• 16 de dezembro de 2019

Há algo de podre no Brasil

 Há algo de podre no Brasil

Há algo de podre no Brasil

A peça Hamlet, de Shakespeare, tem muito a ensinar ao Brasil. Não pela beleza que é própria a todas as peças do dramaturgo, mas pela trama de traições e de corrupções que conduzem o exercício da política.

Na peça, o rei da Dinamarca é morto, envenenado por seu próprio irmão, que toma para si o trono e a esposa do antigo rei. Hamlet, filho do rei assassinado e sobrinho do rei assassino, descobre a traição de seu tio e se encarrega da vingança que encerra a tragédia: a rainha acaba morta; o rei acaba morto; Hamlet acaba morto.

Há algo de podre no Brasil

O Brasil da realidade se põe em pé de igualdade com a Dinamarca de Hamlet: a política é dominada pela tragédia, coberta por traições e por interesses privados que se sobrepõem aos interesses públicos. As encenações do teatro elisabetano, no qual Shakespeare se insere, dá lugar às encenações fora de qualquer palco oficial: os maiores responsáveis pelo jogo político brasileiro desempenham papéis ao invés de funções públicas, com “máscaras”, discursos planejados e malícias.

Na disputa pelo trono da Dinamarca, o pai de Hamlet é traído e morto por seu tio. No Brasil trágico, tornou-se cena corriqueira a traição, a corrupção e a “morte figurada” de agentes políticos em uma tentativa de perpetuação de privilégios. Se o teatro shakespeariano buscava entreter o seu público, o “teatro” político brasileiro busca a manutenção do poder às custas do público, miserável e pouco entretido.

Hamlet diz:

Isto é um jardim abandonado, cheio de ervas daninhas, invadido só pelo veneno e o espinho – um quintal de aberrações da natureza.

Ao afirmar isso sobre a sua Dinamarca, Hamlet nos fornece um preciso diagnóstico sobre o cenário político brasileiro.

Diante de traições e assassinatos, um personagem da peça afirma que

há algo de podre no reino da Dinamarca.

No Brasil da corrupção e dos acordos de delação também há. Mas, diferentemente da Dinamarca de Hamlet, esperamos que o Brasil não tenha um final assim tão trágico e que a encenação teatral deixe o ambiente público e retorne ao seu local de origem: os palcos.


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Raul Linhares

Advogado criminalista. Mestre em Direito Público (UNISINOS/RS). Professor de Direito Penal.