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O estupro e assassinato de Kitty Genovese

O estupro e assassinato de Kitty Genovese

Kitty Genovese. Em março de 1964, tarde da noite, numa quinta-feira fria e úmida, algo terrível aconteceu na cidade de Nova York, coisa tão hedionda a ponto de sugerir que os seres humanos são as criaturas mais brutais e egoístas que já perambularam pelo planeta. 

Uma mulher de 28 anos, Kitty Genovese, dirigia para a casa de volta do trabalho e estacionou o carro, como de costume, numa vaga perto da estação Long Island Road. Ela morava em Kew Gardens, Queens, a mais ou menos 20 minutos de trem de Manhattan. Era um bairro bom, com casas bem dispostas, em terrenos arborizados, alguns edifícios de apartamentos e um pequeno distrito comercial.

Genovese morava em cima de uma fileira de lojas, de frente para a Austin Street. A entrada para o apartamento dela era pelos fundos. Ela saltou do carro e o trancou; quase imediatamente, um homem a perseguiu e a esfaqueou nas costas. Genovese gritou. O assalto ocorreu na calçada, em frente às lojas de Austin Street, onde, do outro lado da rua, se erguia um edifício de apartamentos de dez andares, chamado Mowbray.

O assaltante, cujo nome era Winston Moseley, correu para o carro dele, um Corvair branco, estacionado junto ao meio-fio, a uns 60 metros de distância. Deu marcha a ré no carro e desceu a rua, sumindo de vista.

Genovese, enquanto isso, levantou-se às tontas e cambaleou até o edifício dela. Mas, em pouco tempo, Moseley voltou, estuprou-a e esfaqueou-a de novo, deixando-a à morte. Em seguida, pegou o carro e voltou para casa. Como Genovese, ele era jovem, 29 anos, e também morava no Queens. A esposa dele era enfermeira credenciada: o casal tinha dois filhos. A caminho de casa, Moseley viu outro carro parado diante da luz vermelha do semáforo. O motorista dormia ao volante. Moseley saiu do carro e acordou o homem. Ele não o machucou nem o roubou. Na manhã seguinte, Moseley foi para o trabalho como sempre (LEVIT; DUBNERT, 2010, pp. 89-90).

O estupro e assassinato de Kitty Genovese ficou famoso na mídia internacional. Não pelos requintes de crueldade ou pela brutal forma de execução. Mas pelo fato de o crime ter ocorrido diante de diversos espectadores. O homicídio foi assistido por aproximadamente 38 testemunhas inertes, apáticas, que não realizaram qualquer ação para evitar o crime, cuja execução durou cerca de 35 minutos.

New York Times publicou um artigo sobre o tema que possuía o seguinte prólogo:

Durante mais de meia hora, 38 cidadãos respeitáveis, cumpridores da lei, no Queens, viram um assassino perseguir e esfaquear uma mulher, em três investidas separadas e sucessivas, no Kew Gardens... Ninguém chamou a polícia durante o assalto; uma testemunha telefono9u depois que a mulher estava morta ...

A inação das testemunhas foi justificada de diversas formas, dentre elas: (I) achamos que era briga de namorados; (II) fomos até a janela para ver o que estava acontecendo, mas a luz de nosso quarto dificultou a visão da rua ou (III) eu estava cansado e voltei para o quarto. Parece absurdo, mas as justificativas estão insertas em um fenômeno que pode ser chamado de “efeito espectador” (bystander effect) ou “síndrome de Genovese”.

Referido fenômeno social pode ser explicado pela apatia dos espectadores em situações de tensão ou de perigo quando o fato está sob a observação de diversas pessoas. Vale dizer, quanto mais pessoas presentes, maior a chance de que deixem de agir, na expectativa de um compartilhamento de responsabilidade – ou seja, não vou fazer nada, pois alguém certamente fará.

Esse contexto indica, também, que as pessoas possuem maior propensão de atuação quando estão sozinhas do que quando estão em grupo. De fato, nas situações em que as pessoas encontram-se sob o olhar de diversos espectadores suas ações acabam sendo inibidas pelo receio de que suas condutas sejam avaliadas e julgadas, freando, assim, seu impulso de ação.

Em suma, é como se a multidão ou a presença dos outros inibisse o cometimento de atitudes altruístas, pelo receio de que sejam julgadas e consideradas tolas. Além disso, a presença de várias pessoas dilui entre o grupo o sentimento de responsabilidade com os próximos em situações de necessidade, diminuindo, assim, a presteza na prestação de socorro.

Efetivamente, pode-se concluir que Kitty Genovese não morreu, ‘apesar’ de haver muitas testemunhas, mas morreu exatamente porque havia muitas testemunhas. Por mais paradoxal que possa parecer, são intrigantes as circunstâncias que levaram a prisão do assassino de Kitty Genovese. A prisão ocorreu

poucos dias depois do assassinato de Genovese. Por volta das 15 horas, em Corona, outro bairro do Queens, Moseley foi visto retirando uma televisão da casa de uma família, de sobrenome Bannister, e levando-a para seu carro. Um vizinho se aproximou e perguntou o que ele estava fazendo. Moseley disse que estava ajudando na mudança dos Bannisters. O vizinho voltou para casa e telefonou para outro vizinho para perguntar se os Bannisters estavam de fato mudando. “Absolutamente não”, respondeu o segundo vizinho. E telefonou para a polícia, enquanto o primeiro vizinho foi até o carro de Moseley e soltou o cabo do distribuidor. Quando Moseley voltou para o carro e viu que não conseguia dar a partida, fugiu a pé, mas foi perseguido e preso por um policial. Sob interrogatório, admitiu espontaneamente o assassinato de Kitty Genovese poucas noites antes. Assim, o homem que se tornou infame por ter matado uma mulher cujos vizinhos não intervieram acabou sendo preso graças à ... intervenção de um vizinho” (LEVIT; DUBNERT, 2010, pp. 89-90).

Por fim, esse fenômeno social demonstra a grande sabedoria do aforismo popular segundo o qual “para o triunfo do mal só é preciso que os bons homens não façam nada”. Ou seja, na próxima vez que vir alguém em uma situação de risco ou de perigo, aja! Não deixe para o próximo, pois ele pode estar pensando a mesma coisa.


REFERÊNCIAS

LEVIT, Seteven; DUBNERT, Stephen. Superfreakonomics: o lado oculto do dia a dia. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

Autor

Advogado (RS) e Professor
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