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O Grande Ditador: em nome da Democracia

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O oprimido representa os ideais de igualdade e cidadania em um regime que se estende ao mundo impondo a ganância, a irreflexão e todo o fanatismo de um déspota e seus seguidores.

O Grande Ditador, escrito, dirigido e interpretado por Charles Chaplin em 1940 traz a hipotética, mas verossímil suposição, de uma vitória de Hitler e todo o excremento que representava o falido (desde suas concepções, e ainda assim, mortífero) terceiro Reich.

A imagem que Chaplin transmite na época da segunda guerra, que ainda não contava com a união dos países em um bloco de resistência contra as atrocidades do fuher, é a de uma batalha mundial vencida pelo ditador, que espalha seus pensamentos de tirania ao mundo dominado.

Mesmo considerado um filme de humor, todavia por tudo o que suas críticas e seu grande discurso representaram, é justo ser reconhecido da mesma forma como um manifesto de liberdade.

É assim que a crítica do humorista britânico ganha vida: considerando uma possibilidade que tragaria toda a liberdade.

Em primeiro momento, a caça contra uma raça e em segundo plano, a extinção de culturas, conhecimento e erudição que não fossem representantes do pensamento único do novo imperador do mundo.

A guetização dos judeus, as zonas de conflito entre o direito e as garantias alheias que eram mitigadas em beneficio dos estabelecidos, e até mesmo, a criação de normas contingentes para a segregação e preceitos que determinem a morte daqueles considerados “bestas na terra”, são interpretados com maestria na obra de Chaplin.

Toda a proposta apresentada no mundo real pela potencia bélica que se erguia perante e contra o mundo refletiu, em seu amago, as idiossincrasias constitutivas da raiva e do ódio.

Em um temperamento de conquista todos discursos oficiais do governante supremo inflama o nacionalismo e o patriotismo em uma deliberada cegueira jamais vista que revela mais que fúria, mas impregna o orgulho em entender uns menos humanos que outros, em uma reestamentalização da própria humanidade.

O discurso final de Chaplin é o ponto alto do filme, sem dúvida alguma.

Hannah ARENDT acusou o homem de ter parado de pensar de uma forma verdadeira e critica, de ter se entregado aos prazeres momentâneos e a algumas boas sensações, satisfazendo-se a si mesmo, de forma acrítica.

Da mesma forma, ADORNO e HORKHEIMER em Mínima Moralia descrevem as atrocidades da guerra e as motivações do homem em “se afundar em uma espécie de barbárie ao invés de entrar em um estado verdadeiramente humano”.

Foram com esses preceitos que a crítica de Chaplin chegou ao mundo do cinema, quando em seu discurso invoca a liberdade e a igualdade entre “negros, judeus, gentios e brancos.”

Na época, Hitler invadira a Polônia e o triunfo do nazismo pela Europa era questão de tempo, o extermínio nos campos de concentração já vigoravam e eram premissas de um terror real que se espalhava pelo mundo.

Foi nesse sentido de sentimentos e angustias que o discurso de Chaplin moveu-se e continua a movimentar-se pelo globo, sendo uma voz a ser seguida.

O nosso modo de vida pode ser livre e belo, mas nós estamos perdidos no caminho”, frase carregada de verdades do nosso próprio tempo, quando “a ganancia envenenou a alma dos homens e barricou o mundo com ódio; ela colocou-nos no caminho da miséria e do derramamento de sangue.

É de BAUMAN em seu estudo “A ética é possível num mundo de consumidores?” todas essas questões que deixaram rastros desde aquela época até os dias em que vivemos.

Chaplin roga para que passemos a usar as virtudes que nos tornam humanos e não apenas as máquinas criadas com grande tecnologia, pois necessita-se nesse mundo de mais “afeição e doçura.”

Ainda conclama a seus seguidores, pois discursa como o ditador naquele momento e naquele momento assim é reconhecido, que não se deixem levar pelas promessas de ditadores que embrutecem a democracia e a dissipam na oportunidade de escravizar pessoas para que cumpram as vontades de seu senhor, o imperador:

Lutemos agora para libertar o mundo, para acabar com as barreiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à intolerância. Lutemos por um mundo de razão, um mundo onde a ciência e o progresso conduzam à felicidade de todos os homens.

E é em nome da democracia, da união e da liberdade da humanidade que finaliza seu grande discurso, uma virtuosa ode à libertação e uma suplica ao homem para que se atente a sua razão e não ao ódio que é vendido por ditadores baratos e desalmados tiranos:

Não se entreguem a esses homens artificiais, homens-máquina, com mentes e corações mecanizados. Vocês não são máquinas. Vocês não são gado. Vocês são Homens. Vocês têm o amor da humanidade nos vossos corações. Vocês não odeiam, apenas odeia quem não é amado. Apenas os não amados e não naturais. Soldados: não lutem pela escravidão, lutem pela liberdade.

E é com a frase de Charles Chaplin que encerro esse texto, em um pedido para todos, soldados nessa luta que todos lutamos, que nos diferencia dos incautos e nos proporciona a voz:

Soldados! Em nome da democracia, vamos todos unir-nos!


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Autor
Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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