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Johnny Cash e a prisão Folsom: a real história de Glen Sherley

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Johnny Cash e a prisão Folsom: a real história de Glen Sherley

O escrito de hoje é dedicado a todos os amantes da boa música, do bom e velho Rock N’Roll e Blues, que geralmente trazem, nas sombras de seus grandes sucessos, lendas e fatos reais que merecem alguma atenção.

Pensei em contar a história do Homem de Preto e de quando sua voz ecoou no interior de uma das mais obscuras prisões dos Estados Unidos, contrariando empresários, gravadora e agentes de segurança, numa aventura em prol de homens condenados. Mas vou contar-lhes um pouco da história de Glen Sherley e o que o sistema prisional e seu plano de “ressocialização” podem fazer com uma pessoa, ou o que de fato fez com Sherley.

A história começa a ser desenhada em 1951 quando Crane Wilbur, ator e roteirista norte americano, trouxe ao mundo a visão interna dos presídios de segurança máxima de seu país, ao filmar o famigerado Inside The Walls of Folsom Prison, ou Dentro dos muros da prisão Folsom.

Na plateia, já nos anos sessenta, estava um soldado servindo à Força Aérea que anos depois trouxe sua visão da prisão influenciada pelo filme que o marcou, em seus versos e acordes afinados de seu violão.

Johnny Cash talvez não tenha imaginado que sua composição sobre assunto tão pertinente nos anos 60, quando inúmeros intelectuais passaram a questionar o sistema norte americano de justiça e sua forma singular de promover a lei e ordem, seria considerada um clássico além de seu alcance.

Numa época de grandes transformações e guerras como a do Vietnã, a segunda geração da Escola de Chicago trazendo conceitos como rotulação, estigmatização, a visão do outro, outsiders e desviantes e entendendo a criminologia com o conceito sociológico, a fala de Johnny Cash ajudou a incentivar olhares mais atentos ao sistema do cárcere daquele tempo.

Por certo, o personagem de seu single mereceu a penalização, por ter matado um homem somente para vê-lo morrer, bem como traz a canção e sua narrativa. Assim, pelo direito nacional estaríamos diante a um homicídio qualificado por motivo torpe.

Na prisão Folsom, o indivíduo enxerga a passagem do tempo nas mais enclausurantes situações, como a de não enxergar o sol de dentro de sua cela. Interessa como essa canção chegou ao sistema prisional, principalmente na prisão em comento, quando inúmeros detentos passaram a escrever a Johnny Cash, contando as infortunadas histórias de suas vidas, sua passagem pelo cárcere e seus anseios futuros.

Cash decidiu cantar para eles.

Negando os avisos das autoridades oficiais e de sua gravadora, Cash conseguiu junto com sua banda adentrar os muros de Folsom e de lá fazer ecoar pela história uma das mais elaboradas e puras criações da música: seu disco Johnny Cash na Prisão Folsom foi um sucesso considerado por duas razões: o ímpeto do Homem de preto em cantar para condenados “perigosos” no interior de uma das mais famigeradas prisões do país, e em segundo plano, a energia que tomou conta do ambiente, recheado de “foras da lei” e entre eles J. Cash.

Mas junto àqueles moribundos havia outro personagem da vida real chamado Glen Sherley e é de sua história que pretende tratar essa breve narrativa.

Glen estava preso por assalto a mão armada, todavia, a prisão passou a ser sua segunda casa havia muito tempo, devido a pequenos assaltos, furtos e grandes erros. Nascido em 1936, seus pais eram trabalhadores agrícolas na região de Oklahoma mudando-se para a Califórnia em 1940 com intuito de prestar serviços em fazendas de algodão, plantações de batata entre outras.

Após a mudança, realizada a princípio pela falta de trabalhos nos campos de Oklahoma, que passava a intensificar pesquisas e serviços na exploração de gás natural, transformou Sherley num delinquente juvenil, desviando-se das instituições e dos estudos, sendo preso inúmeras vezes. Conta a lenda que além de Folsom passou também por outros quatro grandes centros prisionais, entre eles o temido San Quentin.

Nos anos sessenta o prisioneiro Sherley compôs e escreveu uma história a respeito da capela da prisão de Folsom, que significava aos detentos um local sagrado onde se encontrava a real fuga da dura realidade intramuros, chamando-a como “local de culto em um antro de pecado”. Sendo gravada dentro da prisão com ajuda do reverendo que, coincidentemente era conhecido de J. Cash, entregando-lhe a cópia da fita onde Sherley soltava a voz e os acordes do violão rumo a sua pseudoliberdade individual.

Cash não teve dúvidas. Ao realizar o show e gravar seu disco ao vivo em Folsom, chegando em sua última canção pediu que se levantasse o compositor da música que o padre havia, em silêncio, entregue a ele em noite anterior. Sherley ao ouvir seu nome surpreendeu-se, fato que pode ser percebido na gravação original do álbum.

Ao subir no palco com seu ídolo e ver sua canção ser cantada vorazmente pelo Homem de preto, consagrou-se em sua determinação os seus próximos passos: escrever e compor. De fato, compôs outras canções como Retrato de minha mulher, interpretada pela voz de Eddy Arnold em 1971. Nessa época, Sherley havia sido transferido para a prisão Vacaville na Califórnia, mas sempre mantendo contato com seu idealizador, J. Cash.

Em reuniões com o governador californiano na época, Ronald Reagan, Cash passou a declarar o sistema prisional norte americano como uma instituição que precisava de urgentes reformas e significava a total ruptura do homem com a existência; ou seja, significava a morte em vida.

Em várias conversas e sessões legais, Cash conseguiu intervir a favor de Sherley para que este pudesse lançar seu álbum musical fora dos muros do sistema. Algum tempo depois, a Sherley foi restituída sua liberdade e J. Cash era o único a o esperar no lado de fora dos sombrios muros de Vacaville.

Durante algum tempo, Sherley chegou a morar com Cash e lançou alguns álbuns com ajuda de seu padrinho, tornando-se um compositor requisitado; casando-se e tendo dois filhos. Acompanhava o Homem de preto em suas reuniões e em seus pedidos de reforma prisional em todas as sessões, quando Cash empunhou de fato a luta contra o sistema, ao ouvir as histórias macabras contadas por seu pupilo na música, Glen Sherley.

Todavia, com o passar do tempo, Sherley retomou o uso das drogas e sua personalidade violenta passou a aflorar. Em uma viagem com a banda de Cash, o compositor teria ameaçado de morte os integrantes do grupo musical, de forma descontrolada. A Cash não restou mais nada senão dispensar Sherley, que passou a usar de violência contra sua família, formada após sua liberdade ter sido conquistada.

Afastou-se também da esposa e de seus filhos, indo trabalhar em inúmeros locais na região de Nashville, fazendo uso da bebida e das drogas. Em 1978 Sherley, sob os efeitos de alucinógenos, atirou em um homem matando-o, buscando então a casa de seu irmão Gonzales para refúgio, na Califórnia. Dois dias depois ouviu-se um estampido num dos cômodos da casa; Sherley havia atirado em sua própria cabeça e jazia morto, aos quarenta e dois anos.

Johnny Cash pagou o funeral e todas as despesas de Sherley. Consta que o cantor retrocedeu em sua luta por reformas no sistema prisional, iniciada após sua visita aos intramuros de Folsom, tendo como porta voz um antigo presidiário com reais histórias para contar.

Conta a lenda também que foi a partir do ocorrido com Sherley que o Homem de preto passou a cair em seus vícios e a deixar os palcos e sua criação musical, definhando por longos tempos, sendo trazido de volta com a ajuda de sua esposa June Carter.

O documentário de Bestor Cram, Johnny Cash at Folsom Prison, lançado em 2008, traz em sua essência entrevistas de quem participou das gravações na época, e em uma delas pode-se notar a influência de Cash na vida dos presos, quando em um depoimento de um deles aos integrantes da comissão do cantor: “Se J. Cash dissesse: Vamos todos fugir daqui hoje! Creio que todos iríamos com ele, custe o que custar. ” Entretanto, a harmonia foi seguida desde o início ao fim do show.

Interessante ressaltar que mesmo fora do local onde muito tempo passou em sua vida, tendo como companheiro o medo e o receio, Sherley não conseguiu mais retornar. Não conseguiu mais seguir adiante. Mesmo acumulando fama e dinheiro, uma nova família com esposa (Nikki Robins) e filhos, o ex presidiário não logrou êxito em continuar sua vida, voltar ao contato e convívio social, de fato, não estava preparado para isso, mesmo com incentivo fora dos muros prisionais.

Faltava-lhe algo, faltava-lhe a pulsão, o desejo interno de celebrar uma nova existência, deixando lá atrás todo sofrimento passado. Existem marcas que tendem a permanecer para sempre, e foi contra essas “estigmatizantes” e marcadoras de vidas humanas que Johnny Cash tentou travar algumas de suas mais famosas batalhas.


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Autor

Mestre em Direito. Professor. Advogado.
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