ArtigosCriminal Profiling

Cultos assassinos: Família Manson

manson

Cultos assassinos: Família Manson

Segundo as classificações de homicídios do Crime Classification Manual do FBI, pertencem a Cultos Assassinos pessoas com excessiva devoção ou dedicação a ideias, objetos, ou pessoas, cujos objetivos primários são de sexo, de poder ou de dinheiro e que são desconhecidas para a sociedade geral.

Quando duas ou mais pessoas com uma ideologia em comum, ou seja, são membros de um mesmo culto e cometem atos que resultam em morte, podem ser classificados como pertencentes ao Grupo de Culto de Assassinatos Múltiplos.

Os líderes desse tipo de culto, via de regra, possivelmente possuem uma história criminal. No entanto, isso pode não ser o caso se o culto for de uma religião tradicional. Em ambos os casos, a liderança exibe uma habilidade magistral para atrair e manipular pessoas, explorando suas vulnerabilidades.

A justificativa dos assassinatos frequentemente é apresentada à assembleia geral do culto como parte da crença do grupo. A motivação do líder, no entanto, exerceria uma forma de controle, dar consistência ao seu poder diante dos membros ou eliminar os encrenqueiros ou os seguidores menos devotados que ameaçariam sua autoridade.

Geralmente, os assassinatos de culto são o resultado de ações de membros que podem decidir sobre vítimas aleatórias, mas as vítimas predominantes deste tipo de assassinato tendem a ser pessoas que já são membros do culto ou à margem da adesão. Geralmente, várias vítimas estão envolvidas num cenário.

A cena do crime pode conter itens simbólicos, na forma de artefatos inexplicáveis ​​ou imagens. A posição do corpo depende da motivação do assassinato. Se for para passar uma mensagem do grupo, geralmente haverá pouca ou nenhuma tentativa para esconder o corpo.

A morte que se destina a intimidar os membros do culto, frequentemente o corpo é enterrado. Um grupo mais organizado exibe a disposição ou ocultação corporal de forma mais elaborada. É comum que a cena do crime apresente evidências de vários assassinos, como também múltiplas vítimas por um massacre.

Os achados forenses mais comuns a este tipo de homicídio envolvem ferimentos causados ​​por armas de fogo, traumatismos, objetos afiados e pontiagudos. Pode haver mutilação do corpo também. Múltiplas armas podem ser vistas num único evento.

Há inúmeros exemplos de cultos relacionados com assassinatos, entre eles, o do líder Jeffrey Lundgreen, seus membros mataram uma família que supostamente pretendia sair do culto. Os LeBaron´s poligâmicos da Igreja Cordeiro de Deus, vários assassinatos foram cometidos durante anos como forma de pagar os “pecados”.

Os “Zebra” killers do culto Black Muslim, roubaram bancos e mataram pessoas em Washington D.C. Esse fenômeno é encontrado em todo o mundo, tem exemplos em Uganda, no Japão, na Nigéria, na Índia, em Honduras, inclusive há relatos desse tipo de crime no Brasil.

FAMÍLIA MANSON

Um dos cultos assassinos mais conhecido no mundo é o da Família Manson, onde os seguidores de Charles Manson mataram sete pessoas em dois dias, enquanto tentavam desencadear a guerra racial americana que apelidaram de “Helter Skelter”.


Leia também:

  • Charles Manson, o homem mais perigoso que já existiu (aqui)

FATO

Nos primeiros minutos da madrugada do dia 09 de agosto de 1969, Sharon Tate (grávida de 8 meses) e seus hóspedes, incluindo o caseiro, foram brutalmente assassinados em sua casa.

Os membros da Família Manson, todos eles jovens entre 20 e 23 anos, formado por Charles “Tex” Watson, Susan Atkins, Patricia Krenwinkel e Linda Kasabian foram os responsáveis pelo massacre a mando de Charlie que apenas deu as ordens e não sujou suas mãos de sangue.

Com Tex escalado, foi a vez de Charlie escolher as mulheres que iriam com ele. (…) Pat cuja timidez e falta de habilidades sociais levaram a maioria das pessoas a acreditar que ela era fria e insensível; e Linda Kasabina, que tinha uma carteira de motorista válida. Charlie sabia que Susan era capaz de qualquer coisa, que Pat acreditava não haver opção senão obedecer em todas as coisas e que Linda queria impressionar o resto da Família. (p. 257)

Na noite seguinte, Grogan e Van Houten mais o grupo da noite anterior, cometeram outros dois assassinatos nos mesmos moldes, em outro local da cidade, matando o casal Leno e Rosemary LaBianca.

VITIMOLOGIA

Manson era obcecado em ser famoso. Tentou de diversas formas. Chegou a gravar um disco, mas não obteve sucesso. Com sua ideia delirante de provocar uma guerra racial, influenciado por um dos crimes ocorridos na época, cuja cena tinha escritos com sangue na parede, Manson vislumbrou que um mesmo crime, com o mesmo modus operandi, conseguiria transmitir erroneamente ao mundo que foram crimes raciais, assim desencadeando a guerra que tanto desejava.

Para tanto, recrutou quatro de seus seguidores, ordenando que matassem de forma equivalente a um crime ocorrido e um negro foi acusado erroneamente, ou seja, um copycat, e que seria na casa de um antigo conhecido, que apesar de não morar mais lá, provavelmente, o atual morador era rico o suficiente, cuja morte levaria certa fama e todos saberiam.

CENA DE CRIME

Primeira cena: próximo a entrada, jazia o corpo do caseiro, ele fora esfaqueado e levara tiros no corpo. As outras vítimas foram amarradas, espancadas, esfaqueadas e levaram tiros até a morte. Na porta de entrada da casa, estava escrito de sangue a palavra “pig” (porco).

Segunda cena: o casal foi amarrado e amordaçado.  Foram mortos esfaqueados e também sofreram ferimentos de baioneta. Nesta cena, fora escrito com o sangue das vítimas na parede: “porcos”, “ascensão” e “Helter Skelter”.

PROVAS FORENSES

Ambas cenas, os corpos estavam expostos com sinais de tortura, presença de mais de um tipo de arma, e outro fato marcante são os escritos ou mensagens com os sangues das vítimas.

CONSIDERAÇÕES DA INVESTIGAÇÃO

Todas as vítimas foram mortas e tiveram seus corpos expostos, de forma a gerar comoção a quem as encontrassem. O número de vítimas ilustra a consideração investigativa que os homicídios de culto são muitas vezes uma farra ou matança em massa. Os escritos nas paredes foram uma forma de levar uma “mensagem” para outrem.

Para entender o motivo dos assassinatos cometidos pela família Manson, é necessário um olhar na dinâmica do culto, especialmente no líder, Chales Manson.

A Kathleen, mãe de Charlie engravidou dele aos 15 anos, o pai biológico sumiu do mapa e Kathleen casou ainda grávida com William Manson. Charlie ganhou o sobrenome do padrasto e o nome de seu avô.

Porém, sua mãe só pensava em festejar e logo veio o divórcio. Nesse período Kathleen e o irmão mais velho se envolveram em diversos roubos. Aos 5 anos, abandonou seu filho com uma de suas irmãs. E posteriormente, foi presa.

Charlie viveu uma história bem complicada desde que nasceu. Na infância já era considerado um mentiroso e na adolescência passou por diversos reformatórios. Nestes, sofreu abusos físicos e sexuais. Charlie não teve uma presença masculina paterna em sua vida, sua mãe não fora um bom exemplo, e umas das estratégias que utilizava nos reformatórios para sobreviver era fingir-se de louco (Guinn, 2014).

Charles esteve preso durante um longo período, passou esse tempo estudando cientologia, budismo e um autor que ensinava a ganhar amigos e influenciar pessoas. Saiu da prisão da época da contracultura, do jargão “sexo, drogas e rock´n roll”.

Nessa época, do “Paz e Amor”, Charlie aproveitou de sua lábia afiada, conseguindo recrutar pessoas vulneráveis, e emocionalmente estáveis que o reverenciavam como um guru. Logo, mudaram para um rancho, Manson e seus tantos discípulos.

Manson mantinham seus discípulos a base de drogas, principalmente de LSD, era a favor do sexo livre e mantinha-os ocupados com muito trabalho.

Ele fazia reuniões, onde ditava sua ideologia, seu discurso delirante, fazia planos. Seus discípulos, mulheres ingênuas, homens desertores e inseguros, todos sob efeito de drogas, acreditavam em tudo que o mestre falava.

Manson acredita ser um “quinto Beatle” e, a partir da música Helter Skelter, do álbum The White Album, descobrira que era uma mensagem decodificada, pois através dessa música começaria uma guerra entre brancos e negros e que ele levaria todos seus discípulos e os esconderiam no Vale da Morte. Sendo os únicos sobreviventes, dominariam o mundo. Os assassinatos que Manson ordenou, foram uma forma distorcida de começar essa guerra.

Charles Manson e alguns de seus discípulos foram presos após os assassinatos. O “profeta” ficou preso até o dia de sua morte, em 19 de novembro de 2017, aos 83 anos, ainda com diversos discípulos e casado com uma mulher bem mais nova, que o admirava.


REFERÊNCIAS

DOUGLAS, J.E.; BURGESS, A.W.; BURGESS, A.G.; RESSLER, R.K. Crime Classification Manual. A Standart System For Investigating and Classifying Violent Crimes. Second Edition. San Francisco: PB Printing, 2006.

GUINN, J. Charles Manson, a Biografia. Rio de Janeiro: Darkside Books, 2014. 520p.

NEWTON, M. The Encyclopedia of Serial Killer. Second Edition. Ed. Checkmark Books, 2006.

Autor

Especialista em Psicanálise, Saúde Mental e Criminal Profiling. Psicóloga.
Continue lendo
ArtigosTribunal Criminal

Nós, os jovens tribunos, vistos por eles, os jurados

ArtigosDireito Penal

Direito Penal não se aprende nos telejornais, muito menos com os "formadores de opinião" da Internet

Artigos

(In)aplicação da reincidência na substituição de PPL por PRD

ArtigosProcesso Penal

Ainda sobre a prisão após condenação em segunda instância

Receba novidades em seu e-mail