• 10 de agosto de 2020

Incidente em Antares

 Incidente em Antares

Incidente em Antares

Incidente em Antares, último romance a ser publicado por Érico Veríssimo, é uma obra que mistura elementos do realismo fantástico com um tom profundamente político.

A estória se passa na fictícia Antares, no Rio Grande do Sul. A formação da cidade traz a rivalidade política de duas famílias: os Campolargos e os Vacarianos. 

Essa rivalidade por vezes descambava na violência extrema. Numa das cenas mais dolorosas e chocantes do livro, um jovem Vacariano é violentado por outro homem diante da cidade inteira, por ordem do chefe Campolargo. A vítima se afoga no rio diante dos olhares assustados da população.

Com o passar dos anos, a rivalidade das famílias se ameniza, mas nem tanto: 

Sem recursos humanos para enfrentar seus inimigos crônicos, os Vacarianos agora competiam com eles em outros terrenos que não o da política. Todos os fins de ano, quando se tratava de eleger uma nova diretoria para o Clube Comercial, a mais fina sociedade local, havia sempre uma chapa apresentada pelos Campolargos, a oficial, e outra pelos Vacarianos. O pleito era precedido de propaganda, cabala, pressões de toda sorte, e até de suborno. (VERÍSSIMO, 1978, pg. 33). 

Teoricamente, as famílias teriam opiniões politicas diferentes. Na prática, farinha do mesmo saco, interessadas apenas em se manter no poder:

Quando, anos mais tarde, a Princesa Isabel assinou o decreto em que se abolia a escravatura do Brasil, Antão Vacariano disse a seus familiares que esse ‘ato de loucura’ ia precipitar o fim do Império. Foi com relutância que, pelo menos formalmente, liberou seus escravos. Ora, Benjamim Campolargo, que havia alguns anos fundara o Grêmio Republicano de Antares, exultou com a notícia da Abolição, e mais tarde soltou vivas e foguetes ao saber que a República fora finalmente proclamada no Brasil. (Idem, pg. 21).

Antares é, então, uma típica cidade brasileira do interior: atrasada, com uma elite rural ignorante e racista. Pouco antes do “incidente”, uma notícia agita a cidade: um grupo de estudantes universitários, liderados pelo professor Martim Francisco Terra, depois de alguns meses de estudo in loco lança o livro “Anatomia de uma cidade gaúcha de fronteira”. Ao se verem como realmente são, os líderes políticos da cidade entram em polvorosa:

 – Essa obra também afirma – disse Lucas Faia – que não temos arte popular.

– O que é verdade… – murmurou o juiz de direito.

(…)

O presidente do Clube Comercial pediu a atenção dos presentes para o capítulo dedicado à vida social de Antares ou, melhor, de Ribeira.

– Afirmam esses senhores que o nosso clube é um ‘reduto fechado’ do patriciado rural e da alta burguesia. Chegam a insinuar que somos racistas, que não aceitamos como sócios pessoas de cor nem judeus.

– O que é verdade – replicou Mendes. (idem, pg. 139).

Alguns aspectos do livro se encaixam perfeitamente nos dias atuais:

– E agora… quais são os seus planos?

– Talvez emigrar…

– Como? Está falando sério? – Martim Francisco sacudiu a cabeça numa lenta afirmativa. – Mas por quê?

– Você leu com atenção o Ato Institucional do novo governo?

– Sim… quero dizer, com relativa atenção.

 – E as notícias de hoje nos jornais?

– Por alto. Mas… emigrar por quê?

– Já li a inscrição na parede. Estamos (e os próprios responsáveis pelo novo governo não negam) num regime autoritário. (…).

– Aaah! Acho que o senhor está dramatizando demais a situação. (Idem, pg. 144).

Na opinião na matriarca conservadora Quitéria Campolargo:

E no dia em que a gente abrir bem os olhos isto aqui já virou república soviética, o senhor não acha … ou também é da esquerda?

(…) 

– … e que a nossa guerra não era só política como religiosa e moral. Precisávamos combater também a dissolução de costumes. (Idem, pgs. 175 e 176). 

O “incidente” do título se refere à volta à vida de sete defuntos, na data de 13 de dezembro de 1963. A população, cansada dos desmandos de seus chefes políticos, entra em greve. Os coveiros do cemitério aderem ao movimento grevista, impedindo o sepultamento de sete defuntos: Quitéria Campolargo, matriarca da tradicional família. Quitéria ainda em vida se tornara amiga do Coronel Tibério Vacariano, deixando a rivalidade das famílias para trás.

Barcelona, sapateiro de convicções anarquistas. Menandro Olinda, um músico que se suicidara após uma vida triste e solitária. Cícero Branco, advogado famoso que conhece os podres de todos os políticos poderosos. João Paz, jovem morto depois de torturado pelo delegado local, por suspeita de envolvimento com grupos de esquerda. Pudim de Cachaça, bêbado que morre envenenado pela própria esposa. Erotildes, uma prostituta que morre de tísica depois de uma vida miserável.

Impedidos de serem sepultados, privados do descanso eterno, os sete caixões ficam do lado de fora do cemitério. Então, o surreal acontece: os mortos voltam à vida:

Agora, estendida no seu esquife, Dona Quitéria está de olhos abertos e parece contemplar um pedaço do firmamento de madrugada. (…) Depois, agarrando ambas as bordas do caixão, soergue-se devagarinho, permanece um instante sentada, olhando em torno (…).

(…)

– Posso fazer uma pergunta, doutor?

– Ora essa! Pode.

– Estamos no céu ou no inferno?

– Nem num lugar nem noutro. Estamos todos do lado de fora do cemitério de Antares, insepultos. (Idem, pgs. 224-233). 

Depois de muita discussão, os mortos resolvem ir até a praça da cidade, exigir que sejam sepultados a fim de alcançarem o merecido descanso. Cícero é escolhido como representante dos mortos em suas reivindicações. 

Claro, o encontro dos vivos e mortos causa pânico na população:

Essa marcha dos mortos rumo do centro de Antares seria descrita mais tarde em prosa barroca por Lucas Faia:

‘Foi na última sexta-feira 13 deste cálido e, já agora, trágico dezembro. 

(…)

Testemunhas visuais (e olfativas!) do fato são unânimes em afirmar que os defuntos se moviam de maneira rígida, como bonecos de mola a que alguém – Deus ou o diabo?- tivesse dado corda.

(…)

Ao recobrar a voz, o padre acercou-se do microfone, ergueu os braços e bradou:  – Sete mortos acabam de ressuscitar e sair de seus caixões. É o Juízo Final! Deus Todo Poderoso vai começar o julgamento dos vivos e dos mortos. Arrependei-vos de vossos pecados enquanto é tempo! (…). (Idem, pgs. 249-253).

Indignada por não ter sido enterrada com suas joias, como havia deixado expresso em testamento, Quitéria Campolargo retorna à sua residência a fim de reivindicar seus direitos e encontra seus herdeiros brigando por seus bens:

Quitéria Campolargo aparece subitamente à porta da sala e diz:

– Não se incomodem, meninos e meninas. Só vim buscar as minhas joias. 

A filha mais moça solta um grito. A mais velha cai de joelhos e brada:

– A mamãe foi enterrada viva! (Idem, pg. 259).

Ao ver com tristeza que, pouco depois de seu velório, seus familiares só se importavam com a divisão de bens, a matriarca despeja as suas joias no vaso sanitário, pondo fim à discussão.

Cícero Branco, o infame advogado, retorna à sua casa e já encontra a sua viúva com outro homem. Barcelona vai à delegacia acertar contas com o corrupto e violento delegado Inocêncio Pigarço. A notícia vai se espalhando e chega até o indolente prefeito Vivaldino Brazão:

Vivaldino deixa cair o fone. Recua uns passos, sem tirar os olhos da ‘aparição’. seus lábios tremem quando ele balbucia:

 – Cícero … mas você … você está morto!

– Não nego. E daí?

– Co… como se explica?…

– Não se explica.

– Que é que você quer?

– Eu e mais seis defuntos, que represento como advogado, queremos ser sepultados, como é de nosso direito. (…). (Idem, pg. 269).

Erotildes, a prostituta, visita sua antiga colega de profissão Rosinha, com quem dividia um barraco. A mulher narra ter sido atacada por um grupo:

Rosinha baixa a cabeça e conta:

– Ontem de noite uns meninos me agarraram à força e me levaram pra um terreno baldio. Uns cinco ou seis…

(…)

– Conhecidos?

– Alguns acho que conheço de vista. Meninos de boas famílias.

 – Às vezes são os piores.” (Idem, pgs. 275-6).

João pede ao bondoso padre Pedro Paulo para intermediar um encontro com sua esposa Rita. A moça relata a tortura a que foi submetida pela polícia, mesmo grávida, ao marido defunto.

Cícero dá ao prefeito um prazo de quatro horas para o enterro dos insepultos. O prefeito não atende à reivindicação: pensando na reeleição, ele não quer entrar em conflito nem com os grevistas nem com os patrões. Então, os mortos em praça pública começam a revelar segredos e escândalos das autoridades locais. A princípio amedrontados, populares começam a sair de suas casas e se aglomeram na praça a fim de apreciar o espetáculo. Um fotógrafo de rua tira uma fotografia dos sete mortos reunidos no coreto da praça; ao revelar a foto, o coreto aparece vazio.

Vivaldino, o prefeito, pede mais uma vez aos mortos aguardarem o fim da greve para terem sua reivindicação atendida. Cícero exige o sepultamento imediato:

– Senhor prefeito municipal – diz o Dr. Cícero Branco em voz alta e clara. – Povo de Antares! Em nome de meus constituintes e no meu próprio, recuso, por absurdo, o pedido do Major Vivaldino. Exigimos nosso sepultamento imediato. Se não formos atendidos, continuaremos apodrecendo aqui no coração da cidade!

Estrugem aplausos e gritos das muitas árvores em torno do coreto. ‘Bravo! Apoiado! Duro com eles, Dr. Cícero! (Idem, pg. 322).

Diante da balbúrdia, o promotor local improvisa um júri, como se os sete mortos fossem criminosos em julgamento. Cícero, então, começa a revelar os podres da alta sociedade local:

 – Hipócritas! – exclama. – Impostores! Simuladores! Eis o que sois…

(…)

Faça-se justiça ao nosso truculento Coronel Vacariano, pois ele ostenta com naturalidade e coragem cívica o manto antipático do poder discricionário, que herdou de seus ancestrais, dessa estirpe de bandidos, abigeatários e contrabandistas históricos…

(…)

O Delegado Inocêncio Pigarço… Esse sádico esconde o seu uniforme negro de oficial da SS de Hitler debaixo do camisolão (…). (Idem, pgs. 327-8).

Cícero continua com suas acusações. Acusa o prefeito Vivaldino e o Coronel Tibério de peculato e enriquecimento ilícito, e diz que ele próprio fazia parte do esquema. O povo vibra com o escândalo. Cícero dá detalhes de uma licitação fraudulenta que encheu os bolsos dele próprio e de seus companheiros. Diz que gravou fitas com provas das falcatruas cometidas e dá o endereço de onde as provas estão. 

Barcelona, o sapateiro anarquista, revela os escândalos de adultérios de que tinha conhecimento. Eroltides, a prostituta, conta sua vida de abusos e miséria. Pudim de Cachaça, assassinado pela esposa, pede ao juiz e ao promotor que não a condenem, pois ele era um péssimo marido que a espancava, levando-a a esse ato desesperado. João Paz, torturado e morto pela polícia, revela a todos os horrores a que foi submetido pelo delegado e seus capangas. 

Quitéria é a única a não fazer acusações. Declara suas mágoas com a família, que estava se digladiando pela herança, sem nem fingir tristeza por sua morte.

Findo o espetáculo, os mortos se sentam no coreto, à espera da sentença. Os populares se dispersam. 

Enquanto as autoridades andam em círculos, sem saber como dar fim à crise e aos escândalos revelados, começa a “revolta dos ratos.” Atraídos pelos defuntos, ratos começa a infestar a cidade, trazendo ainda mais pânico à população. Começa um clima de apocalipse. Urubus voam ao redor da praça. Espalha-se o rumor de que os mortos haviam trazido a peste negra a Antares. Jornalistas de outras cidades começam a chegar. 

Inocêncio, o delegado, explica à esposa como funciona a polícia:

Não nego que usamos um certo tipo de violência. Não há polícia no mundo inteiro que não empregue esses métodos, umas mais, outras menos… (Idem, pg. 413).

Pedro Paulo, um jovem padre mais próximo dos miseráveis do que dos poderosos, aproveita a distração das autoridades com a crise para ajudar a viúva de João Paz a fugir atravessando a fronteira, promessa feita ao defunto.

Um grupo se reúne a fim de atirar nos defuntos. Desrespeitados, os mortos retornam a seus caixões, em frente ao cemitério. Então, às nove da manhã de 14 de dezembro de 1963, os mortos são finalmente enterrados pelas ordens das autoridades municipais.

Passada a insólita crise, quase tudo volta ao normal. Os descendentes de Quitéria arrebentaram o cano do banheiro e conseguem recuperar algumas das joias. Os lixeiros retiram os urubus e ratos mortos da praça. Os jornalistas de Porto Alegre chegam tarde: os defuntos já haviam sido enterrados, as autoridades negam tudo, as provas do acontecimento bizarro já haviam desaparecido, ficando o dito pelo não dito. Alguns populares contam aos jornalistas a estória completa, mas não existem provas. Mesmo assim, a imprensa nacional e até a internacional publicam a estória, restando às autoridades negar os fatos.


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Maria Carolina de Jesus Ramos

Especialista em Ciências Penais. Advogada.