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A história de Tommy: traumas, violência e exclusão

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A história de Tommy: traumas, violência e exclusão

A história de Tommy retrata a realidade de muitas almas carentes, sôfregos pela indistinção e violência que reina nas realizações do homem que por si é imperfeito, portanto, falho também em seus atos.

Tommy foi uma opera/rock composta pela banda britânica The Who, lançada em 1969 em um álbum duplo e, após o sucesso, filmado e dirigido por Ken Russel em 1975.

Para explicar a trajetória peculiar de Tommy, é essencial tomar por base a perspectiva original sobre a opera lançada pela banda, que variou o aspecto musical do próprio rock ao criar um teatro sobre as suas próprias estruturas.

Durante a Primeira Guerra Mundial, o conhecido Capitão Walker desaparece em combate; logo após receber notícias que seria pai de um menino.

Sua esposa, com o tempo, casa-se com outro e dá à luz a Tommy. Ocorre que ninguém esperava que o Capitão estivesse vivo e que voltaria para casa. Ao fazê-lo, é assassinado pelo novo companheiro de sua esposa tendo o pequeno Tommy presenciado toda a cena violenta.

Tanto sua mãe quanto padrasto forçam a criança de apenas sete anos de idade a acreditar que tudo não passou de um pesadelo, repetindo ao menor que ele não viu e não ouviu nada, bem como, nunca mais falaria no assunto, com ninguém.

E é dessa forma que Tommy desenvolve a surdez, a cegueira e a mudez.

Fechando-se em seu mundo obscuro e silencioso, o menor passa a ser visto como um outsider, alguém que não se espera que cumpra sua parte no contrato social, aquele que deve estar afastado e segregado.

Assim, sem contato nenhum com a realidade, começa sua aventura nos sombrios confins de sua alma, que era preenchido com mais dor e medo. Em suas visitas aos seus primos, Tommy, pelo trauma e por sua diferença, era atormentado pelo seu sádico primo Kevin. E quando seus pais saiam, deixavam o menor com seu tio Ernie, que o molestava sexualmente.

As asperezas da vida de Tommy desenvolviam-se enquanto ele próprio fechava-se cada vez mais em sua concha.

Seus pais, querendo ver sua cura, fizeram várias tentativas extravagantes. Era a época da descoberta dos sentidos, os hippies e os movimentos de liberdade, o crescente uso de alucinógenos e as informações que chegavam com maior velocidade de todo o canto do mundo.

Era época de mudanças, e Tommy não poderia ficar de fora.

Alguns experimentos curiosos foram usados na adolescência do menino, como as drogas psicodélicas, as noites com prostitutas, curandeiras excêntricas e até mesmo inúmeros médicos convencionais.

Mas nada foi capaz de trazer Tommy de volta, desde o fatídico dia que presenciou a maior violência contra seu pai, e que passou a ser parte de outras violências, dessa vez como vítima que se escondia e não gritava por socorro; mas sôfrego em seu mundo criado por seus próprios fantasmas.

Como tempo, o agora jovem iniciou uma busca por um pouco de personalidade, encontrando-se em uma casa de diversão, no jogo conhecido como Pinbal. Tratava-se de um jogo de fliperama considerado além de sua época, devido à dificuldade de conseguir os pontos necessários para a vitória.

Mas aquele menino cego, surdo e mudo impressionava.

Aquele menino massacrado pela violência, acometido pelo mal da tortura e do estupro de seu corpo, sensibilizava e maravilhava a todos.

O grande campeão de Pinbal da cidade ouviu sobre o adolescente, e resolveu confirmar. Nunca ele próprio tinha jogado assim. O menino era o rei do jogo; mas como poderia, sendo cego, mudo e surdo? Todos seus movimentos eram realizados com destreza, jogando por intuição. Num gesto de honradez, o campeão de pinbal entrega seu troféu a Tommy. Seus discípulos, pois já tinha vários fãs entre os jovens, somente o conduziam até a mesa do jogo; e lá a magica acontecia.

Com o passar do tempo, o menino torna-se mais e mais introspectivo, olhando apenas para um espelho, presente de seu último médico. Sua mãe ficava cada vez mais descontente e vê-lo parado frente ao espelho por dias a fio lhe dava imenso desprazer.

Será que enxerga a si mesmo?

Será que vê algo?

Num relance, a mulher quebra o espelho e esse ato faz Tommy renascer para a vida, entendendo tudo ao seu redor, enxergando o que antes se escondia, sentindo a vida que antes não vivia.

Passa, então, a contar sua história e o que enxergava quando lhe faltava a visão, tentando trazer à luz pessoas que sofrem como ele próprio havia sofrido.

Inúmeros seguidores começaram a acompanhar Tommy querendo entender o que queria dizer o ex rapaz cego quando referia-se como a “Luz do Mundo”. Com o passar do tempo, encontraram em Tommy incongruências, pois o que relatava de fato era apenas aquilo que teria sofrido quando em sua época de letargia.

Abandonado e deixado a só, o novo Messias retorna ao seu estado de reflexão e introspecção, de volta ao antigo espelho, voltando a ser aquele outsider, esquecido e diferente.

A história de Tommy não é única. Acontece mais do que se pode imaginar. Crianças que crescem em áreas de instabilidades consideradas locais de risco, famílias que se despedaçam por inúmeros motivos entre eles, o ciúme e a violência, fazem com que seus menores tornem-se seguidores dos próprios medos.

Dessa forma, ao acompanhar o desenvolvimento de Tommy, nota-se a involução que o persegue, mesmo quando retoma os sentidos e passa a viver uma vida normal. Nem mesmo após anos aquele menino esqueceu os terríveis atos de violência que foram acometidos contra seu corpo, como o estupro e a hostilidade.

Traumas causados na época do desenvolvimento podem permanecer e moldar a personalidade do sujeito; fazendo com que exista para ele uma realidade alternativa a qual consegue suportar. Essa fuga não é uma atitude volitiva, mas sim uma forma natural de autopreservação do organismo em aflição.

A marca que permanece e que fica registrada possui uma força subjetiva, podendo ser interpretada pela pessoa pelas mais variadas formas.

Assim sendo, inimputável desde o início, vítima desde o princípio; excluído de todas as formas de redenção e de possibilidades que se pode imaginar.

Autor
Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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