Entrevistas

Falsas memórias e erros judiciários (Entrevista com Elizabeth F. Loftus)

Por Redação

A professora Elizabeth F. Loftus é atualmente uma das maiores especialistas no fenômeno conhecido como “falsas memórias”, que vem assumindo recentemente especial relevância para o Direito, sobretudo no âmbito do Processo Penal. Os atores judiciários lidam constantemente com a coleta de depoimentos de vítimas e testemunhas de determinado fato delituoso e tais relatos, não raras vezes, revelam-se completamente contaminados por inúmeros fatores, dentre eles as chamadas falsas memórias.

Em contato com a redação do Canal Ciências Criminais, a psicóloga cognitiva norte-americana forneceu algumas informações relevantes sobre o tema, que serão apresentadas no decorrer desta semana.

Qual a sua atual função e quais seus interesses como pesquisadora?

Atualmente, sou Professora na Universidade da Califórnia, em Irvine. Minhas pesquisas concentram-se em Psicologia e Comportamento Social, Criminologia, Direito e Sociedade. Além disso, sou Professora de Direito.

O que a levou a pesquisar os efeitos de perguntas sugestivas na memória?

Eu quis estudar um problema psicológico que tivesse aplicações no mundo real. O problema das perguntas sugestivas era obviamente aplicável em casos reais de julgamentos de crimes, acidentes, entre outros eventos importantes.

Qual tem sido o impacto do seu trabalho no mundo real?

Baseado não somente no meu trabalho, mas nas pesquisas de muitos outros pesquisadores, o sistema legal tem apresentado mudanças. Existem guias sobre como testemunhas devem ser entrevistadas e tratadas pelo sistema judiciário. Ainda, alguns tribunais decidiram que os jurados deveriam ouvir psicólogos especializados sobre depoimentos de testemunhas oculares.

Memória é um paradoxo. Memória é o centro de nossa identidade. Ela define quem somos e de onde viemos. Sem memória, a vida não teria o senso de continuidade que tem. A vida consistiria  apenas de experiências momentâneas sem relação umas com as outras. Sem memória, não poderíamos lembrar o que queremos falar e nem teríamos este senso de continuidade para saber que somos nós. Ao mesmo tempo, como minhas pesquisas mostraram ao longo dos últimos 30 anos, a memória é totalmente maleável, seletiva e mutável. A sua natureza maleável não importa quando as mudanças são pequenas e insignificantes, como quando eu digo para um amigo que eu comigo frango na noite passada, quando eu realmente comi carne vermelha. Às vezes estas mudanças são tão significantes que levam vidas a ruínas.

Todos os anos o meu trabalho me coloca de frente a um importante grupo de pessoas: indivíduos falsamente acusados por crimes cometidos por outras pessoas. Às vezes conheço pessoas que são acusadas por crimes que nunca aconteceram e, quando conheço mais sobre seus casos, eu geralmente descubro que a defeituosa memória humana é a maior causa destas tragédias humanas. Para dar rosto a algumas destas pessoas condenadas erroneamente, basta acessar o site do Innocence Project.

O projeto, iniciado por dois professores de direito, reúne advogados, jornalistas e instituições para conduzir casos de inocência que podem ser provadas (por exemplo, por evidências de DNA). No site do Innocence Project, podem ser vistos os rostos destes, hoje, inocentes. Um dos mais famosos, Ronald Cotton, foi identificado por Jennifer Thompson, uma atraente colega de faculdade, como o homem que a estuprara. Cotton cumpriu 10 anos de prisão antes de ser absolvido com base em uma prova obtida por exame de DNA. Ao contrário de muitos casos, o real culpado foi encontrado. Por sua culpa, Jennifer reconheceu seu erro e usou seu novo conhecimento sobre falhas na memória para iniciar uma cruzadas em favor das vítimas de erros deste tipo – os inocentes condenados. Após, Jennifer Thompson, uma vítima real, e Ronald Cotton, outro tipo de vítima, encontraram-se. Ela pediu desculpas. Ele a perdoou (Thompson-Cannino & Cotton, 2009).

Estes casos atuais de inocência têm sido estudados na Universidade da Virgínia, pelo professor de direito Brandon Garrett (2011). Está claro que falhas de memória de testemunhas são a maior causa de condenações equivocadas, responsáveis por aproximadamente 75% dos casos.

REFERÊNCIAS

Garrett, B. L. (2011)  Convicting the Innocent.   Cambridge, Ma: Harvard University Press

Thompson-Cannino, J. & Cotton, R.  (2009)  Picking Cotton.  NY: St. Martins Press.

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Tradução e colaboração de Rodrigo Coutinho Carril.

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Elizabeth F. Loftus

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