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Feminicídio no eclipse da razão

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Feminicídio no eclipse da razão

Não houve gritos. A esposa, emudecera diante do objeto mortal. Os primeiros golpes, aliados a descarga de adrenalina, lhe congelaram as pernas. A visão, perdendo a percepção periférica, escureceu-se, e nada mais houve.

Edgar cometera odioso crime. Assassinara cruelmente a esposa, com treze facadas que lhe furtaram a existência. Condenado, fora recolhido à penitenciária do Estado. A cela, pequena, sem ventilação, projetada para seis apenados, comportava doze corpos em condições insalubres.

No regime fechado, Edgar era obrigado à reclusão por vinte e duas horas na cela, e duas horas no pátio, em banho de reflexos do sol.

Na cela, não havia condições de assistir ao pequeno televisor, ou até mesmo, ler um livro, os onze presos que lhe dividiam o espaço, infelizmente, revelavam deploráveis condições educacionais, passando as longas horas do dia a confabular sobre crimes e a fazer uso indiscriminado de narcóticos.

Naquele espaço, onde não conseguia divisar mais do que poucos metros quadrados, quiçá, o horizonte, pensamentos de reeducação eram impossíveis. As palestras eram rudimentares, conquanto rudimentares eram os colegas de cárcere.

Após dois meses, em deploráveis condições, sorveu amargo remorso pela morte da esposa.

Matara-a, encolerizado, após descobrir odioso adultério.

Em determinado momento, em palestra animada com amigos, surpreendera-a com olhar enlevado por um colega em comum.

Sentiu, naquele momento, o eclipse da razão, restando apenas o “ser”, animalizado.

No caminho para casa, na medida em que trazia à tela mental a imagem odiosa, a cólera crescia avassaladora. Mesmo quando fechava, por instantes, os olhos, a imagem, sórdida, colava-se as pálpebras, aterrorizando-o.

Quando em casa, verteu contra a esposa todo tipo de escárnios, e a mesma, sentindo-se ultrajada, confessou o tropeço moral.

Não houve gritos. A esposa, emudecera diante do objeto mortal. Os primeiros golpes, aliados a descarga de adrenalina, lhe congelaram as pernas. A visão, perdendo a percepção periférica, escureceu-se, e nada mais houve.

Edgar era prisioneiro. No cárcere da consciência, sentia, ainda, o amor pela esposa. A indignação pelo adultério. A incompreensão pelo ocorrido. E não obstante, o conflito de descobrir pérfida, a criatura que tomara por santa.

Mesmo após todo aquele tempo, entre o crime infame e a cela insalubre, quando fechava os olhos, a imagem da esposa enlevada por outro homem o encolerizava.

A imagem da esposa com as vísceras expostas, sequer o surpreendia, haja vista, que no atrito da lamina com a carne, a única imagem, era do odioso adultério.

Edgar fora condenado a vinte e dois anos e dois meses de reclusão. Recolhido a uma penitenciária estadual. Algoz da esposa adúltera. Edgar fora uma vítima do eclipse da razão.

A despeito de nossos crimes, somos todos, vítimas de nossas deploráveis condições educacionais. “Entre a Terra e o Céu – Francisco Cândido Xavier – pelo espírito André Luiz“:

Em tais ocasiões, se não encontramos, junto de nós, alguém com o material isolante da oração ou da paciência, o súbito desequilíbrio de nossas energias estabelece os mais altos prejuízos à nossa vida, porque os pensamentos desvairados, em se interiorizando, provocam a temporária cegueira de nossa mente, arrojando-a em sensações de remoto pretérito, nas quais como que descemos quase sem perceber a infelizes experiências da animalidade inferior. A cólera, segundo reconhecemos, não pode e nem deve comparecer em nossas observações, relativas à voz. A criatura enfurecida é um dínamo em descontrole, cujo contacto pode gerar as mais estranhas perturbações.

O despreparo emocional que precipita a criatura humana ao crime é reflexo das precárias condições educacionais que o compõe. Sem o vocábulo que veste o sentimento, incapaz de dar forma as emoções, perde-se no turbilhão das idéias e surpreende-se na noite do raciocínio.

A única maneira de diminuir o eclipse da razão é através da leitura das vida alheias, nas páginas das obras comuns, que jazem obsoletas nas bibliotecas, a espera do espírito ávido por conhecer-se.


REFERÊNCIAS

XAVIÉR, Francisco Cândido. Entre a Terra e o céu, 1954, p. 136.

Autor

Bacharel em Direito pela Faculdade Cenecista de Joinville. Advogado.
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