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Genene Jones, a enfermeira diabólica


Por Bernardo de Azevedo e Souza e Henrique Saibro


“Eu sempre choro quando bebês morrem” (Genene Jones)

A PERSONALIDADE

Genene Jones nasceu em julho de 1950 e se criou em North-West, San Antonio (EUA). Filha adotiva de Richard Jefferson Jones e Gladys Jones, pode-se dizer que, ao menos na infância, foi mais ligada ao seu genitor. Possuía ainda três irmãos – todos, também, adotados. Richard era considerado um sujeito firme e veemente, além de um homem de negócios; sua principal atividade era voltada à venda de carros. Genene acabou desenvolvendo o gênio forte do pai afetivo. Já na escola trabalhava na biblioteca, enquanto seus colegas ainda se dedicavam a atividades recreativas. Em razão disso, Jones não possuía muita simpatia com as outras crianças, pois suas aspirações eram diversas. Seus professores a descreviam como uma menina “mandona” e diferente da maioria dos outros menores.

Mas a infância da jovem Genene não lhe reservava boas experiências. Um dos seus irmãos morreu de câncer; outro foi morto por uma explosão de uma bomba caseira. Aos 18 anos Jones perdeu o seu pai (igualmente por câncer). Logo após a morte de Richard, Genene casou-se com um namorado que havia conhecido ainda na escola: James Harvey DeLany. Aos 20 anos Jones mudou-se para a Geórgia com o marido, onde acabou engravidando e dando à luz, aos 22 anos, um menino chamado Richard Michael DeLany. Com o nascituro do filho, o casal voltou a San Antonio, mas o casamento estava em crise. Genene requereu, então, o divórcio, sob o argumento de que apanhava violentamente de seu companheiro. Foi imposta uma medida protetiva contra James, proibindo-o de aproximar-se de Jones e de seu filho. Entretanto, passaram-se dois meses e ambos estavam novamente juntos.

Em junho de 1974, Genene e James romperam de vez o relacionamento. Conquanto não estivessem mais juntos, uma longa batalha judicial teve início – de um lado Jones requeria o aumento da pensão alimentícia; doutro era James quem suplicava em Juízo mais dias de visita ao seu filho. Foram três anos de intensa discussão na corte, até que em março de 1977, talvez por cansaço, ambos decidiram partir para a conciliação.

Cinco meses após todo esse imbróglio, Genene engravidou novamente e uma menina chamada Heather nasceu. Dizia ela que a garota era filha de um sujeito chamado Ron English, mas, para outras pessoas, referia que, na verdade, o pai do bebê era o seu ex-marido. Com o nascituro da sua nova filha, Genene passou a cursar enfermagem. Ela era uma das melhores alunas do curso; sobravam notas altas e não faltavam elogios por parte dos professores. O talento de Jones era inquestionável. Aos 27 anos assumiu uma função no Hospital Metodista em San Atonio. Todavia, em menos de um ano já havia sido demitida; “eu tinha um conflito com um médico” disse Jones.

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A jovem enfermeira Genene Jones

Posteriormente trabalhou no Hospital Comunidade, onde fora demitida após apenas 3 meses de trabalho. Começou, então, a trabalhar na unidade de terapia intensiva pediátrica em outubro de 1978 no Bexar Country Hospital. Nessa casa hospitalar, Jones foi vista como a enfermeira mais habilidosa e distintiva em relação aos demais colegas. Em alguns procedimentos o seu domínio técnico ultrapassava a de médicos já experientes no ramo. A sua especialidade era ligada a operações intravenosas, como, por exemplo, a injeção de drogas pelo pulso e a remoção de sangue. Esse delicado trabalho era ainda mais meticuloso quando envolvia crianças, cujas veias são menos vistosas e mais finas.

Entretanto, para Genene aquilo era banal. “Ela poderia, tranquilamente, tirar o sangue da veia de uma mosca aflita”, diziam os médicos do hospital. Em pouco tempo Jones era referência no trato de bebês enfermos. Tinha a reputação de salva-vidas, pois conseguia reverter estados críticos de crianças como ninguém. Passou a chefiar a UTI do setor infantil do hospital. Todavia, a fama de boa enfermeira subiu com a cabeça de Genene, passando a ser odiada por quase todo o corpo profissional do hospital. Se um médico rejeitasse o seu conselho, Jones não aceitava a crítica e dizia que o paciente iria morrer. Ela gritava palavras de baixo calão nos corredores da casa hospitalar e abordava, incessantemente, os médicos do local para chamar atenção.

Como Genene já não tinha mais os holofotes do hospital, além de os médicos fazerem questão de não ir ao seu encontro, Jones encontrou um método eficaz para atrair os olhares de seus colegas; infelizmente essa técnica é o motivo pelo qual estamos publicando este texto: matar dezenas de bebês.

OS CRIMES

A partir de seu plano diabólico, bebês e crianças vinham a óbito de forma inexplicável no Hospital Bexar County. Pequenos pacientes que pareciam estáveis de repente paravam de respirar. Crianças em quadro regular sofriam convulsões. Infantes tinham o batimento de seus corações interrompidos ou acelerados descontroladamente. A situação ficou insustentável ao ponto de o próprio hospital instaurar uma sindicância para verificar se algum profissional estaria praticando condutas suspeitas.

Para que se tenha uma ideia, entre maio e dezembro de 1981, dez crianças da UTI morreram de forma “inexplicável”. Segundo os arquivos do hospital, em todos os casos a enfermeira Jones estava presente ao lado da cama durante “os últimos eventos com vida” do paciente. Entretanto, a diretoria hospitalar entendeu que tais indícios não eram suficientes para denunciar a enfermeira, mas os médicos responsáveis pela UTI se recusaram a continuar trabalhando com Genene, e alcunharam o plantão da enfermeira como “o turno da morte”.

Jones foi, então, “convidada” a se retirar do hospital. Ela aceitou o convite e, curiosamente, as mortes, que sequer a medicina conseguia explicar, tiveram fim. Após deixar San Antonio, Genene assumiu como enfermeira em uma clínica pediátrica em Kerrville. Em apenas um mês, oito crianças já estavam internadas em estado crítico – sem muitas explicações da causalidade das internações.

Foi quando Chelsea McClellan, uma linda menina loira de olhos azuis, com apenas oito meses, foi levada à clínica de Kerrville para uma simples averiguação de um leve resfriado. A médica do local, Dra. Kathleen Holland, imediatamente atendeu a mãe de Chelsea, enquanto Genene se dirigiu com a criança para “mostrar uns brinquedos”. Em questão de segundos, Jones voltou desesperada informando que a menina tinha parado de respirar. Imediatamente, a enfermeira introduziu uma máscara de oxigênio sobre o rosto do bebê. Para alívio de todos, “graças à competência e agilidade de Genene”, a menina estava a salvo. Mas a sua segurança duraria pouco.

Nove meses depois, os pais de Chelsea estavam novamente na clínica e procuraram pessoalmente Jones para realizar uma vacinação de rotina contra sarampo. Genene foi a enfermeira responsável por aplicar a injeção. Ocorre que, após aplicá-la, a criança sofreu fortes convulsões. O bebê foi levado a San Antonio para tratamento de emergência, mas no caminho sofreu uma parada cardíaca e faleceu. Foi a própria Genene quem, aos prantos, entregou Chelsea morta aos pais.

A Dra. Kathleen Holland desconfiou de que não se tratasse de uma morte natural e solicitou uma autópsia. Como o corpo já estava enterrado, teve de ser exumado. As autoridades, depois daquele misterioso falecimento, passaram, então, a investigar a vida pregressa de Genene e se deram conta de que ela poderia ter sido a responsável pelo assassinato de dezenas de crianças. A situação de Jones ficou ainda mais delicada quando divulgado o resultado da autópsia da jovem Chelsea. Foi quando a acusação por homicídio se tornou inevitável.

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Jones sendo presa pelas autoridades policiais

O JULGAMENTO

O julgamento de Genene Jones pela morte Chelsea Ann McClellan (15 meses de idade) teve início em janeiro de 1984, na cidade de Kerville, Texas, nos Estados Unidos. A Acusação foi representada pelo Promotor Ron Sutton. De acordo com Sutton, Jones gostava de levar as crianças à beira da morte para depois salvá-las e ser proclamada salvadora. Somado a este “complexo de heroína”, a motivação da enfermeira para ter matado o bebê Chelsea era de justificar ao hospital local (Kerville) a necessidade de que fosse implantada uma UTI para crianças doentes. Jones tinha interesse pessoal na referida unidade, com a pretensão de ser a enfermeira-chefe.

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A enfermeira diabólica sendo conduzida ao julgamento

O assistente de acusação Nick Rothe reforçou a tese do Promotor e, apontando o dedo indicador rigidamente para Genene Jones, vociferou durante o julgamento:

“A enfermeira que matou o bebê está ali!”

A seu turno, a Defesa optou pela tese de negativa de autoria. Inicialmente, arrolou testemunhas para comprovar que Genene Jones sempre foi uma enfermeira dedicada, competente e responsável. Depois, buscou a todo o momento demonstrar que as convulsões misteriosas do bebê Chelsea, a exemplo das demais crianças mortas, poderiam ter sido causadas por imperícia da Dra. Kathleen Holland, a pediatra com quem Jones trabalhou na clínica de Kerrville. O advogado Burt Carnes ‘acusou’ o Promotor de estar obcecado por responsabilizar Genene Jones pelos crimes, e esconder a incompetência e irregularidades cometidas pela Dra. Holland. Na ótica da Defesa, Genene Jones foi escolhida pela Acusação como bode expiatório.

Após três horas de deliberação, os jurados chegaram ao veredicto condenatório: Jones era culpada de ter matado Chelsea por meio de uma injeção contendo suxametônio (succinilcolina), relaxante muscular utilizado em cirurgias. Surpresa com o resultado, a enfermeira foi conduzida até o veículo da ‘superintendência penitenciária’, para ser conduzida ao presídio. Do lado de fora da Corte Judicial, manifestantes aplaudiram o resultado do julgamento.

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Populares gritavam e seguravam cartazes no lado de fora da Corte Judicial

Chorando, os familiares de Chelsea se abraçaram. Em entrevista para a imprensa, a avó do bebê suspirou aliviada:

“Nós podemos finalmente enterrar ela e eles não cavar o túmulo dela nunca mais!”

Pelo homicídio de Chelsea Ann McClellan, Jones foi sentenciada a uma pena de 99 anos de reclusão. A enfermeira diabólica foi novamente condenada em outubro de 1984, desta vez pela tentativa de homicídio de Ronaldo Santos (1 ano de idade) com a utilização de heparina, um anticoagulante injetável. A pena foi fixada em 60 anos de reclusão.

A PRISÃO

Condenada, Genene Jones foi enviada a Dr. Lane Murray Unit, presídio feminino localizado em Gateville, no estado do Texas, onde atualmente cumpre sua pena. Embora as autoridades policiais tenham tentado, de inúmeras formas, encontrar provas para acusá-la dos outros óbitos infantis, jamais se conseguiu determinar o número total de vítimas. (Estima-se que tenha assassinado, desde o início de sua carreira de enfermagem em 1977, mais de 40 bebês.)

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Genene nos dias de hoje, com 66 anos de idade

A impossibilidade de saber com exatidão o número de bebês assassinados se deveu ao fato de que a equipe do Centro Médico Hospitalar de Bexar County extraviou mais de 9.000 registros médicos. Para preservar a própria imagem e evitar constrangimentos, o hospital destruiu assim as evidências que conduziriam ao grande julgamento. A decisão “institucional” do hospital de desaparecer com documentos não apenas impediu os pais das vítimas de saber, na época, a verdade sobre o óbito de suas crianças indefesas, como projeta seus efeitos até os dias de hoje.

A sentença condenatória foi reduzida em um terço em virtude das leis atuais do estado do Texas, e a liberação da enfermeira diabólica deve ocorrer em fevereiro de 2018. Assim, a menos que as autoridades encontrem novas evidências para levar a julgamento os fatos ocorridos há mais de 30 anos, Genene Jones será provavelmente a primeira serial killer a ser legalmente solta na história dos Estados Unidos.

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Autor

Advogado. Mestrando em Ciências Criminais. Especialista em Ciências Penais. Especialista em Compliance.
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