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Justiça no inconsciente coletivo

Justiça no inconsciente coletivo

No texto “Sobre os arquétipos do inconsciente coletivo”, publicado no livro “Os arquétipos e o inconsciente coletivo”, C. G. Jung apresenta uma importante e original variação das definições de S. Freud quanto à estrutura da consciência (composta pela inconsciência).

Aduz Jung que o “inconsciente pessoal” – o que seria todo o campo do inconsciente para Freud – se faz por uma camada superficial do inconsciente, que, todavia, se assenta numa camada mais profunda, inata, constituída por “um substrato psíquico comum de natureza psíquica suprapessoal que existe em cada indivíduo”, que seria o “inconsciente coletivo”, cujo conteúdo é preenchido pelos “arquétipos”.

Os arquétipos, cumpre derivar, são “imagens universais que existiram desde os tempos mais remotos”, transmitidas historicamente pela tradição, incorporadas na mentalidade – e mesmo na genética! – dos seres humanos, transmutadas para fórmulas conscientes para além dos mitos e das crenças.

Nesse patamar, muitos arquétipos serão apreciados por Jung, e o seu simbolismo dará vazão para, em primeiro lugar, uma ruptura epistemológica com Freud, e em segundo lugar, uma ampliação dessa variável rumo à teoria dos mitos e dos símbolos, como, por exemplo, em J. Campbell.

Eu gostaria de tomar a questão da “justiça” como pertencente, em hipótese, ao inconsciente coletivo.

Justiça é daqueles típicos [paradoxais] conceitos filosóficos ou jusfilosóficos difíceis de definir, mas simples de entender. Carnelutti, por exemplo, apontou notável aproximação: a de justiça como um sentimento. Mas há uma infindável lista de “teorias da justiça”, desde os clássicos (gregos) até os semióticos e economistas contemporâneos (v., p. ex., N. Chomsky e A. Sen).

Seja como for, a ideia (ou proposta, que aqui faço) de justiça como arquétipo ou como inserida na estrutura do inconsciente coletivo, dá margem para uma análise e que suscita alguma reflexão. Gostaria de me demorar um pouco mais nesse tema. Para tanto, terei que estudar mais a fundo a teoria junguiana dos arquétipos e, como não, toda a descoberta do inconsciente, especialmente a partir de Freud e Breuer.

Como ponto de partida, visualizo a seguinte cena: uma mãe, uma família, vários amigos em frente ao Tribunal do Júri, todos vestidos com uma camiseta apresentando fotografia de um jovem, faixas em punho, e gritos de ordem: “queremos justiça!” A pergunta é essa: o que eles querem, exatamente? Várias hipóteses, dentre as quais a mais óbvia parece ser a condenação do acusado de homicídio da vítima estampada em suas camisetas. Essa hipótese, porém, abre mais um sem-número de hipóteses, como a seguinte: seria “justiça” a condenação do acusado? A qual pena? Qual o número de anos e meses (v. o paradoxo do careca) que representa o limite entre o que é justo e o que é “injusto”?

Seguindo a pista de Carnelutti, a pena se converterá num sentimento à família e amigos da vítima. Porém, esse sentimento – até agora, a melhor “definição” de justiça – não deixa de ser reforçado por um ideal enraizado em profunda camada, aquela anterior à do inconsciente pessoal, a camada inata, a do inconsciente coletivo.

Afinal, a justiça não deixa de ser uma imagem universal existente “desde os tempos mais remotos”, transmitidas historicamente pela tradição, incorporadas na mentalidade – e mesmo na genética! – dos seres humanos, transmutadas para fórmulas conscientes para além dos mitos e das crenças.

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André Peixoto de Souza

Doutor em Direito. Professor. Advogado.

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