• 24 de setembro de 2020

Homem versus natureza, canibalismo: a tragédia da vida real que inspirou Moby Dick

 Homem versus natureza, canibalismo: a tragédia da vida real que inspirou Moby Dick

Homem versus natureza, canibalismo: a tragédia da vida real que inspirou Moby Dick

Muito antes de O caso dos exploradores da caverna, de Lon L. Fuller, publicado em 1949, a temática do canibalismo em caso de estado de necessidade já havia sido abordado, de maneira sutilíssima, em outro clássico da literatura: Moby Dick, de Herman Melville, publicado em 1851.

A colossal obra de mais de 600 páginas é narrada em 1ª pessoa por Ismael, um marinheiro que, sem qualquer perspectiva de emprego ou dinheiro, decide se aventurar no negócio mais em voga na época: os navios baleeiros. Em Nantucket, cidadezinha dos E.U.A. famosa por ser o porto de onde partiam os navios baleeiros, ele chega ao navio Pequod, comandado pelo enigmático capitão Acab.

Acab tinha a fama de homem amaldiçoado: todos sabiam que havia perdido uma perna numa luta contra um cachalote:

(…) Nem sobre a perda de sua perna durante a última viagem, cumprindo a profecia? (…) Mas, apesar de tudo, talvez lhes tenham contado alguma coisa sobre a perna e como ele a perdeu; sim, não receio dizer que ouviram falar nisso. Oh, sim, disso quase todo mundo sabe – quero dizer, sabem que tem uma perna só e que um cachalote lhe arrancou a outra.” (MELVILLE, 1851, pg. 125).

Tão fortemente me impressionou o aspecto severo de Acab, bem como a lívida marca que o estriava, que nos primeiros instantes mal percebi que não pouco dessa dominadora severidade era devida à bárbara perna branca na qual em parte ele se firmava.” (Idem, pg. 157).

Mesmo cientes do passado de Acab, os marinheiros do Pequod não imaginavam que estavam sendo arrastados na busca de vingança de seu capitão:

Há tempos e ocasiões esquisitos nesse negócio estranhamente embaralhado chamado vida; durante eles a pessoa toma o universo inteiro como vasta pilhéria virtual, conquanto apenas obscuramente lhe perceba a graça, e suspeite muito que a pilhéria esteja sendo feita á sua própria custa, e de mais ninguém. (…). Não existe nada como os perigos da pesca da baleia para provocar essa espécie, livre e fácil, de amável filosofia de bandido; e de acordo com ela eu via agora toda essa viagem do ‘Pequod’ e o grande Cachalote Branco, seu objetivo.” (Idem, pg. 277-8).

Moby Dick, o Cachalote Branco, era uma lenda que circulava entre os marinheiros. No entanto, poucas pessoas de carne e osso o haviam visto de verdade:

Não admira, pois, que, ganhando consistência com o mero trânsito pelas mais incultas regiões marinhas, os rumores, inflados pelo vento, sobre o Cachalote Branco tenham absorvido afinal todas as espécies de mórbidos palpites e de mal formadas e embrionárias referências a intervenções sobrenaturais, palpites esses que finalmente envolveram Moby Dick em novos terrores, (…). (Idem, pg. 222).

Atacado pela baleia no passado, Acab enlouquecera e queria sua vingança a qualquer custo. Depois de alguns meses de tranquilidade, Acab revela aos marinheiros do Pequod sua verdadeira motivação:

– É uma baleia branca, estou dizendo – recomeçou Acab, enquanto largava o malho. – Uma baleia branca. Abri bem os olhos, homens; aguçai a vista para perceber água branca; se virdes uma simples bolha, anunciai-a.

(…).

– Capitão Acab – observou Tashtego -, essa baleia branca deve ser a mesma que alguns chamam de Moby Dick.

– Moby Dick? – vociferou Acab. – Conheces então a baleia branca, Tash?” (Idem, pg. 202).

Quando se dá conta da loucura de Acab, Ismael começa a temer por sua vida. Moby Dick se torna então, também para Ismael, o demônio branco dos mares, o símbolo de todos os horrores. A cor branca do cachalote lhe deixa a impressão de um fantasma, de um ser sobrenatural.

O Pequod segue viagem. Em uma famosa taberna de marinheiros, a “Estalagem de ouro”, os homens ouvem mais narrativas de Moby Dick. O marinheiro que conta a aventura jura que Moby Dick abocanhou um homem e o levou ao fundo do mar. O marinheiro pede uma Bíblia para firmar seu juramento:

Deixai-me tirar o chapéu. Agora, reverendo padre, um pouco mais para a luz, e queira segurar o santo livro diante de mim, para que eu possa tocá-lo. – Valham-me céus, por minha honra a história que vos contei é verdadeira, senhores, em substância e em seus pontos principais. Sei que é verdadeira; aconteceu neste mundo; estive no navio; conheci a tripulação; vi Steelkilt e conversei com ele depois da morte de Radney. (Idem, pg. 319).

O Pequod volta ao mar; encontram um navio de nome “Jeroboão”. Um bote com um marinheiro faz a comunicação com Acab. Gabriel, um homem com leve fanatismo religioso, conta que encontraram Moby Dick e um homem morreu, afundando no mar. Gabriel blasfema contra Acab:

– Pobre homem ! pobre homem! E é da mulher dele – suspirou Mayhew; – mas podeis dar-ma.

– Não, guarda-a tu mesmo – gritou Gabriel para Acab; – em breve seguirás o mesmo caminho que ele. (Idem, pg. 381).

A religiosidade era um aspecto importante da sociedade norte-americana retratada por Melville; mesmo naquele universo rude e selvagem da caça a baleias, havia sempre o medo do sobrenatural, e a sensação de maldição começa a tomar conta do navio e seus homens. Havia ainda, o mito da “profecia” que perseguia o enlouquecido Acab.

Depois de passar por Londres, o Pequod chega ao seu destino: o oceano Pacífico. O Pequod encontra o navio Raquel. Um dos homens do Raquel narra desesperado o encontro com Moby Dick e o desaparecimento de seu filho em um bote:

Mas, por sua rota vacilante e por seu caminho tortuoso e angustiado, via-se claramente que aquele navio, a chorar tantos borrifos, permanecia inconsolável. Era Raquel a chorar por seus filhos, porque eles já não existiam. (Idem, pg. 617).

Finalmente, o Pequod encontra Moby Dick:

(…) ele ergueu no ar um grito de gaivota: – Lá esguicha ele! Lá esguicha ele! Uma corcova como uma colina de neve! É Moby Dick!

Animados com o grito, que parecia erguido simultaneamente pelos três vigias, os homens do convés correram para o cordame para espiar a famosa baleia que estavam perseguindo havia tanto tempo. (Idem, pg. 632).

No primeiro dia de caça, Acab e alguns homens vão de bote ao encontro do cachalote. Moby Dick ataca o bote e o afunda; o pior não acontece porque o navio forma uma barreira entre o bote e a baleia. O animal foge ileso, enquanto o navio recolhe os homens.

No segundo dia de caça, o mesmo. A baleia afunda o bote de Acab e seus homens. Um marinheiro parse, do qual sequer Acab sabia o nome, cai na água e é dado como desaparecido.

Acab sabe que pode morrer, mas prossegue em sua jornada no terceiro dia:

– Senhor?

– Pela terceira vez o navio de minha alma se move nesta viagem, Starbuck.

– Sim, senhor, tu quiseste que assim fosse.

– Alguns navios zarpam de seus portos e nunca mais voltam, Starbuck!

– É verdade, senhor, a mais triste verdade.

– Alguns homens morrem na vazante; outros no ponto mais baixo da maré; outros no auge da cheia; e eu me sinto agora como uma vaga que é toda uma crista encrespada. Estou velho; aperta as minhas mãos, homem.

(…)

– Oh, meu comandante, meu comandante! – nobre coração… não vás, não vás! (…). (Idem, pg. 656).

– Oh, Acab – exclamou Starbuck-, não é muito tarde, mesmo hoje, o terceiro dia, para desistir. Vê! Moby Dick não te procura. És tu, tu, que loucamente o buscas! (Idem, pg. 659).

O terceiro dia é o dia fatal. Numa caça suicida, a baleia chega a ser arpoada. Tubarões nadam ao redor do bote de Acab e seus homens.

A baleia, com sua força descomunal, com poucos golpes de cabeça afunda tanto o bote quanto o navio:

Desforra, célere vingança, eterna malignidade mostravam-se em todo o seu aspecto, e, a despeito de tudo o que o homem mortal pudesse fazer em contrário, o sólido contraforte branco de sua fronte chocou-se contra a proa do navio, a estibordo, enquanto os homens e as madeiras cambaleavam. (idem, pg. 663).

O Pequod afunda, seus homens perecem. Apenas Ismael sobrevive:

Agora círculos concêntricos colhiam a própria embarcação solitária e toda a sua maruja, e cada remo flutuante, e cada cabo de lança, e fibra, animada ou inanimada; tudo, girando e regirando num vórtice, até a menor lasca do ‘Pequod’, afundou-se, desaparecendo de vista.” (Idem, pg. 665).

Ismael, o único sobrevivente, o narrador, sobreviveu agarrando-se a um caixão, e foi recolhido pelo “Raquel”, que continuava buscando seus marinheiros perdidos.

Observa-se que Melville, propositalmente, centrou sua épica narração na luta entre Acab e Moby Dick, deixando Ismael como o único sobrevivente e não abordando a questão do canibalismo.

Na narrativa que inspirou o escritor, o navio “Essex”, originário de Nantucket, foi atacado por um grande cachalote branco no Pacífico, proximidade das Ilhas Galápagos. O navio afundou. Os sobreviventes lotaram dois botes. Porém, faltaram comida e água aos sobreviventes.

Os homens encontraram uma ilha rochosa no caminho. Alguns decidem ficar, mesmo a ilha sendo deserta e com poucas possibilidades de serem encontrados. A maioria dos homens voltou aos botes. Sem comida e água pura, quatro homens morreram de desidratação e fome. Seus restos foram devorados pelos companheiros. Mas a fome continuava. Os sobreviventes, então, fizeram um sorteio para decidir quem seria morto.

Noventa e três dias depois do ataque, os sobreviventes foram resgatados. Os homens que ficaram na ilha também foram encontrados. Dos vinte homens que estavam no Essex, somente oito sobreviveram.

A história se espalhou, apesar do silêncio e da relutância dos sobreviventes em contar o que havia ocorrido.

Nos E.U.A. há dois livros definitivos sobre a tragédia do Essex: In the heart of the sea (no coração do mar, em tradução livre), de Nathaniel Philbrick, e The loss of the ship Essex: sunk by a whale (a perda do navio Essex: afundado por uma baleia, em tradução livre), com relatos originais dos sobreviventes.

O filme “No coração do mar”, disponível no serviço de streaming Netflix, narra os fatos com razoável fidelidade, sem deixar de lado a polêmica questão do canibalismo, que Melville, por um motivo ou por outro, optou por deixar de fora de sua obra-prima.


REFERÊNCIAS

BARTABURU, Xavier. O DIA DA CAÇA: A VERDADEIRA HISTÓRIA DE MOBY DICK. Publicada na revista OS CAMINHOS DA TERRA em agosto de 2000. Edição 100. Ano 9. Nº 8. Editora Abril.

MELVILLE, Herman. MOBY DICK. Publicado pela 1ª vez em 1851. Círculo do Livro. São Paulo: 1994.

NO CORAÇÃO DO MAR. 2015. Título original: In the heart of the sea. Diretor: Ron Howard. Roteirista: Charles Leavitt. Elenco: Chris Hemsworth, Cillian Murphy, Brendan Gleeson.

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Maria Carolina de Jesus Ramos

Especialista em Ciências Penais. Advogada.