• 24 de setembro de 2020

A influência de Machado de Assis nos estudos sociais de exclusão

 A influência de Machado de Assis nos estudos sociais de exclusão

A influência de Machado de Assis nos estudos sociais de exclusão

Machado de Assis não precisa de apresentações. O cofundador da Academia Brasileira de Letras, nascido no morro do Livramento no Rio de Janeiro do século XIX, transformou a intelectualidade de sua época consumindo conhecimento advindo das relações que teve com os mais diversos personagens de seu tempo.

Basta dizer que, negro e pobre, filho de escravos alforriados, advindos da ilha de Açores, projetou-se em meio à sociedade burguesa ascendente de forma peculiar: criticando-a e analisando suas relações de poder e seus aspectos culturais mais essenciais.

Em toda sua obra se destaca a ponderação bem-humorada que identifica a escrita machadiana por meio das interpretações que fazia de uma sociedade magnata que vivia nas cidades. Assis mudou-se para o centro da capital, pois era lá que o Império acontecia e prevalecia.

Nesse meado de interação, conseguiu prever o ufanismo rachado que se desenvolvia em conjunto às mudanças políticas de sua época, estruturando seu pensamento no pulsar dos personagens criados, dando vida às mazelas sociais na identidade de empresários, aristocratas, funcionários e escravos.

Retratava de maneira abismal as diferenças entre funcionários e patrões da mesma forma que representava a figura do escravo frente ao seu senhor; um animal de estimação que muitas vezes o fazia rir.

Sua interpretação arlequinada de certos personagens importantes na sociedade produziu uma severa análise que reprovava o trato entre várias pessoas de determinadas classes, numa crítica “bem-humorada” que o homem de seu tempo não entendeu.

Conseguia, com muito humor e simpatia, desaprovar toda a sociedade, suas alianças e seus conflitos e nunca ter sido interpretado como um revolucionário de fato.

Em o Alienista condenou a dominação carismática advinda do conhecimento e da tecnologia perante uma população ignorante que nada questionava, até o momento em que a liberdade de cada um tornou-se passível de ser tomada.

A citação “Bastilha da razão humana” prevaleceu como epítome de toda a estrutura carcerária que hoje se definha Brasil afora, ao mesmo tempo que se expande.

Em Esaú e Jacó traz a mudança do velho para o novo, a República passava a “imperar” com uma Constituição que para o autor serviria apenas para empoleirar palavras “para inglês ver.” Em uma de suas passagens mais brilhantes:

Nada se mudaria; o regime, sim, era possível, mas também se muda de roupa sem troca de pele. No sábado, ou quando muito na segunda feira, tudo voltaria ao que era na véspera, menos a constituição.

As políticas de dominação de uma sociedade paternalista são ponto nevrálgico quando o autor, com a sua pitada de realismo usual, bate de frente com as matrizes que estruturam a cultura da época.

Em sua famosa obra Memórias póstumas de Brás Cubas, conseguiu expor uma rude característica do homem de sua época: ele trocaria qualquer coisa, até mesmo sua felicidade e alegria futura, mas nunca a sua posição.

No entanto, tudo é uma questão que revela os dominadores e os dominados. Desde as mulheres, homens em posição social inferior, moradores de comunidades que viriam a ser as favelas, escravos e amantes, tudo é relação de poder.

Nesse sentido, parte desde a negra ama de leite que amamenta as crianças dos brancos entregando-lhes sua juventude e liberdade até o mais elevado status de igualdade na sociedade; revelado por Brás Cubas: o homem somente é igual quando morre.

De toda forma, Machado de Assis conseguiu enxergar uma sociedade que quanto mais caminhava para o futuro, mais se afundava nos erros do passado. O medo do negro, agora liberto, era pujante em suas entrelinhas, como aquele que deveria ser evitado a todo o custo.

A ideologia paternalista gerava cada vez mais involuções em um País que trilhava um novo modelo de governo; segundo Assis, tais convicções elaboravam cada vez mais preconceitos e que estes seriam, a curto prazo, uma das piores mazelas do Brasil.

A crítica ao paternalismo e suas ideias retrogradas feitas de maneira hilária, mas também provocativa, em conjunto ao uso da filosofia em sua obra (principalmente após Memórias póstumas de Brás Cubas) rendeu-lhe a fama de grande filósofo nacional. Todavia, sua visão social e das transformações que ocorriam na sociedade de seu tempo pode ser vista facilmente em Esaú e Jacó, Quincas Borba, Dom Casmurro e Casa Velha.

A exclusão, notável e crescente na sociedade controlada por poucos homens abastados, denotava uma hierarquia social assimétrica e supressora, incluindo locais de segurança onde o “homem normal e de bem” poderia andar sem ser incomodado.

O contraponto entre a abolição dos escravos e a segurança era entender o seu lugar na hegemonia e no controle como intocável dom; recebido por uma dádiva que incutia soberanias culturais, sempre transformadas por Machado de Assis como o dote ou a herança que os coronéis e os sinhozinhos deixavam aos seus filhos.

A segurança era saber que os negros e mulheres tinham seu lugar reservado: aos primeiros os guetos em cantos isolados no Rio de Janeiro (ver O Cortiço, de Aluísio Azevedo) e às segundas saber que estavam em casa ou em reuniões com as amigas.

E a crítica que acompanha em Assis era colocar o escravo e negro na posição de portador do medo do branco intolerante, misógino e preconceituoso e a mulher como a forte heroína detentora dos valores que carecem aos homens, sempre em busca de mais poder.


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Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.