• 16 de dezembro de 2019

Jazz, Howard Becker e a sociologia criminológica

 Jazz, Howard Becker e a sociologia criminológica

Jazz, Howard Becker e a sociologia criminológica

O presente texto é dedicado a um grande amigo, colunista, professor e intelectual do direito que também consegue de alguma forma encontrar tempo em meio aos seus afazeres para o jazz.

Assim como o sociólogo e músico Howard Becker, André Peixoto de Souza também dedilha seu piano tendo como companhia a bela voz da professora de direito civil e advogada, a talentosa Priscila Lacerda e a banda Snap Jazz. Como o assunto hoje inclui o jazz, aí vai a homenagem.

No cinema o estilo musical pode ser visto em filmes como All that jazz, de 1979, Chicago de 2002 e Wiplash, em busca da perfeição de 2014.

Em sua história, o jazz se desenvolveu ao início do século XX pelas hábeis mãos dos músicos que faziam parte das comunidades negras de Nova Orleans e Chicago.

Em 12 anos de Escravidão, Solomon Northup, violinista e escravo, descreve a reunião dos escravos que se punham a cantar sons diferentes dos quais estava acostumado a ouvir e a reproduzir.

Em especial, quando falecia algum dos seus, os cativos reuniam-se no canto que podiam para despedir-se do seu modo. Ali, em meados da metade do século XIX nascia e se desenvolvia o Blues, o Jazz e o tradicional swing afro americano advindo de suas religiões que se espalharam mundo afora.

A importância da música, como a comunicação e interação entre as pessoas daquele tempo de segregação era unir os dominados pela fé e pela tradição, trazer os desgarrados para próximo do seu povo e manter um vínculo que os identificasse.

Todavia o jazz e o blues desenvolveram e sua maneira peculiar de improvisação e repetição criavam outros estilos, como o swing e a fusão de sons dos anos 80.

Contudo, sua influência não para por aí. Em A História social do jazz, Eric Hobsbawn, 2008, define com a maestria de um historiador a trajetória da tradição do jazz, desde os “Anos Dourados” até nosso tempo atual, numa detalhada investigação sobre a música e a sociedade ao seu redor.

Howard Becker, autor de Outsiders, estudos da sociologia do desvio, era músico de jazz. Como o próprio músico/sociólogo costumava dizer, “semiprofissional” no final dos anos 90.

Sua importância para a criminologia crítica foi tremenda, quando avança em estudos que prezam a microcriminologia por seu viés etnográfico, num amplo desenlace com a etiologia e a criminologia de cunho tradicional. A interpretação da ação social e das interações entre os personagens da sociedade, que ora se distanciam, ora se aglomeram em um espaço conjunto abre um universo de pesquisas antes não considerado pela criminologia.

Dessa forma, Becker analisou as concepções da ação coletiva desenvolvidas por Mead e Blumer, bem como, a perspectiva do interacionismo simbólico de Shultz, que elevam as estruturas da ação coletiva e do processo interpretativo dessas interações.

O autor de Outsiders ainda escreveu em conjunto com o também musico e sociólogo Robert Faulkner a obra “O jazz em ação”, onde descreve a dinâmica de vida dos músicos profissionais e a sua fluência com a música, mesmo carecendo de tempo para ensaios programados.

Define que a convivência e o interacionismo entre os iguais é suficiente para que a ação coletiva “tome proporções que valorizem o conhecimento” de cada um e assim, consigam desempenhar bem a sua função.

A improvisação da música de jazz também é comentada por Becker quando confirma as conversações e detalhes tratados apenas em última hora, antes da entrada nos palcos de Chicago.

Nesse ponto, os estudos de fenomenologia do autor entram em cena quando trata das convenções e interações sociais no mundo dos músicos.

Importante a referência de que em meados do século XX, o jazz era visto pela sociedade tradicional e pela comunidade reconhecidamente estabelecida como músicas outsiders, ou seja, não havia espaço para esse tipo de exposição.

Após as guerras ou durante elas, as campanhas norte americanas de patriotismo e do fortalecimento da cultura envolvendo o civilismo e promovendo a força estadunidense para o mundo perfazia como o ápice cultural da época.

Assim, o acolhimento do público pelas músicas de campanha era crescente. A demanda social no período estudado pelo autor buscava por música comercial que versasse sobre ascensão e estabilidade, fato que transformava o artista de jazz as voltas com a marginalidade.

A abordagem interacionista do autor convida à compreensão do desvio como sendo um puro processo sempre em elaboração, onde o sujeito pode ou não se engajar, e quanto mais se engaja, mais é implicado a ela, tornando assim a sua renúncia ato quase impossível.

Perante isso a carreira profissional é um singular modo de desvio, no caso dos músicos, que assumem a sua identidade como tal aderindo a um grupo seleto e diferente daquilo que é comum na sociedade.

A sua realidade e a do grupo escolhido é a música e a busca pela perfeição daquilo que faz, transformando sua carreira como válvula de escape, dirigindo suas relações aos seus iguais, dessa forma, aceitando o caminho paralelo à sua frente e seu total rompimento ao grupo estabelecido.

Dessa forma, certos grupos são estáveis e duradouros, características essas que tornam um meio de vida peculiar e uma cultura própria. Dentro do grupo essas pessoas se sentem “pertencidos” a uma estrutura que é a cultura.

Essa estrutura, segundo Becker, formada pelos desviantes de uma “normalidade”, realça sua própria cultura e internamente, entre os componentes do grupo, fazendo-os aptos à composição de suas músicas e a desenvolve-las sem o prévio ensaio, numa improvisação pautada no interacionismo.

Estudos esses que refletiram na criminologia ao deslocar a investigação para a reação social e assim, entender os mecanismos de controle e a própria sociedade ao redor dos acontecimentos que envolvem o direito penal.

De fato, não sabemos como Howard Becker se saiu como músico, mas podemos afirmar com toda certeza, que foi e é um dos principais autores e estudiosos da criminologia de nosso tempo.


REFERÊNCIAS

BECKER, Howard S., Outsiders, Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2008.

FAULKNER, Robert R. BECKER, Howard S. Do you know…? The Jazz Repertoire in Action. Chicago: University of Chicago Press, 2009.

HOBSBAWM, Eric J. A história social do jazz. Paz e Terra, 2008

NORTUP, Solomon. Doze anos de escravidão. Penguin, São Paulo, 2016

Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.