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Fragmentado em inimputabilidades

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Fragmentado em inimputabilidades

Desde as primeiras aparições de transtornos psicológicos que existem noticiadas e relatadas, o homem busca em diversas explicações tratar o tema como uma disfunção desorganizadora de mente e corpo. Todavia, Fragmentado (2017), do diretor M. Night Shyamalan, rompe essa concepção abordando o tema de maneira diferente ao qual sempre fora estudado.

E se o Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) partir de uma forma criacionista, interagindo com a condição humana e com elementos subjetivos de um poder sobrenatural e desumano que, engendrado pelo cérebro consegue, pode romper a normalidade?

Por certo, ao interpretar Kevin, James McAvoy se viu diante a um enigma gigantesco: como interagir com os transtornos dos outros?

Se já lhe era difícil realizar o que realizou, com suas 23 personalidades pedindo passagem, imaginar uma identidade parafraseando com o transtorno de outras personagens ultrapassa o conceito de interpretação básica, portando ao ator reverências. Mas para evitar contar o filme aos que ainda desejam apreciá-lo, essa seria uma discussão a parte e o foco aqui é variado.

Todavia, as personalidades de Kevin seriam, tempos atrás, jogadas todas desfiladeiro abaixo, queimadas e purificadas em fogueiras comandadas pela Inquisição, pois a ação sobrenatural dos demônios controlados por uma força transcendente a qual não se pode entender, deveria ser sobrestada com o fogo.

As identidades de Kevin, que se digladiam por um momento à luz, passam a controlar a identidade principal com intuito de fuga e de proteção, de uma realidade incompreensível à personalidade essencial.

Memórias passadas, experiências e traumas de infância, bem como a interação com o ambiente físico e social podem disparar gatilhos que fazem emergir um sentido de proteção, e para Kevin esse sentido é a identidade mais forte, para determinado momento de sua interação com as coisas do mundo.

Entretanto, sua psicóloga, interpretada pela excelente Betty Lynn Buckley, levanta a tese de que essas situações psicológicas as quais envolvem indivíduos com personalidades distintas são relevantes para seus estudos acerca de uma parte do cérebro que ainda não foi totalmente refletida pela ciência: a plasticidade cerebral, ou seja, a remodelação de todo o organismo, por intermédio dos pensamentos.

Para a doutora, essa ainda é uma parcela inexplorada da ciência, carente de maiores pesquisas, mas que, por intermédio de seus pacientes, conseguiu definir que o cérebro cria as condições emocionais, como também físicas, para a concepção de realidade da pessoa.

Dessa forma, Kevin consegue, através de suas personalidades (que são, para ele, forma de autoproteção) modelar toda a estrutura física e, assim, conseguir força muscular e, até mesmo, habilidades que em consciência normal não teria.

Para explicar esses preceitos, os estudos do TDI afirmam que as memórias passadas, que continuam a moldar o Ego desde sua primeira interação com o indivíduo, possuem fundamental vigor para a formação das identidades. Nesse aspecto, cada situação vivida e toda condição que aflore as dificuldades ou memórias trágicas ao indivíduo, causa a dissociação. Esse evento, por si, é capaz de desintegrar o ego, cogitando novas possibilidades e personalidades.

Há no mundo da literatura e do cinema outro famoso personagem que traz consigo personalidade dupla: o Sméagol-Gollum, de O Senhor dos Anéis, consegue de uma forma bem especifica argumentar consigo mesmo e com a identidade dominadora. Essa segunda identidade é até mesmo mais forte que a principal, tornando-o apto a lutar pelo seu Precioso e, até mesmo, de matar.

Ocorre que Kevin, na visão do diretor de Fragmentado, é uma pessoa afável, sofredora de diversos traumas passados, que desassocia seus sentidos conforme as situações práticas vividas. Com o passar dos tempos, as personalidades dissociativas de Kevin tomam conta do seu EU, deixando-o na berlinda.

Essa interação é causada pelo medo e pânico da personalidade principal em viver nesse mundo repleto de situações desagradáveis. Algumas pessoas, nessas circunstâncias, ficam conhecidas como suicidas, outras como esquizofrênicas.

Ocorre que a esquizofrenia é causada por uma ruptura nas funcionalidades do cérebro, enquanto o TDI seria uma fragmentação da personalidade do agente, grosso modo.

A dissociação, ocorrida com Kevin, ocorre a partir de eventos traumáticos e intensamente estressantes, podendo causar identidades duplas, que se coadunam mas não se encontram, vivem apenas em proteção uma da outra, deflagradas por distintos gatilhos que as lembram qual a hora de defender-se.

De fato, se é um estudo do sobrenatural existente na química cerebral, ainda não desvendada por completo pela ciência, como afirma a personagem da psicóloga no filme, ou se parte de uma fragmentação da personalidade que tende à autodefesa quando necessário e, para isso, encarna variadas formas de lidar com seus problemas (entre essas formas, até mesmo matar), o filme de Shyamalan consegue trazer mais uma vez a discussão das imputabilidades e inimputabilidades tão destacadas na vida real penal, mas pouco estudadas por seus mandamentos jurídicos.

Certamente e claramente, Kevin é fragmentado em inimputabilidades.

Autor

Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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