• 24 de setembro de 2020

First Blood, Rambo e a liberação da violência

 First Blood, Rambo e a liberação da violência

First Blood, Rambo e a liberação da violência

Li Firts Blood ainda adolescente. Não sei como meu pai conseguiu emprestá-lo na biblioteca da empresa onde trabalhava. Se soubesse que nunca mais viria o livro de David Morrel traduzido e que se tornaria com o tempo livro de colecionador, certamente teria ao menos tirado uma cópia e encadernado.

Primeiro Sangue, em uma tradução livre, significa o primeiro trauma ou a singular experiência de dor, pânico e terror de um jovem americano violentado de todas as formas pelo exército vietcongue quando feito prisioneiro nos anos 70.

O livro de Morrel é de 1972, época em que ainda se declaravam inimigos EUA e Vietnã; que teve seu fim em 1975 com a queda de Saigon. Todavia, a obra não trata especificamente do problema da guerra in loco, mas, sim, daquilo que passa a existir no interior do soldado que volta para casa: seus medos, receios, angústias e dores.

Em 1982, Ted Kotcheff dirige o longa Rambo: Programado para matar, com nada mais nada menos que Sylvester Stallone no papel do soldado injustiçado, todavia, benevolente. Para o cinema, Rambo seria a iluminação dos EUA, ou seja, deixar para trás todo o vexame da guerra e contar com um personagem que pode ser o herói, como se viu em suas sequências em Rambo II, III e IV.

Todavia, o John Rambo do livro era um rapaz pacato que vivia e trabalhava até seu alistamento no exército na fazenda de seu pai, em um lugar isolado e tranquilo. Após sua ida ao Vietnã, numa guerra definida pelos EUA como a batalha contra a “injustiça” (calcula-se mais de 2 milhões de civis vietnamitas mortos nos conflitos que iniciaram em 1955 e terminaram em 1975), o soldado passa por determinado período prisioneiro nas mãos de seus captores, que judiam de seu corpo em lamentáveis e tortuosas flagelações.

É assim que Rambo volta ao seu país natal. Mutilado mentalmente, fustigado fisicamente e sem nenhum auxílio por parte de seu governo em solo americano, sente-se perdido.

Ao encontrar notícias terríveis de seus antigos amigos, mortos pelas sequelas da guerra, o ex-soldado volta-se para si como um sobrevivente, enxergando apenas um resistente e permanecente soldado, que somente aprendeu a matar e a puxar o gatilho. Nada mais a ele fora ensinado no exército, bem como ninguém estava lá para recebê-lo quando voltou amputado de seus sentimentos da guerra.

Ao ser provocado por um xerife de uma cidadezinha interiorana e ser insultado por seus ajudantes, Rambo passa a viver o seu único motivo (ou a sua única vida conhecida): matar para sobreviver ou remanescer contra seus inimigos.

Durante a sua fuga do xerife, o ex-militar matou aproximadamente duzentas pessoas em seu caminho, incluindo o próprio delegado e seus policiais. Fugiu para a mata que era o local que mais o lembrava de sua vida em continente asiático, a única que conhecia.

Lá, matou e estraçalhou os homens da lei que o caçavam imaginando estar atrás de um javali. Rambo não teve piedade. Em seus olhos todo o horror da guerra resplandecia e voltou à vida quando provocado por um arrogante xerife, que acreditava ser o dono da pequena cidade que controlava.

Destruiu a cidade com explosivos que ele próprio havia fabricado, criou armadilhas aprendidas no exército, utilizou-se da arte da guerrilha vietnamita para que, em ambiente inóspito e desconhecido, pudesse levar aos moradores da pacata cidade uma guerra jamais antes imaginada.

David Morrel, romancista canadense, trouxe à tona a Síndrome do Vietnã, que alterou a maneira qual os cidadãos americanos viam a guerra e a forma qual a entendiam depois do conflito.

Inúmeros soldados voltavam amputados e psicologicamente abalados. Alguns nunca se curariam de suas perturbações psíquicas. Outros, tentavam ao máximo se infiltrar na sociedade, mas, sem sensibilidade ou conhecimento algum para isso, eram descartados num repente.

Rambo é para Morrel esse soldado, esquecido pelo mundo e pelo país que jurou defender.

Contra ele o sistema de repressão e prevenção se fez presente ao primeiro encontro. O xerife usou de truculência policial contra o cidadão com o intuito de, segundo ele, garantir a paz da sua cidade. Nesse ínterim, conduz o jovem para fora de suas fronteiras o ameaçando. O fato causa indignação e Rambo retorna para acertar suas contas.

Todos os policiais são mortos na floresta, outros, como o xerife, morrem na delegacia, pelas mãos de Rambo. Uma arma preparada, treinada e pronta para matar acionada em toda a sua loucura trazida de uma guerra insensata e superestimada pelo governo americano, que acreditou que deveria mandar jovens combatentes para morrer em selvas, cidades e fronteiras distantes que, de fato, nem inimigas ainda eram.

Para Morrel, fica claro que Rambo é a vítima. Em uma de suas passagens mais espetaculares, antes de ser morto pelo coronel, seu mentor, chamado para tentar controlar a arma que havia criado, John explica que na guerra conduzia máquinas e tanques de guerra de milhões de dólares, e ali, na vida americana, não conseguia um emprego nem de frentista.

A guerra de Rambo não é apenas contra um xerife truculento apenas, mas sim contra um sistema de coisas.Contra a engrenagem que o ativava e o transformava em um matador nato, contra aquilo que viu e que aguentou ver nos campos de batalhas, contra os fantasmas dos amigos mortos enquanto o espectro dele próprio ainda permanecia vivo.

A guerra de Rambo era contra o esquecimento geral e contra a lembrança que o sistema de penalização teve dele ao primeiro olhar.

Inúmeros casos após os anos 80 nos EUA, principalmente envolvendo famílias de ex-combatentes, ocorreram quando o trauma da guerra foi registrado sendo liberado pela violência ou pelo suicídio. Entre os anos oitenta/noventa, vários relatos de suicídio de ex-combatentes devido ao transtorno pós-traumático causado pela guerra no Vietnã trouxeram olhares cada vez mais assustados quando se tratavam de militares aposentados.

O Rambo do livro é bem diferente do Rambo de Stallone. Aquele é real, vivendo em um mundo agonizante de dor e de perda, matando pelo simples motivo de que a vida humana nada mais é do que um alvo a ser acertado com sua metralhadora, quando se opõe a ele ou ao seu país.

Treinado pelo seu exército, que tinha como escopo a guerra, os soldados que retornaram com vida do Vietnã devem ter passado por muitas coisas e visto tantas outras atrocidades que somente a guerra pode realizar.

Ao retornar para o lar, eram jogados, assim como Rambo, no seio da sociedade em uma nova vida que desconhecia e que passava a conviver, despreparado para o convívio.

Rambo é a criação do exército americano, a sua melhor e mais letal arma e se encontra com defeitos terríveis, sendo o seu próprio criador incapaz de reformá-lo ou consertá-lo. Sendo assim, teve que eliminá-lo. Essa foi a maior crítica de David Morrel à guerra do Vietnã e aos Estados Unidos.


REFERÊNCIAS

MORREL, David. First Blood. 1972. Em português: Rambo: A fúria do herói.


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Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.