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Todos os dias podemos assistir por intermédio da imprensa alguém sendo conduzido coercitivamente à justiça, seja para prestar depoimento, seja para ser enclausurado em caráter definitivo ou provisório. O fato é comum: vê-se um indivíduo escoltado por diversos policiais fortemente armados e lançado no banco de trás de uma viatura.

Já foi o tempo em que a figura principal era a do preso, e os comentários giravam em torno dos crimes que supostamente havia praticado. Hoje, a atuação de uma parte considerável dos agentes de polícia tem roubado a cena.

Vestidos com roupas apropriadas para um combate de grandes proporções, esses servidores carregam uma quantidade de armamentos até o limite do suportável para a envergadura humana, independente de qualquer correlação com o grau de periculosidade do cidadão detido ou com a existência de um fundado receio de uma possível evasão no curso da execução do ato processual.

Nos últimos anos alguns integrantes das forças policiais tornaram-se celebridades em razão das operações de grande repercussão na mídia. Houve até mesmo quem virasse marchinha de carnaval, enquanto outros se tornaram símbolos sexuais, ocupando as capas de revistas e programas de televisão condizentes com o nível cultural da grande maioria do povo brasileiro.

Não é por acaso que grande parte dos candidatos a uma vaga na administração pública vem preferindo concorrer na área de segurança pública, tanto no âmbito estadual quanto no federal. Afirmam que nasceram para esse ofício, e que o desejo de empunhar uma arma supera a satisfação financeira e a estabilidade inerentes aos cargos públicos.

Esquecem, apenas, que os verdadeiros policiais não estão desfrutando do glamour da imprensa, mas sim tombando a tiros de fuzil, resignados com a falta de assistência do poder público aos que, prematuramente, se tornam viúvas e órfãos. Essa paixão pela carreira brigadiana, quando vista superficialmente, pode dar a impressão de representar a simples realização de um sonho infantojuvenil. Todavia, o fenômeno merece ser observado com um olhar mais crítico.

Pertencer à polícia representa integrar um dos braços do Estado, concebido, filosoficamente, como ser abstrato criado por gênios para ser administrado por pessoas que dispensam a nobreza intelectual de seus idealizadores. Não possui alma, e, por conseguinte, compaixão ou remorso, mas tem por natureza – ao menos no que diz respeito aos aspectos jurídicos – a incumbência de inibir e investigar as infrações penais, a fim de manter a ordem jurídica estabelecida.

A polícia militar, por exemplo, exceto nos casos de crimes militares, realiza a atividade de policiamento ostensivo, de modo diverso das polícias civil e federal. Estas últimas desempenham a função de polícia judiciária, ou seja, desenvolvem diligências no sentido de apurar a autoria e a materialidade dos ilícitos de origem criminal. Por fim, a polícia rodoviária, classificada doutrinariamente como exemplo de polícia administrativa, é pulverizada pelas rodovias federais com o objetivo de fazer valer a legislação de trânsito, além de reprimir os recorrentes e pendulares crimes que transitam pelas estradas nacionais, como o tráfico em geral, principalmente de drogas, armas e pessoas.

Entretanto, partindo do ponto de vista sociológico, a polícia brasileira se assemelha ao modelo de “polícia política”, no sentido de que sua atuação, historicamente, sempre extrapolou o balizamento constitucional a fim de reproduzir a ideologia da classe dirigente. A manutenção do status quo, dizem os especialistas, é, indubitavelmente, a sua função primordial.

E quando vista por esse prisma, o trabalho que desenvolve no país, desde a formação das primeiras milícias, merece as mais sinceras homenagens, porque somente com muito empenho e competência as forças policiais conseguiriam manter a harmônica convivência entre sócios de clubes de golfe e habitantes de favelas vizinhas, como ocorre em São Conrado, bairro nobre da cidade do Rio de Janeiro. 

Independentemente da consciência que o policial possa ter do seu papel institucional, o certo é que existe uma nítida divisão entre eles. Há quem ingresse nos quadros da polícia pelo fato de o concurso ter sido autorizado no exato momento em que almejava o reingresso no mercado de trabalho.

Esses costumam investir em projetos acadêmicos com bastante sacrifício, no intuito de buscar não apenas uma melhor remuneração, mas também uma rotina que crie menos risco para si e sua família. Normalmente, encaram o ofício do mesmo modo que assimilariam qualquer outra profissão, pois a finalidade maior é prover as necessidades mínimas de seus entes queridos.

Não desejam o combate, mas estão preparados para eventuais enfrentamentos, ainda que possam lhes custar a própria vida. Reconhecidos pela competência no mundo inteiro, são heróis e não sabem disso. Em contrapartida nota-se uma segunda categoria que tem o fetiche de ser confundido com o próprio Estado. E revestindo-se do poder que dele advém, procura a cura para os seus recalques pelo método da transferência. A responsabilidade social e os benefícios decorrentes do cargo público ficam em segundo plano. Não são heróis, e sabem disso.

Na figura de Darth Vader, um dos protagonistas da saga de Star Wars, os psicólogos enxergam o protótipo do burocrata que, à sombra do Estado, faz questão de exibir extremo poder, elegância e virilidade, arrancando do público feminino mais suspiros do que os mocinhos da elite Jedi. Entretanto, observam os estudiosos que, ao lhe retiraram a armadura, um pouco antes de sua morte, é revelado um ser monstruoso, incompleto, digno de pena, cujo único ato heroico merecedor de orgulho foi o de se redimir diante de seu inimigo capital, o próprio filho.

Trágico fim para quem, preocupado em personificar a máquina estatal, se esqueceu de aperfeiçoar a sua condição de homem. A referida obra de George Lucas foi inspirada em diversos contos da Mitologia Grega, principalmente na história de Édipo. Todavia, no que diz respeito a fatos históricos, as bases não se distanciam tanto dos tempos áureos da Filosofia. 

É no Império Romano que vamos encontrar a primeira montagem de um exército de excelência, composto por exímios gladiadores, com o domínio tanto da técnica da luta greco-romana quanto do manuseio de lanças e espadas. Faziam questão de exibir as mais belas armaduras, ícones de poder como a águia e a serpente, incorporando a imagem máxima de masculinidade, embora sabido que a maior parte das fileiras dos soldados era adepta das práticas homossexuais.

Tal modelo foi reproduzido em uma versão mais elaborada pelos soldados do Duce, na Itália fascista, assim como pelas tropas da SA e da SS, comandadas por Röhm e Himmler, respectivamente. Aliás, diga-se de passagem, esta última, cópia da guarda pretoriana de César, acabou incorporando a primeira, pelo fato dos boatos de pederastia terem ultrapassado os muros dos quarteis (A Noite dos Longos Punhais). Mesmo assim, mostravam-se verdadeiros especialistas em provocar a libido do público, na mesma proporção que dizimavam cruelmente os seus opositores.

Anos mais tarde, a indústria do cinema iria explorar com maestria a energia sexual reprimida de toda uma geração com seus heróis do Velho Oeste. Os mocinhos de Hollywood, como John Waine, Gary Cooper, Yul Brinner, Tony Curtis, Clint Eastwood, entre outros, por muitos anos representaram os sedutores assassinos de índios e ladrões de diligências. Até Elvis Presley e Sammy Davis Jr, por alguns momentos, tiveram que substituir seus dotes musicais pela arte da manipular o gatilho com extrema destreza. Com o coldre arriado e o olhar apertado, sem contar o cigarro no canto da boca, ilustravam todos os jornais e vendiam muito mais discos do que poderiam se insistissem na desgastada imagem do bom moço. 

Dos seriados que surgiram na década de 70, muitos tinham como protagonista o galã armado. Impossível estimar quantas vezes os policiais rodoviários Jon Baker e Poncherello, do seriado CHIPIs, viraram pôster nas revistas especializadas em artigos para meninas na fase da puberdade, assim como Luca, o menino prodígio da S.W.A.T. Por sua vez, os canastrões de Baretta, Kojak e Hawaii Five-0 atendiam muito mais à luxúria das donas de casa, além de servirem de referência aos homens que desejavam ter a mesma sorte com as mulheres. 

Atualmente, apesar dos estereótipos do macho man terem virado espécies em extinção, não se pode dizer o mesmo em relação às modernas pistolas, ainda quando ostentadas por andróginos ou até mesmo por damas de traços finos, como a glamorosa Peta Wilson (atriz canadense que representou a espiã da série Nikita) e a sexy simbol Lili Simmons, a Rebecca do aclamado Banshee. No Brasil, atentos à dinâmica das relações sociais, os roteiristas começaram a explorar esse filão. Como prova desse fato, basta observarmos que as personagens mais homenageadas das telenovelas são aquelas que não temem partir para as vias de fato e, esporadicamente, trocam alguns tiros com bandidos.

Fica a cargo dos psicanalistas a análise do inconsciente daqueles que sentem necessidade de expor ao público pistolas e fuzis, bem como de outros indivíduos que se prestam a servirem de plateia. Há quem sustente a tese freudiana da utilização desses símbolos fálicos como extensão do pênis, ou, para as mulheres, a inveja dele.

Alguns se valem de imponentes carros de luxo, outros preferem o ronco ensurdecedor dos canos de descarga de suas máquinas, mas nunca faltará quem prefira exibir canos longos de ferro preto ou prateado. As redes sociais estão repletas de usuários dessa estirpe. Centenas de fotos são publicadas diariamente por policiais que posam ao estilo dos grandes conquistadores, exibindo, indevidamente, as armas das corporações as quais pertencem.

Pior ainda quando agem como caçadores de gente, tirando fotografias ao lado de presos recém-capturados na ânsia de expô-los como troféus, escarnecendo de toda a legislação vigente e do mundo civilizado. Se os bárbaros Átila e Aníbal pudessem assistir a tudo lá de cima (ou lá de baixo), estariam morrendo pela segunda vez em razão da inveja dos atuais recursos multimídia que permitem essa viril e fajuta autopromoção.

O que se mostra mais grave é a ausência de um código de conduta que sirva de base para fiscalização e repressão desse tipo de postura inconveniente por parte de determinados grupos minoritários inseridos nos órgãos de polícia. As respectivas corregedorias não podem negligenciar quanto ao fiel cumprimento das normas éticas.

Os abusos, que posteriormente vão se materializar em condutas mais graves, germinam no solo fértil, sistematicamente adubado pelas manifestações de ódio. Uma instituição destinada à defesa do cidadão precisa persistir na imagem de disseminadora da paz, e não da guerra; da vida, ao invés da morte; do equilíbrio, em vez da soberba; em suma, da defesa intransigente da dignidade humana.

Aqueles sobre os quais recaiam suspeitas de terem infringido a legislação penal, gostem ou não, deverão ser submetidos ao rigor da lei. Não atendendo às intimações exaradas pelas autoridades, os investigados e acusados serão conduzidos coercitivamente. E quando preenchidos os pressupostos e requisitos que autorizam a prisão cautelar, outra sorte não terão.

Porém, deve a polícia, assim como os demais servidores que eventualmente precisem dispor da força física, empregar somente os meios necessários para a consecução dos seus atos, sem qualquer artifício extraordinário capaz de transformar a miséria de alguns em espetáculo de outros. 

A histeria exibicionista de uma pequena porcentagem de servidores públicos por intermédio da internet e demais meios de comunicação apenas atemoriza o cidadão pacífico e amplia o banco de dados do crime organizado, que a tudo assiste da mesma forma como agem os serviços de inteligência atrelados ao governo.

Devemos esperar que as inferioridades afloradas por aqueles que não aprenderam a honrar as instituições voltadas para a segurança pública venham estimular ainda mais as justas homenagens que a sociedade tanto deve aos policiais de verdade.


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Autor
Professor de Direito Penal e Processual Penal. Advogado.
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