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Homem versus natureza, canibalismo: a tragédia da vida real que inspirou Moby Dick

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Homem versus natureza, canibalismo: a tragédia da vida real que inspirou Moby Dick

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Muito antes de O caso dos exploradores da caverna, de Lon L. Fuller, publicado em 1949, a temática do canibalismo em caso de estado de necessidade já havia sido abordado, de maneira sutilíssima, em outro clássico da literatura: Moby Dick, de Herman Melville, publicado em 1851.

A colossal obra de mais de 600 páginas é narrada em 1ª pessoa por Ismael, um marinheiro que, sem qualquer perspectiva de emprego ou dinheiro, decide se aventurar no negócio mais em voga na época: os navios baleeiros. Em Nantucket, cidadezinha dos E.U.A. famosa por ser o porto de onde partiam os navios baleeiros, ele chega ao navio Pequod, comandado pelo enigmático capitão Acab.

Acab tinha a fama de homem amaldiçoado: todos sabiam que havia perdido uma perna numa luta contra um cachalote:

(…) Nem sobre a perda de sua perna durante a última viagem, cumprindo a profecia? (…) Mas, apesar de tudo, talvez lhes tenham contado alguma coisa sobre a perna e como ele a perdeu; sim, não receio dizer que ouviram falar nisso. Oh, sim, disso quase todo mundo sabe – quero dizer, sabem que tem uma perna só e que um cachalote lhe arrancou a outra.” (MELVILLE, 1851, pg. 125).

Tão fortemente me impressionou o aspecto severo de Acab, bem como a lívida marca que o estriava, que nos primeiros instantes mal percebi que não pouco dessa dominadora severidade era devida à bárbara perna branca na qual em parte ele se firmava.” (Idem, pg. 157).

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Mesmo cientes do passado de Acab, os marinheiros do Pequod não imaginavam que estavam sendo arrastados na busca de vingança de seu capitão:

Há tempos e ocasiões esquisitos nesse negócio estranhamente embaralhado chamado vida; durante eles a pessoa toma o universo inteiro como vasta pilhéria virtual, conquanto apenas obscuramente lhe perceba a graça, e suspeite muito que a pilhéria esteja sendo feita á sua própria custa, e de mais ninguém. (…). Não existe nada como os perigos da pesca da baleia para provocar essa espécie, livre e fácil, de amável filosofia de bandido; e de acordo com ela eu via agora toda essa viagem do ‘Pequod’ e o grande Cachalote Branco, seu objetivo.” (Idem, pg. 277-8).

Moby Dick, o Cachalote Branco, era uma lenda que circulava entre os marinheiros. No entanto, poucas pessoas de carne e osso o haviam visto de verdade:

Não admira, pois, que, ganhando consistência com o mero trânsito pelas mais incultas regiões marinhas, os rumores, inflados pelo vento, sobre o Cachalote Branco tenham absorvido afinal todas as espécies de mórbidos palpites e de mal formadas e embrionárias referências a intervenções sobrenaturais, palpites esses que finalmente envolveram Moby Dick em novos terrores, (…). (Idem, pg. 222).

Atacado pela baleia no passado, Acab enlouquecera e queria sua vingança a qualquer custo. Depois de alguns meses de tranquilidade, Acab revela aos marinheiros do Pequod sua verdadeira motivação:

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– É uma baleia branca, estou dizendo – recomeçou Acab, enquanto largava o malho. – Uma baleia branca. Abri bem os olhos, homens; aguçai a vista para perceber água branca; se virdes uma simples bolha, anunciai-a.

(…).

– Capitão Acab – observou Tashtego -, essa baleia branca deve ser a mesma que alguns chamam de Moby Dick.

– Moby Dick? – vociferou Acab. – Conheces então a baleia branca, Tash?” (Idem, pg. 202).

Quando se dá conta da loucura de Acab, Ismael começa a temer por sua vida. Moby Dick se torna então, também para Ismael, o demônio branco dos mares, o símbolo de todos os horrores. A cor branca do cachalote lhe deixa a impressão de um fantasma, de um ser sobrenatural.

O Pequod segue viagem. Em uma famosa taberna de marinheiros, a “Estalagem de ouro”, os homens ouvem mais narrativas de Moby Dick. O marinheiro que conta a aventura jura que Moby Dick abocanhou um homem e o levou ao fundo do mar. O marinheiro pede uma Bíblia para firmar seu juramento:

Deixai-me tirar o chapéu. Agora, reverendo padre, um pouco mais para a luz, e queira segurar o santo livro diante de mim, para que eu possa tocá-lo. – Valham-me céus, por minha honra a história que vos contei é verdadeira, senhores, em substância e em seus pontos principais. Sei que é verdadeira; aconteceu neste mundo; estive no navio; conheci a tripulação; vi Steelkilt e conversei com ele depois da morte de Radney. (Idem, pg. 319).

O Pequod volta ao mar; encontram um navio de nome “Jeroboão”. Um bote com um marinheiro faz a comunicação com Acab. Gabriel, um homem com leve fanatismo religioso, conta que encontraram Moby Dick e um homem morreu, afundando no mar. Gabriel blasfema contra Acab:

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– Pobre homem ! pobre homem! E é da mulher dele – suspirou Mayhew; – mas podeis dar-ma.

– Não, guarda-a tu mesmo – gritou Gabriel para Acab; – em breve seguirás o mesmo caminho que ele. (Idem, pg. 381).

A religiosidade era um aspecto importante da sociedade norte-americana retratada por Melville; mesmo naquele universo rude e selvagem da caça a baleias, havia sempre o medo do sobrenatural, e a sensação de maldição começa a tomar conta do navio e seus homens. Havia ainda, o mito da “profecia” que perseguia o enlouquecido Acab.

Depois de passar por Londres, o Pequod chega ao seu destino: o oceano Pacífico. O Pequod encontra o navio Raquel. Um dos homens do Raquel narra desesperado o encontro com Moby Dick e o desaparecimento de seu filho em um bote:

Mas, por sua rota vacilante e por seu caminho tortuoso e angustiado, via-se claramente que aquele navio, a chorar tantos borrifos, permanecia inconsolável. Era Raquel a chorar por seus filhos, porque eles já não existiam. (Idem, pg. 617).

Finalmente, o Pequod encontra Moby Dick:

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(…) ele ergueu no ar um grito de gaivota: – Lá esguicha ele! Lá esguicha ele! Uma corcova como uma colina de neve! É Moby Dick!

Animados com o grito, que parecia erguido simultaneamente pelos três vigias, os homens do convés correram para o cordame para espiar a famosa baleia que estavam perseguindo havia tanto tempo. (Idem, pg. 632).

No primeiro dia de caça, Acab e alguns homens vão de bote ao encontro do cachalote. Moby Dick ataca o bote e o afunda; o pior não acontece porque o navio forma uma barreira entre o bote e a baleia. O animal foge ileso, enquanto o navio recolhe os homens.

No segundo dia de caça, o mesmo. A baleia afunda o bote de Acab e seus homens. Um marinheiro parse, do qual sequer Acab sabia o nome, cai na água e é dado como desaparecido.

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Acab sabe que pode morrer, mas prossegue em sua jornada no terceiro dia:

– Senhor?

– Pela terceira vez o navio de minha alma se move nesta viagem, Starbuck.

– Sim, senhor, tu quiseste que assim fosse.

– Alguns navios zarpam de seus portos e nunca mais voltam, Starbuck!

– É verdade, senhor, a mais triste verdade.

– Alguns homens morrem na vazante; outros no ponto mais baixo da maré; outros no auge da cheia; e eu me sinto agora como uma vaga que é toda uma crista encrespada. Estou velho; aperta as minhas mãos, homem.

(…)

– Oh, meu comandante, meu comandante! – nobre coração… não vás, não vás! (…). (Idem, pg. 656).

– Oh, Acab – exclamou Starbuck-, não é muito tarde, mesmo hoje, o terceiro dia, para desistir. Vê! Moby Dick não te procura. És tu, tu, que loucamente o buscas! (Idem, pg. 659).

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O terceiro dia é o dia fatal. Numa caça suicida, a baleia chega a ser arpoada. Tubarões nadam ao redor do bote de Acab e seus homens.

A baleia, com sua força descomunal, com poucos golpes de cabeça afunda tanto o bote quanto o navio:

Desforra, célere vingança, eterna malignidade mostravam-se em todo o seu aspecto, e, a despeito de tudo o que o homem mortal pudesse fazer em contrário, o sólido contraforte branco de sua fronte chocou-se contra a proa do navio, a estibordo, enquanto os homens e as madeiras cambaleavam. (idem, pg. 663).

O Pequod afunda, seus homens perecem. Apenas Ismael sobrevive:

Agora círculos concêntricos colhiam a própria embarcação solitária e toda a sua maruja, e cada remo flutuante, e cada cabo de lança, e fibra, animada ou inanimada; tudo, girando e regirando num vórtice, até a menor lasca do ‘Pequod’, afundou-se, desaparecendo de vista.” (Idem, pg. 665).

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Ismael, o único sobrevivente, o narrador, sobreviveu agarrando-se a um caixão, e foi recolhido pelo “Raquel”, que continuava buscando seus marinheiros perdidos.

Observa-se que Melville, propositalmente, centrou sua épica narração na luta entre Acab e Moby Dick, deixando Ismael como o único sobrevivente e não abordando a questão do canibalismo.

Na narrativa que inspirou o escritor, o navio “Essex”, originário de Nantucket, foi atacado por um grande cachalote branco no Pacífico, proximidade das Ilhas Galápagos. O navio afundou. Os sobreviventes lotaram dois botes. Porém, faltaram comida e água aos sobreviventes.

Os homens encontraram uma ilha rochosa no caminho. Alguns decidem ficar, mesmo a ilha sendo deserta e com poucas possibilidades de serem encontrados. A maioria dos homens voltou aos botes. Sem comida e água pura, quatro homens morreram de desidratação e fome. Seus restos foram devorados pelos companheiros. Mas a fome continuava. Os sobreviventes, então, fizeram um sorteio para decidir quem seria morto.

Noventa e três dias depois do ataque, os sobreviventes foram resgatados. Os homens que ficaram na ilha também foram encontrados. Dos vinte homens que estavam no Essex, somente oito sobreviveram.

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A história se espalhou, apesar do silêncio e da relutância dos sobreviventes em contar o que havia ocorrido.

Nos E.U.A. há dois livros definitivos sobre a tragédia do Essex: In the heart of the sea (no coração do mar, em tradução livre), de Nathaniel Philbrick, e The loss of the ship Essex: sunk by a whale (a perda do navio Essex: afundado por uma baleia, em tradução livre), com relatos originais dos sobreviventes.

O filme “No coração do mar”, disponível no serviço de streaming Netflix, narra os fatos com razoável fidelidade, sem deixar de lado a polêmica questão do canibalismo, que Melville, por um motivo ou por outro, optou por deixar de fora de sua obra-prima.


REFERÊNCIAS

BARTABURU, Xavier. O DIA DA CAÇA: A VERDADEIRA HISTÓRIA DE MOBY DICK. Publicada na revista OS CAMINHOS DA TERRA em agosto de 2000. Edição 100. Ano 9. Nº 8. Editora Abril.

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MELVILLE, Herman. MOBY DICK. Publicado pela 1ª vez em 1851. Círculo do Livro. São Paulo: 1994.

NO CORAÇÃO DO MAR. 2015. Título original: In the heart of the sea. Diretor: Ron Howard. Roteirista: Charles Leavitt. Elenco: Chris Hemsworth, Cillian Murphy, Brendan Gleeson.

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