrada na cabeça dele”; “eu comecei a chutar, tipo GTA” (ver aqui) – e, segundo informações do Delegado responsável pelo caso, os acusados riam no interior da cela, após terem sido detidos pelo suposto envolvimento no fato (ver aqui).

É indescritível e indecifrável a dor desse pai. Palavras certamente são insuficientes para traduzir o sofrimento experimentado. Nenhum exercício de imaginação consegue ilustrar, ainda que de forma pálida, o aperto no peito de Ronei.

Por mais que eu saiba que a violência exista desde os primórdios – e que sempre vai existir – ainda me causa espécie o que os seres humanos são capazes de fazer uns com os outros. Até que ponto chega o nível da barbárie em uma sociedade dita civilizada?

Essa incompreensão me incute um questionamento direto: de que forma nossos jovens estão sendo educados para que esse tipo de conduta seja tolerada, aceita e incentivada? Evidente que somos animais, contemplados com instintos primitivos que, por vezes, nos estimulam a agir de forma agressiva ou violenta. Todavia, ao vivermos em sociedade, somos submetidos a diversos processos civilizatórios que nos orientam à convivência com outras pessoas.

Em tese, quando de nosso crescimento, devemos aprender quais são os nossos direitos e quais são os nossos deveres. Em muito isso é papel da família, instituição que atua(va) com primazia na formação do caráter e na consolidação dos valores. Todavia, o atual arranjo social confere maior dificuldade no exercício desse mister. Hoje, vive-se em uma sociedade complexa e hiperacelerada, na qual elegemos a vigência de uma “moral à la carte”, absolutamente ocasional e na qual as relações estabelecidas, em sua maioria, são adjetivadas pela liquidez.

Diante desse contexto, os pais, envoltos na complexidade moderna e imersos em uma lógica de consumo, acabam por terceirizar a educação dos filhos, enxergando a educação como um produto. Assim, assumem uma postura coadjuvante na educação e no ensino, transferindo o protagonismo para produtos e serviços adquiridos desde os primórdios – creche, escola, cursos extracurriculares. Quando, por sorte, há tempo ocioso, preenche-se com tecnologia – as crianças, cada vez mais cedo, são hipnotizadas pela tela sensorial dos tablets e aparelhos telefônicos que estabelecem uma dimensão paralela (e impessoal, diga-se). O contato, a vivência, o olho no olho, a relação com outros seres humanos é substituída, esquecida, menosprezada.

Nesse contexto desenvolvem-se nossos jovens, muitos sem esteio, sem amparo, sem porto-seguro. Aí, penso, abre-se uma lacuna, uma lacuna que é preenchida por grupos de outros jovens na mesma situação, carentes de base, carentes de valores, carentes de princípios. Esse vácuo é tormentoso e temerário, pois pode ensejar uma alteração no norte principiológico educacional. Se ninguém me indica para onde devo ir, posso acabar indo para o caminho errado.

O Estado também é omisso nesse ponto e alheia-se à formação cultural e educacional dos jovens, chegando atrasado e querendo aplicar um castigo tardio, com a redução da maioridade penal. Não é esse o ponto. O problema é anterior. Reduzir a idade para a responsabilização criminal é um paliativo que exporá os nossos jovens a ainda mais violência e a fatores criminógenos ainda mais deletérios. A educação é a chave.

Nós precisamos de exemplos e precisamos dar o exemplo. Punir sem educar é absolutamente inócuo e somente serve para conter, por meio da violência, os anseios violentos da sociedade. Um paradoxo.

Na mesma semana da morte de Ronei Júnior, vi no noticiário que um trem passou por cima do corpo de Adílio Cabral, na estação de Madureira, no Rio de Janeiro (o vídeo pode ser acessado aqui). Parece que Adílio havia sido atropelado e, na sequência, outro trem, após hesitar alguns instantes, passou por cima do corpo que jazia nos trilhos. Já não respeitamos os vivos e, aparentemente, não respeitamos mais os mortos.

Agora recordo do que disse antes, como querer educar as crianças em uma sociedade em que o tempo dos passageiros, que não podem se atrasar para seus compromissos, vale mais do que a dignidade de um ser humano e de sua família, que teve seu corpo violado de forma brutal. Um fato tem direta relação com o outro e todos temos, em alguma medida, responsabilidade pelo que acontece ao nosso redor. É tempo de parar e refletir sobre nossas ações, nossas condutas e nossas prioridades, bem como na forma como temos nos relacionado com os outros. Para mudar o mundo a nosso redor, temos que mudar a nós mesmos.

Ronei disse, em entrevista concedida, que o filho, “todos os dias passava no nosso quarto e dizia: ‘dá o ladinho quente da cama, deixa eu me esquentar aqui com vocês” (ver aqui). Pois ontem foi dia dos pais, o primeiro que Ronei não pode esquentar seu filho, único e brutalmente assassinado.

Ronei Júnior não vai se formar, mas espero, pelo menos, que a família de Adílio consiga velar seu corpo, com a dignidade condizente à vida humana. Uma morte não é algo trivial – e nunca vai ser. Devemos lembrar isso a nós mesmos e aos nossos jovens.

_Colunistas-FelipeFaoro

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