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João, o cidadão de bem

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João é um cidadão de bem. Possui residência fixa. Trabalho honesto. Ganha o mínimo suficiente para, a duras custas, sustentar sua família. Vive com a esposa e seus dois filhos. O lazer dos finais de semana se resume a idas ao shopping (quando o dinheiro permite), parques e refeições em família. O churrasquinho de domingo é sagrado.

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Enfim, um cidadão de bem.

É segunda-feira. João acorda cedo, se higieniza, prepara e toma uma xícara de café enquanto assiste ao noticiário antes de ir ao trabalho. No jornal, o noticiar da prisão de um rapaz que foi finalmente preso após diversos furtos que vinha praticando nos estabelecimentos de determinada região.

Bandido”, bradou João, “Pena que foi a polícia que pegou. Melhor se fosse a população dali. Já teriam linchado o indivíduo e, com sorte, seria um bandido a menos para causar problemas. Que apodreça na cadeia então.

Tal pensamento foi reconfortante para João, em que pese a sua irresignação com o fato de o Estado não autorizar a pena de morte, já que para ele “criminoso tem que morrer”.

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João parte para o trabalho antes que esposa e filhos acordem. Trabalha duro para dar conta das despesas familiares. No caminho para a empresa, pluga o seu pen drive no aparelho de DVD do carro para conferir a qualidade do som e imagem do filme que havia baixado na internet no domingo.

O salário de João é modesto, e com esposa e dois filhos precisa de uma renda extra, a qual faz com a venda de filmes pirata aos sábados em frente ao mercadinho próximo de sua casa (artigo 184 do Código Penal).

Ao chegar ao estacionamento da empresa em que trabalha, o celular de João toca. Um aparelho bonito. Bastante moderno. Comprou juntamente com diversos produtos eletrônicos na última visita ao Paraguai, quando passou a Ponte da Amizade sob reza, torcendo para que os agentes de fiscalização não parassem o seu veículo.

Passou. Assim pode presentear e fazer mais um dinheirinho extra com a venda para conhecidos de diversos produtos que trouxe (artigo 334 do Código Penal). Enfim, o celular de João tocara.

Era o seu filho, de 15 anos, agradecendo ao pai por ter liberado o carro no último sábado para que pudesse ir a uma festa (artigo 310 do Código de Trânsito Brasileiro), tendo ainda solicitado novo empréstimo do veículo para a próxima sexta, ao que o pai, para agradar o filho e confiando em sua responsabilidade na direção, concordou prontamente.

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João inicia o seu turno. Sempre trabalhou com afinco. Dá o sangue pela empresa. Afinal, é um cidadão de bem.

João calcula que terá que fazer hora extra nesta semana. Foi parado numa blitz na última sexta-feira, quando retornava do barzinho após o serviço, e como havia bebido algumas tantas cervejinhas (artigo 306 do Código de Trânsito Brasileiro), além de a documentação de seu veículo estar irregular, entregou ao policial uma nota de R$ 50,00 para que fosse logo liberado (artigo 333 do Código Penal).

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Deu certo, já que aquele agente policial o liberou sem fazer mais perguntas. Assim, para que não faltasse dinheiro para a compra de mercado do mês, seria necessário recuperar os R$ 50,00, e o faria com as horas extras planejadas.

Durante seu horário de almoço, João aproveitou para ir até uma sala da empresa onde ficavam diversas ferramentas. Eram pouco usadas e ninguém daria falta se sumissem.

Ainda, João precisava de algumas delas para fazer uns reparos em sua casa no final de semana. A empresa não seria lesada e João faria melhor uso das mesmas.  Assim, furtivamente, João subtraiu algumas ferramentas, tomando-as para si, tendo guardado as mesmas escondidas em seu veículo (artigo 155 do Código Penal).

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Finalmente, 18h. Final da labuta. João lembrou que tinha um compromisso já marcado em casa. Não seria possível fazer as horas extras planejadas.

Mesmo assim, como o controle da folha-ponto da empresa era bastante precário e João precisava faturar um dinheirinho a mais, anotou que fizera uma hora extra naquele dia (artigo 299 do Código Penal).

Não fazia mal a ninguém. A empresa lucrava bastante e o seu salário não condizia com o tanto que trabalha. Em seu pensar, estava era praticando justiça ao dar um jeito de receber um pouco a mais no final do mês.

Retornando para casa, o trânsito estava caótico. Quando finalmente a pista em que trafegava foi liberada, um motoqueiro o fechou, fato este que assustou João e lhe causou certa ira. “Seu babaca, imbecil e cretino”, bradou João, “Mula cega, não me viu, seu asno?” (artigo 140 do Código Penal).

João, naquele extravasar da raiva gerada pelo trânsito tentou seguir a moto, enquanto gritava pela janela “Você pagou por fora para ter a carteira?” (artigo 138 do Código Penal), “Não olha por onde anda? Está indo buscar o seu namorado na zona, seu viado?” (artigo 139 do Código Penal), “encoste a moto, pois eu vou lhe dar uma boa surra” (artigo 147 do Código Penal).

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O motoqueiro prosseguiu seu caminho até que João o perdesse de vista. Desta forma, um pouco mais calmo, João também seguiu o seu caminho até a sua casa.

Em casa, João cumpriu com o seu compromisso (levou a esposa para o curso de pintura no qual esta havia se inscrito) e pode finalmente ter o seu merecido descanso de final do dia. Poltrona, televisão e sua cervejinha. Um momento só seu. Justo, para quem tanto trabalha e não causa mal a ninguém.

Na televisão, o noticiar da morte de um cidadão na favela de um bairro próximo. “Ali só dá bandido. No mínimo, estava mexendo com coisa errada. Não vai fazer falta. Bandido bom, é bandido morto!”, pensou consigo João. Estava em paz consigo mesmo. Trabalhava duro. Tinha família. Não fazia mal a ninguém.

João é um cidadão de bem.

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