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Foucault, Deleuze e a visibilidade como armadilha funcional às capturas

Foucault

Foucault, Deleuze e a visibilidade como armadilha funcional às capturas

Faça a linha e nunca o ponto! A velocidade transforma o ponto em linha! Seja rápido, mesmo parado! Linha de chance, jogo de cintura, linha de fuga. Nunca suscite um General em você! (Félix Guattari e Gilles Deleuze)

Este escrito envolve a “visibilidade” como uma armadilha que hipnotiza as forças progressistas na atualidade brasileira, o que, embora certamente não explique totalmente a ascensão do autoritarismo (longe disso), é pertinente ao se apontar como as capturas e ressonâncias do desejo de visibilidade, desastrosamente mostraram-se funcionais à coesão e mobilização do ódio por grupos autoritários [1].

Foucault

Na analítica e abolicionismo penal libertário tensionados por alguns pesquisadores do Nu-Sol (Núcleo de Sociabilidade Libertária), como Edson Passetti e Acácio Augusto, em uma potente articulação de autores que multiplica as possibilidades de interceptação das capturas e das inscrições em armadilhas ligadas ao poder, é importante destacar algo valorizado por Michel Foucault, ainda mais atual e contundente hoje nas sociedades de controle do que na época da publicação de Vigiar e Punir, e que notadamente escapa e destoa, de forma majoritária, das sínteses dos grupos progressistas no Brasil (difusores da centralidade de uma identidade rígida e pesada como símbolo de luta, com poucas linhas de fuga aptas a potencializarem precisamente a palavra “fuga”, inscrevendo-se, ao contrário, em novas entradas nas capturas).

Essas resistências rígidas e manjadas (como em certos slogans “anti-golpe” massacrados), como produto de fácil contenção, são facilmente devorados e absorvidos nos fluxos que acreditam combater (o que funciona muito mais favorecendo as capturas que lhes vencendo, e de modo extremamente funcional à produção de coesão das forças autoritárias em ascensão). Foi descartada a percepção, em muitas situações verificável, da rigidez e da visibilidade como armadilhas, como problemas que despotencializam as lutas.

Armadilhas que engendram uma brutal coesão das forças autoritárias ao detectarem seus alvos, em suas fragilidades e movimentações estáticas, previsíveis, pesadas, seduzidas pelo rótulo de resistências, mas que quase nunca funcionam mesmo nesse sentido na atualidade.

Foucault e Deleuze

Na contramão dessas movimentações, recobrando e articulando autores como Foucault e Deleuze (entre tantos outros), no abolicionismo penal libertário, não passaram despercebidas as armadilhas, capturas e limitações provenientes dessa crescente visibilidade frente aos controles, que tanto atrai as forças progressistas. E que nas sociedades de controle encaixa terrivelmente no desejo de participar, explorado pelas convocações em prol da democracia representativa, assim abrangendo e mobilizando amplas intenções de bradar e reafirmar as máscaras identitárias; pretensão de ser absorvido nos fluxos acreditando perpetrar o contrário, o que possui algumas ressonâncias supostamente interessantes (inclusive na afirmação de si) [2], mas também consequências péssimas em nível molecular e molar, rumo à inscrição em capturas que amplificam as ilusões de resistência dos capturados, dentro dos fluxos instituídos e convocações realizadas, direta ou indiretamente, com movimentações previsíveis ligadas à noção de empoderamento (desprovidas de uma analítica e crítica radical do poder).

Essas movimentações, reféns da universalidade da lei e um tanto institucionais, que se pretendem resistências, não se dissolvem antes das capturas. Frequentemente espalhafatosas, além de não minarem o que em tese pretendem reformar e transformar (ou mesmo abolir e estancar), na história recente do Brasil serviram para edificar uma extremamente problemática coesão no campo das direitas, e em especial da extrema direita, mobilizadora de muito ressentimento e ódio da multiplicidade, da diferença.

A percepção da visibilidade como (também) armadilha foi anulada, suprimida pelos militantes desse front, que optaram pelo desejo de se converterem em um símbolo de resistência; e quanto mais detectável e sólido, melhor, como erroneamente conjecturaram, e inclusive para fins de demonstração e prestação de contas frente aos patrulhamentos e policiamentos cotidianos dos próprios movimentos, em suas hierarquias e disputas de ego. É dizer, o próprio policiamento das esquerdas por elas próprias, contribui para a construção desse rumo, em que, mostrar-se resistência, avocar para si uma imagem sólida enquanto resistência cristalizada, inviabilizou toda potência de criar linhas de fuga e de interceptar os microfascismos, inclusive em si.

E um problema é que essa decisão, ou melhor, esse rumo, deságua precisamente nas explicações do funcionamento e ativação da coesão das forças autoritárias no país, que se articulam exatamente contra essas imagens duras e previsíveis, sem velocidade e potência para se desfazerem, sem inventividade, que desejam se confundir com a própria palavra “resistência”, operando uma fusão que apenas simula o que se deseja, acorrentando-se, e acorrentando as esquerdas.

Nessa esteira, as forças progressistas ávidas por essa visibilidade, e por essa fusão, que desencadeia ainda mais controles e monitoramentos (enquanto anula e mata a potência), são facilmente detectadas e instrumentalizadas na produção de coesão energizada a partir da mobilização do ódio às imagens assinaladas, o que se multiplica facilmente nas redes sociais.

Assim, a etiqueta de uma única imagem de resistência rígida é suficiente para engendrar uma grande coesão das forças autoritárias, unidas para esmagar essa imagem, representante das fissuras que não toleram, e que lhes ameaçam.

Essa promoção de visibilidade como um ideal, almejando uma fusão com a palavra resistência, tornando-se dela uma extensão rígida, verificável e legível, detonou as possibilidades de sobrepujar no nível molar um grande autoritarismo no Brasil, com ressonâncias desastrosas no nível molecular [3].

Essa fusão apontada no artigo, desejada conscientemente ou não, segue uma armadilha. É preciso ser menos para ser mais; ser mais leve para voar além das capturas, ainda que delas não escapando totalmente; livrar-se do peso de máscaras rígidas e sujeições contraproducentes para pensar em reinvenções potentes que não favoreçam e/ou refaçam os territórios enfrentados. 

Não uma dissolução absoluta da rigidez e visibilidade [4], o que é impossível. Mas funcionando com maior mobilidade e versatilidade frente aos controles e capturas, contra a ilusão da aposta na demarcação de corpos, e contra o sequestro da revolta capturada pela linguagem da representação.

Deslizar perfurando a previsibilidade das bolhas e seus fluxos pré-estabelecidas no presente, sem refazer o que se pretende abolir, com menos policiamentos no âmbito micropolítico e mais potência no enfrentamento macropolítico [5].


NOTAS:

[1] Grupos esses, que exploram o ressentimento e o terror à multiplicidade acriticamente, em uma produção de medo que não cessa, utilizando os ingredientes visíveis (que se colocam rigidamente como resistências), como justificação e legitimação interna para seus feitos. Isso, mantendo uma coesão inflamada energizada desde as bases, e assim conferindo significativa energia em nível molar, na confecção e identificação de uma unidade salvadora, messiânica, que costura sua centralidade atrelada ao princípio da autoridade, enquanto simula dissolvê-la, entre delírios de movimentações apartadas de ideologia e delírios de movimentações puras, límpidas, transparentes, da Justiça (do soberano).

[2] Essa afirmação de si, muitas vezes é também a afirmação de um soldado de subjetividade policial programado para movimentar-se “enquanto resistência”, de certos modos delimitados, atrelados a universalidades e centralidades indissociáveis dos poderes estabelecidos. O cidadão-polícia apontado por AUGUSTO (2013) não remete a marionetes com grau zero de possibilidades de frustrar e romper com tais direcionamentos, evidentemente, sempre existindo algo destoante que escapa, falha, anarquiza desde o referencial desses investimentos, materializando rupturas. Mas infelizmente a tendência segue como um elevado nível de condicionamento às convocações, que demandam certos sujeitos, não apenas “punitivos”, mas crentes em algum falso dever-ser programacional, e cada vez mais ligado ao senso comum democrático, produtor de tanta miséria, e “anjos” cruéis, retomando BEY (1985) sobre a arte de governar.

[3] Isso tornou-se notadamente problemático e mais acentuado no Brasil a partir de 2013 nas movimentações de esquerdas e direitas nas redes sociais, tornando-se claro que, no ataque mútuo de ambos, a extrema direita experimentou certo sucesso na produção de sua coesão, gradativamente energizando seus produtos, o que foi confirmada nas urnas. A mobilização do ódio descarregado contra identidades rígidas e máscaras identitárias foi funcional na ascensão das forças autoritárias, estimulando capturas e no limite a supressão e destruição dessas resistências, enquanto engendrava coesão.   O dinamismo dos embates de forças foi permutado por identidades orbitando símbolos congelados, de modo despotencializador das lutas, cada vez mais circunscritas em capturas que anulam a versatilidade, velocidade e imprevisibilidade da revolta; as identidades rígidas reivindicam um horizonte de eventos e desejos colonizados pela linguagem da representação ao pautar o que interessa e o que não interessa, o que não importaria à “luta real”, em uma leitura hierárquica do “real” inimiga das diferenças e da complexidade rizomática desprezada. O desejo de uma identidade rígida que precisa ser exposta todo o tempo, aprisiona e despotencializa uma imprevisibilidade de velocidades e efeitos possíveis que poderiam energizar mais revolta e produzir mais versatilidade na interceptação das capturas e produções autoritárias.

[4] A visibilidade em certos contextos específicos até pode blindar, é claro, mas nas sociedades de controle, é bastante comum o contrário: expandir policiamentos, monitoramentos e aprisionamentos.

[5] Sem depender da fé na política prisional para destronar deuses autoritários com pés de barro (VIPs condutores de vidas). A linguagem criminal captura a revolta em seu território estéril e pernicioso, enquanto simula dissolver injustiças.

Leia também:

  • Estado liberal em Foucault e a expansão da figura de garante no direito penal (aqui)
  • Justiça e psiquiatria: resenha crítica sobre Pierre Rivière, de Michel Foucault (aqui)

REFERÊNCIAS

AUGUSTO, Acácio. Política e polícia: cuidados, controles e penalizações de jovens. Rio de Janeiro: Lamparina Editora, 2013.

BEY, Hakim. T.A.Z.: Zona Autônoma Temporária. 1985.


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Autor

Guilherme M. Pires

Doutorando em Direito Penal. Advogado.
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