• 26 de setembro de 2020

Fahrenheit 451

 Fahrenheit 451

Fahrenheit 451

Obra-prima de Ray Bradbury (1920-2012), Fahrenheit 451 foi um dos livros que inaugurou o termo “distopia”. Mais que isso, é um obra profundamente política, crítica ao “American way of life” e, acima de tudo, uma declaração de amor aos livros. 

Em 1933, os nazistas fizeram uma grande fogueira em plena praça pública, queimando livros de intelectuais considerados desagradáveis às ideias nazistas. Perseguidos pelo regime, nomes como o célebre escritor Thomas Mann deixariam a Alemanha. 

Freud disse com ironia: “Que progresso estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje em dia, eles se contentam em queimar meus livros.” Auschwitz logo tornaria esse comentário inadequado.

A perseguição a intelectuais é uma das características básicas de governos totalitários. Ray Bradbury partiu desse fato histórico para criar sua obra mais conhecida.

Fahrenheit 451 se passa num futuro (que hoje virou passado) numa cidadezinha dos Estados Unidos. Guy Montag é um bombeiro de seus trinta e poucos anos. A função dos bombeiros não é apagar incêndios; nessa sociedade distópica, sua função é, diante de denúncias geralmente anônimas, queimar as casas de pessoas que tem livros, itens proibidos pelo Governo. As pessoas que cometiam o “crime” de possuir livros eram então presas:

(…). E assim, quando as casas finalmente se tornaram à prova de fogo, no mundo inteiro – (…) – já não havia necessidade de bombeiros para os velhos fins. Eles receberam uma nova missão, a guarda de nossa paz de espírito, a eliminação do nosso compreensível e legítimo sentimento de inferioridade: censores, juízes e carrascos oficiais. Eis o nosso papel, Montag, o seu e o meu. (BRADBURY, 1953, pg. 82). 

Criticando fortemente o “American way of life”, Bradbury monta sua sociedade distópica. Nos Estados Unidos retratados pela obra, a única coisa que importa à sociedade é se divertir; pílulas para dormir são consumidas como se fossem chiclete; televisores do tamanho de paredes adornam as casas da classe média americana, oferecendo entretenimento ininterrupto. O importante é se divertir, assistir à televisão, dirigir carros em alta velocidade e comprar televisores cada vez maiores. Essa semelhança com o mundo atual chega a ser assustadora:

 – Mais esporte para todos, espírito de grupo, diversão, e não se tem de pensar, não é? Organizar, tornar a organizar e superorganizar super-superesportes. Mais ilustrações nos livros. Mais figuras. A mente bebe cada vez menos. Impaciência. Rodovias cheias de multidões que vão pra cá, pra lá, a toda parte, a parte alguma. Os refugiados da gasolina. Cidades se tornam motéis, as populações em surtos nômades, de um lugar para o outro, acompanhando as fases da lua, (…). (Idem, pg. 80).

 – As pessoas não conversam sobre nada. 

(…) O que mais falam é de marcas de carros ou roupas ou piscinas e dizem: ‘Que legal!’. Mas todos dizem a mesma coisa e ninguém diz nada diferente de ninguém. (Idem.pg. 51).

Guy Montag já estava em um processo de questionamento interior sobre o seu papel no mundo que o cercava quando conhece sua nova vizinha, Clarisse. Ela é uma jovem de dezessete anos que se mudara com sua família. Logo faz amizade com Montag, com quem mantém longos e questionadores diálogos. Clarisse e sua família são “diferentes”:

 – Você pensa demais- disse Montag, incomodado.

– Eu raramente assisto aos ‘telões’, nem vou a corridas ou parques de diversões. Acho que é por isso que tenho tempo de sobra para ideias malucas. (Idem, pg. 27). 

Essa breve amizade logo tem fim. Em pouco mais de uma semana, Clarisse desaparece; a casa de sua família, onde morava com o pai e a mãe, aparece escura e vazia. A esposa de Montag, Mildred, comenta com o marido que a moça teria morrido atropelada, e seus pais se mudaram. 

Depois do triste desaparecimento de Clarisse, outro acontecimento derruba de vez Montag: ele assiste a uma mulher morrer queimada junto com seus livros. A mulher, uma senhora já idosa, fora denunciada por ter livros escondidos dentro de casa. Montag e seus companheiros vão até lá. A corajosa mulher decide morrer junto com seus livros, recusando-se a deixar sua casa:

Aja como homem, mestre Ridley; havemos hoje de acender uma vela tão grande na Inglaterra, com a graça de Deus, que tenho fé que jamais se apagará’.

– Já basta! – disse Beatty. – Onde estão?

Esbofeteou o rosto da mulher com espantosa objetividade e repetiu a pergunta. Os olhos da velha se voltaram para Beatty.

– Se o senhor não soubesse onde estão, não estaria aqui – disse ela. (Idem, pg. 57).

Após assistir à idosa morrer queimada, Montag desmonta de vez. Diz à esposa que está com febre e vai faltar ao trabalho. Mildred não é exatamente uma pessoa compreensiva com os dilemas que Montag está vivendo. Tudo o que ela questiona é do que os dois vão viver caso Montag deixe os bombeiros. 

O chefe de Montag, capitão Beatty, é um homem perspicaz. Ele visita Montag em sua casa para ver o que está havendo.

Beatty é o grande censor daquela organização. Como todo grande chefe, ele se dá privilégios que são negados aos demais. Beatty leu muitos livros em sua vida, e surpreende Montag recitando grandes filósofos e escritores. No entanto, nega essa felicidade aos outros:

Beatty esfregou o queixo.

– Um homem chamado Latimer disse isso para um homem chamado Nicholas Ridley, enquanto eram queimados vivos em Oxford, por heresia, no dia 16 de outubro de 1555.

(…)

– Eu conheço muitos desses trechos e passagens – disse Beatty. – A maioria dos capitães bombeiros precisa conhecer. Eu mesmo às vezes me surpreendo. (…)”. (Idem, pg. 62).

Montag se vê numa situação delicada. Ele havia decidido deixar os bombeiros, mas a visita de Beatty deixa claro que o chefe desconfia dele. Montag então relembra um fato decisivo em sua vida, ocorrido um ano antes. Ele estava em um parque quando viu um idoso lendo um livro de poesias. Ao ver um bombeiro o observando, o idoso ficou apavorado. No entanto, Montag estava pouco disposto a prendê-lo.

Montag era bombeiro porque seu pai havia sido bombeiro antes dele. Ele não era exatamente vocacionado para aquela função, e o aborrecia muito ver que a maioria das pessoas tinha medo dele. Então, ao invés de prender o idoso, Montag inicia um diálogo com ele. O velho Faber havia sido professor, quando ainda havia faculdades. Ele deixa seu endereço com Montag, que anota e o nunca o procura. Desde então, Montag furtava livros a cada incêndio e os escondia em sua casa.

Então, Guy Montag toma sua decisão. Ele decide deixar os bombeiros e procurar o velho Faber. Ao comunicar à sua esposa tantas decisões, Mildred fica apavorada. Ao mostrar o esconderijo dos livros em sua própria casa, a esposa se pergunta se ele enlouqueceu.

O velho Faber recebe a visita de Montag. Desconfiado a princípio, orienta Montag a continuar indo nos bombeiros, para despistar o esperto Beatty. Montag recebe de Faber uma escuta, para que os dois se comuniquem sem despertar suspeitas.

A essa altura, os acontecimentos se precipitam. A esposa de Montag o denunciou. Beatty faz questão de levar Montag e obriga-o a queimar sua própria casa. Acuado, com medo, arrependido, Montag queima Beatty e os dois bombeiros que o acompanhavam. 

Agora um fugitivo da Justiça, Montag foge pela cidade com a polícia em sua caça. Apenas tem tempo de visitar o velho Faber para dizer adeus. Faber o orienta a buscar fugitivos como ele. O velho sabe que há muitos como ele e Montag, que desobedecem à lei e que vivem pela floresta, pelos campos, perto do rio, para não chamar atenção da polícia. Faber promete tomar o trem e deixar a cidade, a fim de proteger a Montag e ele mesmo.

Depois de uma longa e exaustiva jornada pelo rio, Montag enfim encontra alguns homens vivendo como nômades na floresta. Eles são o que Bradbury chamou depois de “homens –livro”. Esses homens decoravam os livros, para escapar da polícia e não correrem o risco de ser presos.

Granger tocou o braço de Montag.

– Bem-vindo de volta da terra dos mortos.

Montag fez que sim com a cabeça. Granger prosseguiu:

– Talvez seja bom agora você conhecer todos nós. Este é Fred Clement, ex-ocupante da cadeira Thomas Hardy, em Cambridge, antes que a universidade se tornasse uma escola de engenharia nuclear. Este é o doutor Simmons, da UCLA, especialista em Ortega y Gasset; o professor West, aqui, deu uma grande contribuição à ética, hoje uma disciplina arcaica, para a Universidade de Colúmbia, há um bocado de tempo. O reverendo Padover, aqui, trinta anos atrás, fazia sermões e perdeu seu rebanho de um domingo para o outro por causa de suas opiniões. Agora já faz algum tempo que anda vadiando conosco. Quanto a mim, escrevi um livro chamado Os dedos na luva: o relacionamento correto entre o indivíduo e a sociedade, e agora aqui estou! Bem-vindo, Montag! (Idem, pgs. 182-3).

Os homens-livro traziam um pequeno televisor portátil, a fim de estarem sempre bem informados das notícias. Assim, eles ficaram sabendo do fugitivo Montag. 

Enquanto vagam pela floresta em busca de um novo esconderijo, Montag, Granger e seus companheiros assistem estarrecidos à morte da cidade: uma bomba, resultado da guerra que os E.U.A. enfrentavam naquele momento, destrói a cidade que eles haviam deixado para trás. 

Montag se desespera. Ele sabe que provavelmente Mildred morreu, com boa parte dos habitantes da cidade; ele se questiona se o velho Faber fugiu a tempo de se salvar. Diante da tragédia da nova guerra, Granger insiste que tudo que eles podem fazer é seguir em frente. A humanidade renasceria das cinzas, como Fênix, e, Granger esperava, quem sabe dessa vez haveria finalmente paz entre os homens. 


REFERÊNCIAS

BRADBURY. Ray. Fahrenheit 451. Publicado pela primeira vez em 1953. São Paulo: Editora Globo, 2012.


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Maria Carolina de Jesus Ramos

Especialista em Ciências Penais. Advogada.