• 16 de dezembro de 2019

James Brussel, o “Sherlock Holmes do divã”

 James Brussel, o “Sherlock Holmes do divã”

Por Claudius Viana


Em franco e cordial contraponto com a série de artigos sobre serial killers iniciada pelos colegas Bernardo de Azevedo e Souza e Henrique Saibro (veja aqui), apresentarei a vida e a obra do médico James Brussel, psiquiatra norte-americano que por mais de quinze anos auxiliou o Federal Bureau of Investigation (FBI), a polícia de Nova Iorque e outros órgãos policiais na elaboração de perfis psicológicos de criminosos, contribuindo decisivamente na solução de investigações que permitiram levar a julgamento suspeitos acusados de graves e violentos crimes, como assassinatos em série, atentados e estupros. Enquanto as matérias de Bernardo e Henrique mostram o ponto de distorção que a mente humana pode atingir para causar o mal ao seu semelhante, este texto acena com a crença na racionalidade e na inteligência como instrumentos de restabelecimento da ordem e da justiça.

James Arnold Brussel nasceu na cidade de Nova Iorque, em 1905. Graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, exerceu a profissão de médico psiquiatra por quase 50 anos em seu consultório particular em Manhattan. Além disso, serviu como chefe do Serviço de Neuropsiquiatria do Corpo Médico do Exército Norte-americano durante a Guerra da Coréia e trabalhou também como assistente do Serviço de Higiene Mental de Nova Iorque.

“É loucura decerto, mas mesmo nela há método.”

A fala do personagem Polônio na tragédia Hamlet, de Shakespeare, é a perfeita epígrafe para a apresentação do trabalho de Brussel. Na peça, Polônio expressa sua percepção que as ações e pensamentos de Hamlet, a quem todos julgam enlouquecido, possuem ainda assim um certo fundamento lógico: seus atos visam a vingança pela morte do pai, após o espectro do rei morto revelar como assassinos seu próprio irmão, Cláudio, que desposa a rainha Gertrudes e assume o reinado da Dinamarca.

A Psiquiatria é o ramo da Medicina que se ocupa dos diagnósticos e do tratamento das desordens mentais; o psiquiatra forense se especializa nos aspectos legais da doença mental. Brussel foi o primeiro psiquiatra a aplicar seus conhecimentos médicos em assuntos investigativos. O método utilizado por ele consistia na elaboração do perfil psicológico de um desconhecido a partir da análise da cena do crime, inferindo por meio dessa cena as características comportamentais do criminoso.

Entre os anos de 1940 e 1956, um terrorista assombrou Nova Iorque, instalando explosivos em locais públicos que incluíam cinemas, cabines telefônicas, salas de concerto e auditórios, além do terminal rodoviário central e da estação de trens da Pensilvânia. Durante longos dezesseis anos, as investigações não apresentaram resultados, até que em 1956 a polícia recorreu ao Dr Brussel, que na época ocupava o cargo de assistente do Serviço de Higiene Mental da cidade, solicitando-lhe que elaborasse um possível perfil psicológico do malfeitor.

Brussel estudou fotografias das cenas dos crimes e por meio delas analisou os métodos do Mad Bomber, alcunha que a imprensa havia concedido ao misterioso criminoso, uma vez que assim eram assinadas suas cartas endereçadas aos jornais. Em pouco tempo, o psiquiatra elaborou uma detalhada descrição física e psicológica do provável suspeito.

Até então, os investigadores imaginavam o Mad Bomber como o estereótipo do marginal louco e violento, desorganizado e agressivo. Mas Brussel, tal qual Polônio enxergando método na loucura de Hamlet, elaborou o perfil de um homem de meia-idade (entre 40 e 50 anos), solteiro, católico, fisicamente robusto e nascido no exterior. Viveria só com um irmão ou irmã e seria um empregado (ou ex-empregado) descontente da Consolidated Edison, a companhia de energia elétrica da cidade (o primeiro atentado foi cometido contra a sede da empresa). Provavelmente, sofreria de paranóia progressiva. Outras características apontadas por Brussel indicavam que se trataria de um indivíduo introvertido, mas não anti-social, mecânico habilidoso, astuto e hábil com ferramentas. Deveria demonstrar desprezo por outras pessoas e um ressentimento disfarçado em relação à críticas ao seu trabalho. Moral, honesto e desinteressado em mulheres. Possuiria educação equivalente ao ensino médio. Por fim, afirmou que o suspeito usaria um terno com uma fileira dupla de botões, totalmente abotoado.

De posse desse perfil, os policiais concentraram as investigações em funcionários e ex-empregados da Consolidated Edison, o que os levou a George Metesky, residente em Waterbury, Connecticut. Ele havia trabalhado para a companhia na década de 1930. Preso em janeiro de 1957, confessou imediatamente os crimes. Quando chegaram em sua casa, os policiais pediram-lhe que se vestisse para acompanhá-los (usava pijamas quando foi abordado). Metesky foi até seu quarto e voltou vestindo um terno com uma fileira dupla de botões. Totalmente abotoado.

Em outro episódio de grande repercussão, os investigadores pediram a Brussel para ajudá-los no caso do “Estrangulador de Boston”. Entre junho de 1962 e janeiro de 1964, ocorreram em Massachussets 13 assassinatos com violência sexual, para os quais não havia pistas ou suspeitos. Brussel foi solicitado a elaborar um perfil psicológico do homicida. Inicialmente, o investigadores acreditavam que os assassinatos teriam sido cometidos por dois indivíduos diferentes, baseando essa conclusão no fato de que as vítimas eram de dois grupos de idade – algumas mulheres eram jovens e outras mais velhas, com idades variando entre 19 e 85 anos. Diversamente, Brussel acreditava que apenas uma pessoa seria responsável pelos assassinatos e elaborou um perfil que correspondia a Albert DeSalvo, preso em novembro de 1964 enquanto cometia outro estupro e assassinato. DeSalvo confessou mais tarde ser o “Estrangulador de Boston”. Não chegou a ser levado ao tribunal, pois na prisão, enquanto aguardava o julgamento, foi esfaqueado até a morte por uma colega de cela.

Para elaborar os perfis Brussel utilizava, além de sua prática psiquiátrica, conhecimento e experiência pessoal, a própria intuição e os registros fornecidos pela polícia. Sua abordagem de fato, podia ser considerada um tanto subjetiva. Criticamente, admitiu que cometeu erros em alguns casos, produzindo análises incorretas ou incompletas. Certa vez escreveu: “a única coisa que tenho feito para ter o meu nome em evidência tem sido aplicar alguns princípios básicos de Psiquiatria no sentido inverso, usando minha própria mistura privada de ciência, intuição e esperança. Com esta abordagem, eu fui capaz de ajudar a polícia a resolver alguns crimes bizarros e fui convocado para depor como especialista em alguns julgamentos famosos”.

Brussel viveu em Manhattan até o final da vida, falecendo em 1982 aos 77 anos de idade. Além do legado exemplar de seus procedimentos e de sua capacidade intelectual, escreveu oito livros, entre os quais Instant shrink: How to become an expert psychiatrist in 10 easy lessons; Casebook of a crime Psychiatrist; The laymans guide to Psychiatrist e The physicians concise handbook of Psychiatrist. Também escreveu o suspense policial Just murder, darling, traduzido em Portugal com o título Espero-te no inferno. Apesar do reconhecimento internacional de seu trabalho, nenhuma de suas obras no campo da Criminologia foi ainda publicada ou traduzida no Brasil.


REFERÊNCIAS

EBISIKE, Norbert. Offender Profiling in the courtroom: the use and abuse of expert testimony. Connecticut: Praeger, 2008.

WINERMAN, Lea. Criminal profiling: the reality behind the myth. Monitor Staff. v. 35, n. 7, p. 66. jul/ago 2004.

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Claudius Viana