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Impressoras 3D: o futuro da criminalidade?

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Por Bernardo de Azevedo e Souza


Em 8 setembro de 1966 foi exibida pela primeira vez nos Estados Unidos uma das franquias de entretenimento mais famosas da atualidade: Star Trek (Jornada nas Estrelas). Os efeitos especiais à época não possuíam a qualidade observada nos filmes hollywoodianos de hoje, mas foram suficientes para atingir um público fiel. Imaginar a vida no espaço era algo recorrente para milhares de norte-americanos, já que o homem ainda nem havia pousado na lua. A série permitia que a imersão espacial de certo modo se concretizasse. Star Trek “decolou”.

O sucesso atingido foi tamanho que os produtores não hesitaram em desenvolver uma gama de spin offs, tais como brinquedos, jogos eletrônicos, romances e atrações temáticas. Foram criadas também novas franquias para dar continuidade às sagas e perpetuar a narrativa da série: Star Trek: The Animated Series, Star Trek: The Next Generation, Star Trek: Deep Space Nine, Star Trek: Voyager e Star Trek: Enterprise.

Em um dos episódios iniciais da derivação Star Trek: Voyager (1995), o telespectador acaba conhecendo uma interessante máquina denominada Replicator (Replicador). Através de um comando de voz, o dispositivo tem a aptidão de criar objetos físicos com facilidade, combinando diversos materiais, como plástico, metal, madeira, cerâmica e concreto (assista aqui). O aparelho é introduzido novamente em Star Trek: Enterprise (2001), com um modelo diverso, mas com mesma a capacidade de idealizar itens solicitados pelos protagonistas (assista aqui).

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Muitos fãs da série possivelmente imaginaram, ao assistir os referidos episódios, como suas vidas seriam mais fáceis se tivessem um utensílio como aquele à disposição. Quem não gostaria de ter um replicador doméstico? Criar uma infinidade de itens sem o menor esforço, a partir de um comando de voz, era de fato uma ideia sedutora.

Mas o que causa maior perplexidade com esta breve referência à série Star Trek é o fato de que aquilo que há cerca de 50 anos era apenas produto de ficção científica, atualmente pode perfeitamente se concretizar. Refiro-me aqui especialmente às impressoras 3D domésticas, incríveis máquinas que costumavam custar dezenas de milhares de dólares e que hoje podem ser adquiridas em lojas de materiais nos Estados Unidos por menos de US$ 999.

Por meio de uma destas máquinas é possível construir objetos com uma precisão impressionante, camada por camada. As novas técnicas de manufatura digital estão permitindo o desenvolvimento de robôs, lentes, câmeras e peças de aeronaves. A fabricação digital pode ser usada inclusive para imprimir casas inteiras, com fiação elétrica, partes de concreto e encanamento.

A própria NASA chegou a adquirir uma impressora 3D para equipar a Estação Espacial Internacional (assista aqui), para nunca mais colocar a vida dos astronautas em risco por ausência de peças, como ocorreu na Apollo 13.  E não é só: impressoras de biofabricação vêm possibilitando a criação até mesmo de tecidos e órgãos humanos. Os dispositivos são capazes de construir vasos sanguíneos, rins, orelhas, corações. Ao invés de tinta são utilizadas células (assista o vídeo aqui). Seria o fim da morosa lista de transplante de órgãos?

As impressoras 3D prenunciam uma era em que o analógico e o digital se mesclam e se tornam indistinguíveis um do outro. A nova tecnologia talvez possa até provocar um impacto positivo no meio ambiente, mas ao que tudo indica ocasionará a desestabilização da manufatura, do varejo e da geopolítica. O mercado de impressoras, segundo analistas, crescerá 500% até 2018, gerando uma receita de US$ 16,2 bilhões. O questionamento que fica, ao observarmos estes números, é somente um: até onde a tecnologia pode nos levar?

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Dada a complexidade das transformações da sociedade contemporânea, a pergunta serve mais para reflexão do que efetivamente para encontrarmos uma acertada resposta. Mas não se pode negar que a manufatura digital, a exemplo da robótica, poderá trazer inúmeros riscos, fomentando o surgimento de delitos até então inimagináveis.

Na era digital em que vivemos, os criminosos cada vez mais desenvolvem métodos inteligentes e inovadores para atingir seus objetivos, incorporando as mais recentes inovações emergentes em seu modus operandi. Nesse sentido, Marc GOODMAN (2015), fundador do Future Crimes Institute – instituição que se dedica a reunir especialistas para discutir as implicações, tanto negativas quanto positivas, das novas tecnologias –, assinala que as impressoras 3D estarão relacionadas a uma enorme parcela de delitos praticados num futuro não tão distante.

Os infratores começarão a utilizar a impressão tridimensional para o roubo de propriedade intelectual. Bolsas Gucci e Relógios Rolex serão submetidos facilmente a digitalização de altíssima resolução. As cópias confeccionadas serão visualmente tão perfeitas quanto os produtos originais. O grupo Gartner estima que a impressão 3D vai resultar na perda de pelo menos US$100 bilhões anualmente em propriedade intelectual em todo o globo (veja aqui).

Assaltantes poderão empregar a manufatura digital para invadir domicílios. Seria possível, a partir de uma única foto de alta resolução das chaves da residência da potencial vítima, imprimir uma réplica exatamente igual. Com isso, muito em breve o art. 150 do Código Penal receberá nova redação para abarcar tal possibilidade. E o que dizer, então, do tráfico de drogas? Se já existem dispositivos com capacidade de imprimir analgésicos e outros medicamentos sob demanda (veja aqui), não tardará para que traficantes repliquem metanfetamina, crack e codeína, alavancando a mercancia em nível mundial.

Finalmente, uma das maiores controvérsias relacionadas às impressoras 3D envolve a capacidade de produzir armas de fogo. Um ex-estudante de direito chamado Cody Wilson projetou, em maio de 2013, a Liberator: a primeira arma totalmente impressa em três dimensões, desenvolvida para disparar balas calibre .380 padrão. O criador inclusive a disponibilizou para download, colocando o artefato à disposição de todos (veja aqui).

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Dois repórteres investigativos israelenses demonstraram que nem mesmo os detectores de metais tradicionais são capazes de identificar as armas impressas em 3D: entraram por duas oportunidades em um prédio do Governo, de alta segurança, com os artefatos sem quaisquer empecilhos (veja aqui). É dizer: atualmente qualquer pessoa munida de um computador, uma impressora 3D e uma conexão à internet pode, em qualquer lugar do mundo, criar uma arma de fogo e adentrar qualquer estabelecimento. E à medida que as máquinas ficam mais avançadas, estarão aptas a fabricar armas ainda maiores, incluindo lança-mísseis de ombro e enormes robôs militares.

Em suma, estamos avançando a toda velocidade no mercado de impressoras 3D e, ao mesmo tempo em que todo esse progresso ocorre, dedicamos pouquíssimos recursos para nos antecipar em relação aos riscos resultantes destas tecnologias, que podem se replicar descontroladamente. A ameaça é realmente séria e está mais do que na hora de nos prepararmos. Criminosos e terroristas não hesitarão em fazer uso destes avanços científicos.

O fictício Replicador de Star Trek, até então limitado ao campo da imaginação, já paira em nosso horizonte.


REFERÊNCIAS

GOODMAN, Marc. Future crimes: tudo está conectado, todos somos vulneráveis e o que podemos fazer sobre isso. Trad. Gerson Yamagami. São Paulo: HSM Editora, 2015.

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