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Herança de sangue e a violência da máfia mexicana

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máfia

Herança de Sangue (2016), com Mel Gibson e direção de Jean-François Richet, demonstra mais uma vez a crueldade de uma máfia considerada violenta ao extremo. Em comparação com as máfias japonesas e italianas, a maneira dos cartéis mexicanos de fustigar os inimigos e de preenchê-los com medo, difere em alguns pontos.

É intenção da máfia mexicana destruir o inimigo, devorá-lo. Não oculta cadáveres, mas faz questão de mostrar aos inimigos o que sobrou deles. O corpo demolido é o epíteto do medo que deve ser calcado nos corações dos opositores.

A máfia mexicana teve seu início no interior dos muros das grandes prisões norte americanas nos anos 50.

Apesar de seu nome, seu nascimento ocorreu nos Estados Unidos, com a missão única de proteção aos internos que eram trancados nas inúmeras prisões. No intento de tutelar seus iguais, o grupo foi se desenvolvendo na Califórnia, sendo capaz de unir os semelhantes em um ambiente de crueldade e esquecimento.

Na época, as prisões norte americanas estavam abarrotadas de latinos e estrangeiros, em uma eterna batalha yankee contra a temida invasão dos imigrantes, tanto legal, quanto ilegal.

A invulgar diferença entre a máfia mexicana das outras diversas espalhadas mundo afora, foi o seu local de nascimento, onde formou-se o embrião de um agregado de pessoas que intentavam se levantar contra (e também dominar) a violência de um ambiente hostil.

De certo modo, imigrantes e negros eram a maioria nos presídios americanos, sendo a maior fatia desse universo carcerário dominado pelos estrangeiros; e por sua célula de proteção.

Los Angeles crescia, sendo há anos a cidade mais populosa da Califórnia, recheada de uma multicultura marcante, de diferenças e igualdades abismais. Todavia, o terreno era profícuo em oportunidades, algo que a nova máfia mexicana não deixou escapar.

O crescimento do narcotráfico na América Latina (1970-80) seria reparado pelos controladores da família fora do sistema prisional. Com o intuito de abastecer seus soldados dentro das prisões, enormes quantias de drogas, entre elas, a heroína, cocaína e maconha, eram carregadas pela força da máfia para dentro dos muros.

Acontece que não ficou somente por aí, quando a nova máfia iniciou seus trabalhos dentro do Estado do México, repassando e controlando a venda de drogas para os traficantes da Califórnia e de toda a região, que viria a ser um mercado altamente contagiante e lucrativo. Além disso, havia o bônus de estar livre da caça das autoridades policiais norte americanas, operando agora em território mexicano.

Novas células passaram a controlar os serviços, tanto nos EUA, no Arizona, quanto dentro do México, em Juarez, Tijuana e Sinaloa.

Em Herança de Sangue, casas eram alugadas pela máfia e cedidas para famílias com dificuldades financeiras em continuar dentro dos EUA.Essas famílias recebiam auxilio financeiro de todas as formas, com uma condição peculiar: seus imóveis serviriam como base para que, de vez em quando, drogas ou dinheiro fossem escondidos.

Os inquilinos fariam “vistas grossas” para essa situação, seguindo o rumo de suas vidas em uma ignorância quase absoluta. Entretanto, qualquer ato de traição ou não aceito pela máfia desencadeado pelas famílias moradoras do imóvel, a vingança seria pedagogia e viria com muita força e violência.

Em Scarface, a saga de Tony Montana, interpretada por Al Pacino; revelou a violência  peculiar de uma quadrilha colombiana, retratada nos inquéritos reais da CIA em diversos casos envolvendo os cartéis. O mesmo tipo de violência passou a ser dominada pela máfia mexicana, por seus inúmeros cartéis, como o Zetas, Arellano Félix, entre outros.

O grupo mafioso que começou como uma proteção para seus iguais dentro dos presídios, abarrotados de grupos antagônicos, cresceu em um ambiente forjado na violência e no desprezo do humano, levando essa atitude como regra contra qualquer inimigo nas ruas das cidades, ao se envolver com o tráfico de drogas e outras atividades ilegais.

Autor
Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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