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George Orwell e o jornalismo literário: um estudo de “na pior em Paris e Londres”

George Orwell e o jornalismo literário

George Orwell e o jornalismo literário: um estudo de “na pior em Paris e Londres”

Nota introdutória: Na coluna da Comissão de Estudos Direcionados em Direito & Literatura do Canal Ciências Criminais, apresentamos aos leitores um pouco daquilo que vem sendo desenvolvido pela comissão nessa terceira fase do grupo. Além da obra que será produzida, a comissão se dedica a pesquisa e ao debate sobre questões presentes na temática “Direito & Literatura”. Em 2019, passamos a realizar abordagens mais direcionadas nos estudos. Daí que contamos dois grupos distintos que funcionam concomitantemente: um focado na literatura de Franz Kafka e outro na de George Orwell. Assim sendo, alguns artigos foram selecionados e são estudados pelos membros, propiciando uma salutar discussão entre todos. Disso se resultam as ‘relatorias’ (notas, resumos, resenhas, textos novos e afins), uma vez que cada membro fica responsável por “relatar” determinado texto por meio de um resumo com seus comentários, inclusive indo além. É o que aqui apresentamos nessa coluna, almejando compartilhar com todos um pouco do trabalho da comissão. O texto da vez, formulado pela colega Maria Rafaela Junqueira Bruno Rodrigues, foi feito com base no artigo “George Orwell e o Jornalismo Literário: um estudo de “Na Pior em Paris e Londres””, de Leonardo Lucena Trevas – publicado nos anais do Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Vale conferir! (Paulo Silas Filho – Coordenador das Comissões de Estudos Direcionados de Direito & Literatura – Orwell e Kafka – do Canal Ciências Criminais)

George Orwell e o jornalismo literário

No texto “George Orwell e o jornalismo literário: um estudo de “Na pior em Paris e Londres”, o autor Leonardo Lucena Trevas faz uma introdução sobre a vida e obra de George Orwell, deixando evidente que o faz em virtude da influência para área cultural exercida pelas obras do autor.

O autor toma boa parte do texto expondo aspectos gerais da vida e obra de Orwell, para somente após realizá-la adentrar na análise da obra “Na pior em Paris e Londres”.

Embora tenha tomado boa parte do texto nessa exposição sobre a vida e obra de Orwell, tal relato é muito salutar principalmente para leitores que não tem assiduidade à leitura do autor, que sob o olhar do narrador vai conhecê-lo, mesmo que de forma geral, portanto, superficial.

Como dito, num segundo momento adentra realizar a análise textual da obra “Na pior em Paris e Londres”, apontando aspectos da vida do personagem que é o retrato da incorporação de um mendigo realizada por Orwell para vivenciar de forma próxima o que passa na realidade que se sujeita, muitas vezes por falta de opção a esse tipo de situação.

A ficção distópica presente no texto

Na análise realizada sobre o texto, Trevas ressalta que o romance-reportagem havido na obra “Na pior em Paris e Londres”, de Orwell, foi concebido a partir do que chamou de “expedições de mendicância” realizadas pelo autor, mencionando que para que isso tivesse ocorrido, passou dias vagando pela cidade de Londres e seus arredores, com a finalidade de descrever como viviam os mendigos e a miséria de suas vidas, nesse aspecto tendo sido necessária a convivência com outros mendigos.

O que justifica, segundo o autor Trevas, a afirmação de Orwell de que “uma vez descoberta a pobreza absoluta, ela aniquila o futuro do homem”. Nesse sentido explica que assim se referia Orwell por reconhecer que uma existência na mendicância absoluta, leva o ser humano a passar toda sua existência se preocupando com o aqui e o agora e em como conseguir abrigo e comida, pois, ressalta que segundo Orwell, “a fome nos reduz a uma condição de estupidez e falta de energia total, mais parecida com os efeitos da gripe do que qualquer outra coisa”.

O mais interessante é que procurou além dos aspectos ambientais, retratar sensações provocadas por uma situação de vivência que ultrapassa a ficção, vez que vivenciada, mas se apresenta como uma ficção distrópica no sentido de que a ficção encontra-se no fato de que Orwell fazia incursões momentâneas na mendicância, por opção, para conhecer tal realidade, mas não vivia e não precisava viver assim.

Por outro lado se apresenta como distrópica no sentido de que se apresenta como contrário a utopia, se apresentando como uma realidade não agradável, sofrida e recorrente.

O Direito a partir da incursão no texto “Na pior em Paris e Londres”

O texto apresenta os traços que representam o pensamento de Orwell, ou seja, o compromisso com a verdade, a interpretação da vida, contemporaneidade, ênfase na personagem, ênfase nos detalhes e a forma coloquial, mantendo o “jornalismo literário” que sempre se estão presentes em suas obras.

A identificação dessas características nos leva a pensar em como o texto tem em comum com o Direito, principalmente ao realçar a figura do mendigo oprimido, não o vendo como marginalizado, mas como um sujeito que não tem respeitado seus direitos enquanto cidadão e, portanto, sem a devida observância dentre outros, do princípio fundante, que é o da dignidade da pessoa humana.

Ressalta que o mendigo não é “marginalizado”, que Marx também o veria dessa forma, como um “lumpemproletário”, que é um termo designativo da camada flutuante do proletariado, destituída de recursos econômicos e especialmente caracterizada pela ausência da consciência de classe,

Nesse sentido, Trevas enfatiza que de forma recorrente Orwell em toda sua obra traz a opressão do cidadão pela autoridade (neste caso, burguesa); o socialismo democrático, mesmo que latente; a influência da forma naturalista/realista, de linguagem simples/direta, a abordagem empirista e esclarecedora e a crítica ao sistema capitalista.

Atualmente esse relato tem muita confluência de sentido com o artigo da lavra de Gilles Deleuze, publicado no L’Autre Journal nº 1, de maio de 1990, intitulado “Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle”, quando menciona que:

Os diferentes internatos ou meios de confinamento pelos quais passa o indivíduo são variáveis e independentes: supõe-se que a cada vez ele recomece do zero, e a linguagem comum a todos esses meios existe, mas é analógica. Ao passo que os diferentes modos de controle, os controlados, são variações inseparáveis, formando um sistema de geometria variável cuja linguagem é numérica (o que não quer dizer necessariamente binária). Os confinamentos são moldes, distintas moldagens, mas os controles são uma modulação, como uma moldagem auto-derformante que mudasse a cada continuamente, a cada instante, ou como uma peneira cujas malhas mudassem de um ponto a outro. Isto se vê claramente na questão dos salários: a fábrica era um corpo que levava suas forças internas a um ponto de equilíbrio, o mais alto possível para a produção, o mais baixo possível para os salários; mas numa sociedade de controle a empresa substituiu a fábrica, e a empresa é uma alma, um gás. Sem dúvida a fábrica já conhecia o sistema de prêmios, mas a empresa se esforça mais profundamente em se impor uma modulação para cada salário, num estado de perpétua metaestabilidade, que passa por desafios, concursos e colóquios extremamente cômicos. Se os jogos de televisão mais idiotas têm tanto sucesso é porque exprimem adequadamente a situação da empresa. A fábrica constituía os indivíduos em um só corpo, para a dupla vantagem do patronato que vigiava cada elemento na massa, e dos sindicatos que mobilizavam uma massa de resistência; mas a empresa introduz o tempo todo uma rivalidade inexpiável como sã emulação, excelente motivação que contrapõe os indivíduos entre si e atravessa cada um dividindo-o em si mesmo.

Dessa forma, se vê é uma questão de dimensão puramente temporal a opressão recorrente do cidadão pela autoridade, seja ela, representada pela forma que for, assim ressalta se referindo sobre o pensamento de Orwell, “o próprio sistema o faz se manter na vida de mendigo”, situação afirmativa frente a experiência e observação vivenciada nas ruas de Paris e de Londres, podendo ser deveras esclarecedora e desmistificadora.

Considerações Finais

O artigo “George Orwell e o jornalismo literário: um estudo de “na pior em Paris e Londres”, de Leonardo Lucena Trevas, demonstra claramente uma vivência que comprova o descaso, a falta de respeito e a ausência de tutela, ao ser humano oprimido e preso em suas próprias vivências, numa situação de penúria e pobreza, não só de recursos materiais.

Nesse sentido, vivencia de forma recorrente a pobreza, que o aniquila enquanto ser humano, por não ter nenhuma oportunidade, seja ela propiciada pela Lei, pelo Estado ou pelo próximo, em total e franco desrespeito à sua condição de um sujeito digno, havendo assim, uma falta de respeito contínuo, dentre outros princípios, ao princípio da dignidade da pessoa humana.

Unir a literatura de Orwell ao Direito propicia uma importante reflexão sobre a condição recorrente humana, de subjugação de uns para com os outros, ausência de tutela pelo Estado e conformismo social e generalizado, que prefere se submeter à opressão que oprime a todos, quando se deparam com os reflexos provocados pela pobreza vivenciadas por alguns seres humanos.


REFERÊNCIAS

DELEUZE, Gilles. L’Autre Journal – nº 1 – maio de 1990. Extraído de Conversações. Tradução: Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro: Editora 34, 2000.

ROCHA, Camilo. Realidade ou ficção distópica: você sabe diferenciar? Disponível aqui. Acesso em 25.04.2019.

TREVAS, Leonardo Lucena. George Orwell e o jornalismo literário: um estudo de “Na pior em Paris e Londres”. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Recife – PE – 02 a 06 de setembro de 2011.


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Autor

Doutora em Direito pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (2006). Pós-doutora em Direito e Saúde na Università Degli Studi Di Messina - Itália (2014/2015). Mestre em Direito pela Universidade de Franca (2000).
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