• 5 de abril de 2020

E se a vida de um familiar estivesse na sua mão?

 E se a vida de um familiar estivesse na sua mão?

E se a vida de um familiar estivesse na sua mão? Ainda sob o efeito da adrenalina que escrevo este texto.

Hoje, por volta das 01:30 da manhã, fui acordado pela minha dinda, que me passou imediatamente o telefone. Ainda ébrio de sono, imaginava que era algum familiar ou amigo que havia sido detido e precisava de ajuda. Ledo engano.

Comecei a escutar uma voz com sotaque carioca, que fazia a exigência de R$ 10.000,00 para o resgate da pessoa, um familiar, que estava sob o seu poder. Pelo estresse da minha dinda logo tive a certeza: se tratava da minha prima Samanta, que nada mais é do que a minha irmã de criação, mãe da linda Helena, de apenas 3 anos de idade.

Apesar do choque, principalmente tendo em conta que minha dinda urgia de nervosismo e se atirava na minha cama chorando, com o legítimo e inenarrável desespero de uma mãe que poderia estar prestes a perder a sua filha, mantive a calma e comecei as negociações do resgate.

Disse, na hora, que o que tinha para oferecer variava de R$ 600,00 a R$ 800,00 reais, em razão do avançado da hora e da surpresa com a ação, o que foi rechaçado de imediato pelos interlocutores. Logo percebi que o interlocutor estava calmo demais para que fosse, de fato, real a cena que até então ocorria. Porém, não tinha a oportunidade de errar com “achismo”, pois talvez a vida da minha irmã estava, com efeito, nas minhas mãos.

Relembrando o módulo II do curso do meu amigo Thompson, que fiz há aproximadamente 5 anos, comecei a dizer que iria contar o dinheiro que tinha em casa enquanto, de posse do meu celular, ligava para minha prima e o marido dela.

Enquanto eu procedia como aprendi no curso, fiz uma “contagem” fictícia do dinheiro que tinha em casa, de forma lenta e detalhada, até para ganhar tempo o suficiente para que alguém (minha prima ou o marido dela) atendesse o telefone. Também pedi novamente para falar com ela, a fim de que me certificasse que a voz realmente era da minha prima. Ora, como ela ajudou a me criar, conheço de longe aquela voz chorona que estaria por vir.

Felizmente, ao mesmo tempo em que o nosso sequestrador a chamou de Sâmara (o que também não me garantia que não fosse ela) a voz chorona (também) de sotaque carioca me pedia socorro, oportunidade em que tive certeza que tudo se tratava de um falso sequestro.

Para completar, felizmente o marido dela atendeu o telefone e disse que estava tudo bem, o que me deu tranquilidade para encerrar a ligação e abraçar a minha dinda, dando a ela a certeza de que a sua filha estava bem.

É importante relatar isso pois qualquer um pode, um dia, receber essa ligação, e esse tipo de condução não aprendemos nos bancos universitários. Infelizmente, minha dinda cometeu o equívoco de falar o nome da filha dela no início da ligação, o que causou todo o choque e temor a ela, posto que deu aos sequestradores a arma que eles mais queriam para instalar o terror.

Por sorte do destino ela resolveu vir até o meu quarto, tendo em vista que meu pai ainda estava acordado e o quarto dele é antes que o meu, e graças ao treinamento que tive acesso pude verificar a veracidade da informação que me era trazida e proceder de forma correta para averiguação dos fatos.

E não, isso não é uma propaganda do curso Técnicas de Entrevistas, Interrogatório e Detecção de Mentiras, que está com 45% de desconto para quem se inscrever até hoje (14/12/2016), mas sim o depoimento aliviado de um jovem advogado criminalista que, de posse de um conhecimento privilegiado, possivelmente passou pela maior negociação da sua vida.

Matheus Trindade