• 27 de setembro de 2020

O juiz-penitente de Albert Camus

 O juiz-penitente de Albert Camus

O juiz-penitente de Albert Camus

A queda, obra lançada em 1956, do escritor francês-argelino Albert Camus, é intrigante desde o título: de quem é a queda, da desconhecida mulher flagrada pelo irônico narrador em suas andanças boêmias por Paris, ou dele mesmo?

Narrado em primeira pessoa por um homem que se dá o interessante título de juiz-penitente, esta obra de Camus, infelizmente não tão celebrada quanto as mais conhecidas do público como “O estrangeiro” e “A peste”, é um longo diálogo/monólogo de uma personagem rememorando pedaços de sua bem sucedida vida, até um momento chave em que tudo mudou.

A narrativa começa em um bar de Amsterdã, onde o narrador encontra um não identificado interlocutor, parisiense assim como ele, e começa a contar pedaços de sua vida, misturados com suas reflexões. A exemplo de outro grande mestre, Saramago, a narrativa é uníssona, as possíveis perguntas e respostas do interlocutor vem entrelaçadas na fala única do narrador:

“Vai ficar muito tempo em Amsterdã? Bela cidade, não é? Fascinante? Eis um adjetivo que não ouço há muito tempo.” (pg. 7).

“Me permita que me apresente: Jean- Baptiste Clamence, seu criado. É um prazer conhecê-lo. Sem dúvida, deve ser homem de negócios, não é? Mais ou menos? Excelente resposta.” (pg. 9).

O “juiz-penitente” era um advogado rico e importante na festeira Paris. Dinheiro, sucesso mundano, o narrador levava uma vida tipicamente burguesa.

Sendo o personagem um bem-sucedido advogado, sua visão do Direito e da Justiça era cínica, e suas críticas soam estranhamente atuais:

“Não se pode negar que, pelo menos, por ora, os juízes sejam necessários, não acha? No entanto, eu não conseguia compreender por que um homem designava a si próprio para exercer esta surpreendente função.” (pg. 17).

“Coisa ainda mais rara, nunca concordei em bajular qualquer jornalista, para torná-lo favorável a mim, nem funcionário algum, cuja amizade me pudesse ser útil.” (pg. 17).

“Se os proxenetas e os ladrões fossem sempre condenados em toda parte, as pessoas de bem, meu caro senhor, julgar-se-iam todas e incessantemente inocentes.” (pg. 32).

“Privados de seu freio natural, os juízes, soltos ao acaso, servem-se à vontade.” (pg. 89).

Elegante, rico, bem-sucedido, o nosso juiz-penitente se orgulhava de si mesmo, de sua bondade para com os pobres, de suas muitas aventuras com as mulheres, vivendo sempre satisfeito em sua bolha de auto-complacência.

Essa existência aparentemente feliz começa a mudar em duas situações-chave, sempre em suas andanças noturnas por Paris.

Uma noite, ao andar sozinho pelas ruas vazias, teve a impressão incômoda de escutar uma risada:

“Eu me endireitei e ia acender um cigarro, o cigarro da satisfação, quando no mesmo momento, explodiu uma gargalhada atrás de mim. Surpreendido, fiz uma brusca meia-volta: não havia ninguém.” (pg. 30/31).

Esse incidente aparentemente banal começa a mudar o narrador; de repente, sem motivo real nenhum, ele começa a se questionar a respeito de sua vida, suas amizades, suas aventuras, sua profissão.

As dúvidas já estavam instaladas em seu espírito quando presencia o que parecia ser um suicídio de uma mulher desconhecida:

“Na ponte, passei por detrás de uma forma debruçada sobre o parapeito e que parecia olhar o rio. De mais perto, distingui uma mulher nova e esguia, vestida de preto. (…)

Já havia percorrido uns cinquenta metros, mais ou menos, quando ouvi o barulho de um corpo que cai na água e que, apesar da distância, no silêncio da noite, me pareceu grande. Parei na hora, mas sem me voltar. Quase imediatamente, ouvi um grito várias vezes repetido, que descia também o rio e depois também se extinguiu bruscamente.

(…) Quis correr e não me mexi. Acho que tremia de frio e de emoção. (..)

Depois, afastei-me sob a chuva, às pressas. Não avisei ninguém.”(pg. 53).

Esse incidente será determinante para o narrador. Sem admitir ainda uma leve culpa por não ter parado e salvado aquela desconhecida, sua melancolia cresceu e toma conta de sua vida.

O narrador se deu conta de seus defeitos, sua vaidade, sua arrogância, a hipocrisia de seus pares e de seus relacionamentos vazios. Percebeu que não era bondoso com os pobres por piedade, e sim para que fosse bem visto na sociedade elegante que frequentava. Despiu a sua máscara e se viu como realmente era.

Já no auge de uma crise, deixou de defender seus clientes com a ênfase de antes. O resultado óbvio é que os clientes e o dinheiro começaram a rarear. Na Paris famosa por sua sensualidade, percebeu que nunca amou ninguém, só a si mesmo, e que nunca fora amado por mulher nenhuma. O que o movia era seu amor-próprio e a vontade de ser bem visto e querido por todos, até o dia em que tudo perdeu o sentido:

“Vivia, pois, sem outra continuidade no dia-a-dia, que não fosse a do eu-eu-eu.” (pg. 39).

“Nunca me lembrei senão de mim mesmo.” (pg. 39).

Depois de meses de confusão mental, novas aventuras com mulheres, consultas em médicos, buscando entender do que sofria, mais álcool, o narrador simplesmente perdeu-se de si mesmo. Sem conseguir voltar a ser como era, cada vez mais isolado de sua antiga vida, resolveu deixar Paris e abrir seu escritório de advocacia em outras paragens. Escolheu Amsterdã, onde se instalou com um outro nome.

Tornou-se, então, o “juiz-penitente”:

“Exerço, pois, no México-City, há algum tempo, a minha útil profissão. Esta consiste, em primeiro lugar, o senhor já viu por experiência própria, em praticar a confissão pública com a maior frequência possível. Acuso-me de alto a baixo.

(…) O senhor vê a vantagem, disso tenho certeza. Quanto mais me acuso, mais tenho direito de julgar os outros.” (pgs. 104/105).

No fundo, o juiz-penitente não mudou ou se converteu em um “homem bom”. O narrador continuou a ser um cínico, porém cada vez mais consciente das fraquezas e hipocrisias humanas. Nem o juiz-penitente nem Camus tem a pretensão de apresentar respostas aos anseios humanos, mas em provocar dúvidas e reflexões em seus interlocutores/leitores.

Já ao final de sua narrativa, deixou escapar o que mais o afligia: não ter parado para salvar a desconhecida.

“Pronuncie o senhor mesmo as palavras que, há anos, não pararam de ressoar nas minhas noites e que eu direi, enfim, por sua boca: ‘Ó jovem, atire-se de novo na água, para que eu tenha, pela segunda vez, a oportunidade de nos salvar a ambos!”.


Sobre Albert Camus, leia também: 

  • A ‘vibe’ do suicídio (aqui)
  • O Criminalista (aqui)

Maria Carolina de Jesus Ramos

Especialista em Ciências Penais. Advogada.