ArtigosCrime, Arte e Literatura

Frankenstein assassino: a lenda de vida e morte

Canal Ciências Criminais
Frankenstein

Frankenstein assassino: a lenda de vida e morte

As lendas correm o mundo e possuem o poder de transformação. Por suas entrelinhas pode-se identificar e quantificar traços culturais e essenciais da etimologia do mito.

Contudo, demonstram características humanas e asseguram que a passagem do tempo pode ocasionar a expansão das lendas, de forma que o simples sussurrar de sua existência já cria por si, inúmeras outras interpretações sobre suas proezas.

Esse é o caso do Prometeu Moderno, ou mais conhecido entre nós como Frankenstein.

Para quem nunca leu a obra, mas entende que a conhece pela lenda, pois é um escrito tão fenomenal ao ponto de criar mitos sem mexer/alterar em uma frase sequer de seu arcabouço, saiba que possui vida própria, assim como a criatura, criada a partir de restos humanos. Vida tão própria que é capaz de se transformar, criar lendas a partir de suas vertentes, mistificar os desejos humanos de uma reinterpretação da gênesis da vida.

Ao gerar Prometeu Moderno em 1817, Mary Shelley, com apenas 19 anos, criava vida, assim como seu personagem principal o fez.

A dualidade entre o bem e o mal convive em um ser criado em laboratório e jogado mundo afora, descartado por sua incomparável e ameaçadora deformidade, resto de corpos humanos mortos animados pelo poder do galvanismo; contrações musculares provocadas por estímulos elétricos, inventada por Luigi Galvani em 1791, que poderiam animar corpos falecidos.

A partir do nascimento da criatura, deformada e monstruosa, seu criador, assustado, jogou-a ao mundo temendo aquilo que havia criado.

John Milton, em Paraíso Perdido, situou o Inferno e sua capital, Pandemônio, em um dos ciclos mais importantes da investigação humana com sua psique e sua completa adaptação com uma franca dualidade, que questionava céu e inferno, bem e mal, pureza e podridão. O nascimento como o fato mais natural, mas que passa a transformar o homem a partir de suas interações e suas carências, molda qualidades que buscam a sobrevivência, mesmo no céu ou no inferno.

Nesse sentido, a criatura entendeu que sua presença na terra, a partir de sua própria cognição, daquilo que entendia ser o mundo, decifrava a transgressão do que é natural: o poder de criação deveria ser dedicado apenas aos deuses, que assim como Zeus, poderia conceber o sopro da existência na carne humana, o homem apenas viveria esse soprar aonde o levarem os ventos.

A partir desse ponto, a relação com Prometeu se perfaz, pois roubou a centelha divina de Zeus, bem como, Victor Frankenstein o fez, ao furtar de Deus a dádiva da criação.

Reconhecendo suas carências e odiando seu criador mais que tudo, a criatura começou seu rastro de vingança, matando e sufocando vidas que eram importantes ao seu criador.

Tornando-se um assassino e vivendo no ermo, desejava uma companheira para repartir sua dor, e que fosse como ele, inanimado, sem alma e monstruosa, fato negado por seu criador, que jurou nunca mais colocar no mundo algo tão abominável.

Acontece que no inicio a criatura demônio, como era chamado pelo seu inventor, possuía sentimentos que desenvolviam a sociabilidade, sempre negada pela sua aparência.,

Ao salvar uma pequena garota que se afogava e devolvê-la ao seu pai, esse, assustado, saca uma arma e atira-lhe no ombro, projétil que causara intensa dor física, porém, que o despertava para algo desconhecido.

Passou então a perceber que não era bem-vindo, por sua feiura incomparável, jogado a um mundo que não entendia, descartado por seu criador que não mais se apresentava. Como numa tragédia edipiana; o pai era então a criatura a ser interpretado, medido e devorado.

Pecado maior não há, em soltar um filho inocente ao mundo e dar-lhe as costas. Por esse motivo, o genitor deveria ser perseguido.

Preconceito e ingratidão eram concebidas pela criatura como algo humano, quando tenta a aproximação com pessoas que vivem ao seu redor, mesmo estando escondido a ermo. Mas ele, monstro, não era humano. Aprendeu que era algo a menos; entendeu-se como uma criatura que possuía uma centelha de vida que não era permitida, era abominada e por isso, seu criador deveria sofrer.

Matar o tornou o monstro.

Mesmo que acreditando que matar o livraria de sua solidão, quando isso o colocaria mais perto de seu criador, que ao mesmo tempo em que gerou vida, criou morte.

Ao estrangular suas vítimas, o monstro sugeriu para si um caminho de vingança e certezas; de que homem não era, mas que, jogado a uma áspera vida de forma vil, esquecido, não alimentado e deixado num canto para a morte, só poderia seguir um caminho que o levava para a vingança contra o seu particular Prometeu.

Conheceu, durante sua existência, morte e sofrimento, somente isso e nada mais. Carência, fome, medo e depois, vingança. Sua própria escada de vida o levou aos infortúnios, criados para ele e causados por ele. Em sua monstruosidade, a criatura de Frankenstein nos provou, de fato, que nada é mais humano que o crime.


Leia mais textos da coluna Crime, Arte e Literatura aqui.

Autor
Mestre em Direito. Professor. Advogado.
    Continue lendo
    Receba novidades em seu e-mail