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A guerra do tráfico e as lágrimas das mães

A guerra do tráfico e as lágrimas das mães

Inicialmente, esclarecemos que não buscamos chegar a conclusões sobre possíveis soluções aos problemas vividos por milhares de famílias em razão da dependência química e a guerra do tráfico, mas sim trazer reflexões que fogem da obviedade trazida por diversos meios de comunicação.

Não é novidade que o Brasil vive em uma guerra diária contra o tráfico de drogas. Podemos nos referir como guerra, pois há ataque e contra-ataque, por parte do estado, civis, usuários, traficantes.

Sabe-se da mesma forma que um dos principais argumentos a favor da legalização da maconha é o enfraquecimento do tráfico, passando o controle ao estado para que assim exista um controle tanto para as políticas públicas, quanto para os números da criminalidade. No entanto, esta discussão ficará para um outro momento.


Sobre a guerra do tráfico, leia também:


Apenas fizemos referência para demonstrarmos que quando falamos em tráfico de drogas, não estamos nos referindo apenas à marginalidade, mas também envolvemos outras políticas públicas, como a área da saúde e educação, além da família, e das mães.

Ah, as mães! Quantas delas embargam a voz já no telefone, quando pedem por socorro para com o filho que acaba de ser preso. Quantas delas soluçam involuntariamente quando as recepcionamos com um abraço na porta do escritório. Nos olham com os olhos cheios de lágrimas e nos afirmam:

Eu não sei onde eu errei.  Eu sempre dei tudo o que pude.

Deixamos os primeiros segundos, talvez primeiros minutos com o silêncio imperando no ambiente. Elas precisam desse tempo. É claro que, às vezes identificamos com facilidade o erro, às vezes não. Falta ou excesso de amor, atenção, família, oportunidades.

Não é necessário muito tempo para a guerra do tráfico adentrar às residências das famílias. A dependência química do usuário de entorpecentes o faz contrair dívidas, as quais sabidamente não são perdoadas pelos traficantes. De uma forma ou outra há o pagamento. Seja com a vida daquele usuário, seja com a do seu filho, da sua mãe, da sua esposa. Não importa quem seja, o que é necessário é ter aquela dívida quitada, servindo de exemplo para os outros.

Para evitar tais consequências a maioria dos dependentes químicos passa a praticar delitos contra o patrimônio, visando auferir valores que sejam capazes de quitar suas dívidas e manter a sua aquisição de drogas. Iniciam nas suas próprias residências, prosseguem nas ruas e em alguma dessas oportunidades acabam por ser detidos.

Sendo presos, são encaminhados para onde? Isso mesmo, para o sistema carcerário brasileiro, aquele onde o consumo de drogas é desenfreado, contribuindo ainda mais para manutenção do vício daquele indivíduo.

O consumo de drogas permanece ocorrendo, muitas vezes até mesmo em maior quantidade dentro do cárcere. Mas assim como do lado de cá, dentro dos presídios os entorpecentes também têm o seu valor. As mães bancam galerias, com os míseros salários percebidos, por conta das dívidas dos filhos.

Ainda, muitas vezes as dívidas não envolvem apenas o financeiro. Os negócios podem ser feitos envolvendo favores para quando o preso sair dali, já ter sua missão na rua. É uma entrega de drogas, um recebimento de armas, uma vingança. E a pena para a inadimplência é sempre a vida do indivíduo ou de seu ente querido.

As mães são as únicas que jamais abandonam seus filhos. Jamais, mesmo! Observamos que, companheiras e companheiros (claro que há exceções), até visitam o/a preso/a rotineiramente nos primeiros meses. Porém depois de um tempo, as visitas vão ganhando intervalo, até talvez o rompimento afetivo.

Isso quando ele não ocorre imediatamente após a prisão, por diversos motivos. Mas as mães seguem lá, em todos os dias de visitas possíveis, passando por situações que nunca imaginaram passar. Por amor. Pelos filhos. Pelos netos.

São elas que em meio à guerra do tráfico e da vida, aguentam fortes na batalha. Famílias são destruídas diariamente. Os filhos deixam suas mães muito cedo. Pais deixam órfãos seus filhos ainda crianças.

Vidas são ceifadas como se não tivessem qualquer valor. E isso não é só um problema da segurança pública. Também não vai ser a pena de morte e a prisão perpétua que irão mudar a realidade carcerária brasileira.

Outrossim, é evidente que a Polícia jamais vencerá essa guerra. Nos Estados Unidos, por exemplo, há o investimento de US$ 10 bilhões anuais para manter o aparato policial. Ainda assim, o país ostenta o maior número de consumidores de drogas ilícitas no mundo. Por aqui, jornais noticiam que a Favela da Rocinha no Rio de Janeiro movimenta 10 milhões de reais por semana.

Enquanto isso, as mães buscam tratamento para dependência química de seus filhos em estabelecimentos escassos que não oferecem os tratamentos mais eficazes aos acometidos pelo vício de consumo de entorpecentes. Diariamente, vemos que a força bruta policial e o encarceramento em massa de nada tem adiantado para solucionar tal questão.

Então, o estado deve abrir o campo de visão a outros setores, que não exclusivamente a segurança pública, em prol da diminuição, seja da criminalidade de modo geral, seja do tráfico de drogas, pois caso contrário, não veremos os números caindo, uma vez que drogadição é muito mais um problema de saúde do que segurança.

É necessário desde campanhas de conscientização, até tratamentos efetivos. É necessário conscientizar as famílias sobre a importância de acompanharem e conscientizarem seus filhos desde cedo, pois no tráfico sempre tem lugar para mais um soldado do exército ilegal. E que com essa conscientização as lágrimas das mães sejam de orgulho dos seus filhos, jamais de dor ou tristeza ao ver aqueles que tanto amam, morrerem aos poucos.

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Bruna Lima

Especialista em Direito Penal e Processual Penal. Advogada.

Victória Maia

Advogada criminalista atuante no Tribunal do Júri

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