• 22 de setembro de 2020

Ivan Milat, o assassino de mochileiros

 Ivan Milat, o assassino de mochileiros

“Este lugar é como um caixão de cimento” (Ivan Milat, ao escrever um carta na prisão)

A PERSONALIDADE

Nascido em 27 de dezembro de 1944, na cidade de Guildford, Austrália, Ivan Robert Marko Milat era integrante de uma extensa família de imigrantes da Croácia. Por ter crescido, assim como seus 13 irmãos, em remotas áreas rurais, não existem muitas informações confiáveis acerca de seus hábitos e comportamentos durante a infância.

Porém, é sabido que Ivan não gozava de boa reputação nos arredores de onde morava, e a polícia frequentemente “visitava” a fazenda da família. Por volta dos 17 anos de idade, Ivan Milat já havia praticado alguns delitos, como roubos e furtos de veículos, tendo enfrentado diversos problemas legais em decorrência de suas atitudes.

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Ivan Milat em sua juventude

Em 1971, aos 27 anos, Ivan foi acusado de estuprar duas mulheres a quem forneceu carona de Liverpool à Melbourne. As mulheres disseram em seus depoimentos que ele estava armado com uma faca e carregava cordas em seu carro, mas foi absolvido por ausência de provas.

Ivan casou-se com Karen Duck, em 1984, mas se separaram em 1987. O divórcio ocorreu em 1989.

OS CRIMES

No fim da década de 80, a exótica Austrália passou a ser um dos destinos turísticos favoritos para jovens de várias partes do mundo, que procuravam novas experiências através de viagens pouco programadas. Eram os chamados “mochileiros”. Muitos deles possuíam o costume de pedir caronas nas estradas, com o intuito de reduzir despesas com transporte.

Joanne Walters, uma jovem proveniente do País de Gales, viajava pela Austrália, além de trabalhar como babá em uma casa de família em Sydney, para custear seus gastos, assim como sua amiga Caroline Clarke.

Em abril de 1992, as duas amigas realizaram uma viagem para explorar novos locais, mas desapareceram. A família para quem Joanne trabalhava se preocupou e entrou em contato com os pais da jovem, que imediatamente viajaram à Austrália, onde participaram de diversos programas de TV, com o intuito de que Joanne fosse localizada.

Em 19 de setembro, dois homens encontraram na Floresta Estadual de Belanglo (a 120 quilômetros de Sidney), restos mortais humanos em uma cova improvisada.

A polícia deu início às investigações e constatou que aqueles eram os corpos das duas jovens que haviam desaparecido meses antes. O corpo de Joanne havia sido perfurado 14 vezes por um faca, e Caroline havia sido atingida na região do crânio por 10 vezes, com uma arma calibre .22.

Diversos registros de mochileiros desaparecidos começaram a surgir, mas a polícia negava a existência de uma possível ligação entre os homicídios e os desaparecimentos.

Durante as investigações foram listados moradores que frequentavam a região da floresta. Logo surgiu a informação proveniente da perícia dos projéteis, de que a arma utilizada no homicídio de Caroline foi um Rifle Ruger 10/22.

Porém, registros de importação mostraram que existiam mais de 50 mil rifles Ruger 10/22 na Austrália.

Em 5 outubro de 1993, um homem colhendo lenha na Floresta Estadual de Belenglo encontrou um crânio humano. A polícia foi chamada, e logo constataram a existência de dois corpos em uma cova improvisada muito semelhante à utilizada nos homicídios de Caroline e Joanne.

As vítimas foram identificadas como James Harold Gibson e Deborah Phyllis Everist, dois amigos australianos vistos pela última vez em 30 de dezembro de 1989, quando saíram de Sydney com o intuito de pegar caronas até a região sul do país. Os corpos possuíam diversas perfurações realizadas por uma grande faca de caça.

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As vítimas de Ivan Milat

Em 1º de novembro de 1993, mais de 300 policiais realizavam buscas na Floresta Estadual de Belanglo, quando encontraram o corpo de Simone Schimidl, uma mochileira alemã que havia desaparecido em janeiro de 1991, quando pegava caronas na região de Sydney. Simone também possuía evidências de ter tido sua vida ceifada através de perfurações de uma enorme faca de caça.

Três dias após a descoberta do corpo de Simone, foram encontradas mais duas covas improvisadas, com os corpos de dois mochileiros desaparecidos, os alemães Anja Habschied e Gabor Neugebaner. Anja foi decapitada (mas sua cabeça não estava no local do crime), enquanto Gabor Neugebaner foi atingido por seis vezes em sua cabeça, com balas calibre .22.

A essa altura, a nação australiana estava chocada com os acontecimentos. Todos os jornais estampavam notícias dos homicídios praticados pelo “Assassino de Mochileiros”. Milhares de informações aportavam nas delegacias, informando o desaparecimento de mais mochileiros e informações de possíveis suspeitos.

Em novas buscas pela floresta, foram encontrados vestígios de um acampamento, com cartuchos que aparentemente eram provenientes de um rifle Ruger 10/22. Exames posteriores constataram através das estrias dos cartuchos, que eles haviam sido disparados da mesma arma utilizada nos homicídios dos mochileiros.

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Diversas pessoas estiveram envolvidas nas buscas

Informações continuavam chegando às delegacias, até que a polícia detectou algo comum em várias delas. Diversas denúncias citavam a família Milat, como sendo formada por pessoas estranhas, fanáticos por armas e que praticavam caça nas florestas da região.

Em uma investigação minuciosa, descobriram que Ivan Milat havia sido processado por estuprar duas mulheres a quem forneceu carona, em 1971. Apesar de não ter sido condenado, isso chamou a atenção das autoridades, que checando seus registros de trabalho perceberam que Ivan teve folga em cada um dos dias que os mochileiros encontrados na Floresta de Belanglo desapareceram.

Ivan Milat havia se tornado o principal suspeito dos homicídios.

A PRISÃO

A polícia continuava investigando Milat, quando receberam um telefonema da Inglaterra. Um homem chamado Paul Onions, que soube dos acontecimentos através do noticiário internacional, alegou que havia realizado uma viagem como mochileiro à Austrália em 1990.

Paul informou que aceitou a carona de um homem que se identificou como Bill, nos arredores de Sydney, e após conversar um pouco, o motorista parou o carro e sacou uma arma de fogo, além de uma fronha e uma corda que estavam debaixo do banco do veículo. Paul desceu do carro e correu pela rodovia, quando foi derrubado pelo motorista e entraram em luta corporal.

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O assassino de mochileiros é preso pelas autoridades policias

Após conseguir chamar a atenção de uma motorista que trafegava pela estrada, Paul pediu ajuda à mulher, entrando em seu carro e escapando do ataque. Paul reportou o acontecido à polícia australiana, que tratou o caso como um assalto frustrado.

Paul retornou à Austrália e identificou Ivan Milat como o homem que tentou sequestrá-lo.

Em 22 de maio de 1994, munidos com mandados de busca a polícia encontrou na residência de Ivan um cartão postal para um homem chamado Bill (nome utilizado na tentativa de homicídio de Paul Onions), um manual com instruções de utilização de um Rifle Ruger, juntamente com um saco plástico que continha componentes de um Rifle Ruger 10/22.

Os exames periciais constataram que as marcas dos projéteis encontrados nos locais do crime eram compatíveis com as ranhuras dos componentes de rifle encontrados na casa de Ivan.

Mais tarde, itens pessoais como roupas, mochilas e câmeras fotográficas (identificados através de fotos fornecidas pelas famílias) que pertenciam às vítimas dos homicídios foram encontrados nas proximidades da casa de Ivan e de seus familiares.

Milat foi preso, mas negou envolvimento nos crimes.

O JULGAMENTO

O julgamento de Milat teve início em março de 1996, e teve duração de 12 semanas. Ivan negou a autoria, alegando que alguém tentou incriminá-lo.

Em 27 de julho de 1996, Ivan Milat condenado à prisão perpétua pelos sete homicídios, além de uma pena de 6 anos de prisão pelo ataque à Paul Onions.

O número de vítimas de Ivan Milat pode ter sido muito maior, tendo em vista o alto número de mochileiros desaparecidos nos arredores de Sydney no fim da década de 80 e início da década de 90.

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Ivan Milat condenado à prisão perpétua pelos sete homicídios

Em 8 de novembro de 2004, Ivan concedeu uma entrevista à um programa de TV, onde mais uma vez negou envolvimento nos delitos à ele imputados.

Matthew Milat, sobrinho de Ivan, matou seu amigo de infância David Auchterloine em 2010, na mesma Floresta Estadual de Belenglo, sendo condenado à 43 anos de prisão, e concedendo a seguinte declaração durante seu julgamento:

Você me conhece, você conhece minha família. Você conhece meu sobrenome. Eu faço o que minha família faz!

Eduardo Dutra Barbosa

Advogado (MG)