• 10 de dezembro de 2019

Lado escuro do lazer: notas sobre o ‘Boa noite, Cinderela’

 Lado escuro do lazer: notas sobre o ‘Boa noite, Cinderela’

Lado escuro do lazer: notas sobre o Boa noite Cinderela

O presente artigo propõe uma discussão sobre o método de violação que vem sido usado por diversos agressores, método este chamado Boa Noite, Cinderela, utilizado de forma recorrente por criminosos de variadas maneiras.

Sabemos que as violências contra as mulheres são frequentes no país, dentre elas, assédio, exploração sexual, estupro, tortura, violência psicológica, agressões por parceiros ou familiares e feminicídio, e que isso se tornou uma luta diária, um mal que afeta a vida cotidiana, criando um aprisionamento interno e externo, onde até seu lazer está sendo atacado.

A violência contra a mulher se inicia através das desigualdades de gênero intensificadas por uma tradição de uma sociedade patriarcal, machista, na qual as mulheres são vistas como dependentes do homem, cuidadoras dos deveres domésticos e da satisfação dos desejos sexuais do sexo oposto, habitualmente associadas como inferiores somente pelo fato de serem o que são: mulheres. 

Boa noite Cinderela

Se tornou um problema crônico a violência contra a mulher, essa desigualdade foi discutida por Charles Tilly, analisando as desigualdades categóricas, onde consiste em uma forma de desigualdade de pessoas de uma outra fronteira, que não recebem os benefícios de valor da mesma forma e, consequentemente, não recebem o mesmo tratamento.

Estas desigualdades categóricas são uma divisão dualista entre homem e mulher, entre cidadãos e não cidadãos. Neste tipo de desigualdade, as categorias são cruciais uma vez que estabelecem desigualdades e identidades, e sempre demarcam as fronteiras de quem está dentro ou está fora (Tilly, Charles, 2006, pág. 48). Tal dualidade cria um sentimento de identidade social e coletiva. 

A desigualdade é uma relação entre pessoas ou conjuntos de pessoas na qual a interação gera mais vantagem para um dos lados (Tilly, Charles, 2006, pág. 50). Esta desigualdade categórica demonstra como é formada a desvalorização através das categoriais relacionais produzidas de forma interna e externa da organização, uma visão das mulheres que banaliza sua imagem ao ponto de serem vistas como objeto, tornando os tratamentos cada vez mais violentos. No Brasil, estima-se que cinco mulheres são espancadas a cada 2 minutos; o parceiro (marido, namorado ou ex), é o responsável por mais de 80% dos casos reportados (FPA/Sesc, 2010). Em casos de violência sexual, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada por dia.

É necessário falar também sobre, além dos ataques que as mulheres podem sofrer dentro de um relacionamento, o perigo em momentos de descontração e lazer, quando a vítima está mais distraída. Desse modo, a seguir, apresento a ocorrência de casos de estupros com o uso do Boa noite Cinderela, e como isso se tornou mais um ataque contra as mulheres, onde a insegurança está cada vez mais sendo instalada. 

Sem segurança, para onde vamos?

Primeiramente, é necessário esclarecer que droga é esta que é usada como forma de violência, moral, física e psicológica contra as mulheres. A Boa Noite, Cinderela é usada como um método de golpe sobre a vítima, onde a mesma é dopada através de uma bebida, podendo ser alcoólica ou não.

A droga é uma substância misturada de medicamentos soníferos, como o Flunitrazepam, ácido gama hidroxibutírico (GHB) e a cetamina, que são diluídos na bebida. A pessoa não consegue perceber que a droga foi colocada, pois não há sabor e é de fácil dissolução, fazendo com que ela se torne ideal para estas situações.

Após seu efeito, a pessoa tem sua capacidade de raciocínio, reflexos e força muscular reduzidos, podendo aparentar estar bêbada e incapacitada de discernir o que é certo ou errado. Com isso, torna-se mais fácil de fornecer para o agressor o que ele deseja: roubar ou praticar violência sexual. 

Esta droga está sendo muito utilizada em ambientes sociais, como festas ou eventos comemorativos, por ser um ambiente de forte distração, onde não há o costume de ficar tão atento a pequenos detalhes como não deixar de encher o próprio copo de bebida ou não deixar que outras pessoas te sirvam, pois, embora tenhamos a noção de que não se deve ter tais descuidos, não achamos que isso possa acontecer.

O agressor espera este momento de descuido para agir e fica atento para que seu plano aja conforme premeditado, e ter o controle dominante sobre a vítima. Há inúmeros casos relatados na internet sobre abuso sexual com o uso da droga Boa Noite, Cinderela, e como se já não bastasse as más intencionalidades das pessoas, há uma banalização deste tipo de ação, de modo que, em uma busca rasa na internet, são encontrados vídeos que ensinam como produzir a droga e como administrá-la sem que a vítima perceba, conteúdo que é facilmente visível, demonstrando que há públicos interessados. Além da constante insegurança das mulheres ao andar nas ruas sozinhas e ter relacionamentos, agora as mesmas precisam se preocupar com a sua segurança nos seus momentos de lazer. 

Segundo a antropóloga a Heloísa Buarque de Almeida, casos de violência sexual são mais comuns em três momentos: nos trotes universitários, quando calouras e calouros são submetidos a atividades definidas por veteranos; nas festas das faculdades e dentro das residências estudantis.

A antropóloga abre a discussão sobre o caso recorrente de estupros nas festas universitárias, em que é revelado que nem todos os casos chegam a ouvidoria em decorrência do medo da vítima.

Sabemos que os casos de violência sexual nas universidades não são casos isolados, o que é confirmado pelas constantes notícias de casos de estupros em festas, como os citados acima, colocados em ação em momentos de descuido da vítima, causados tanto por conhecidos quanto por desconhecidos. Com este novo método de golpe e a droga ocasionadora de estupro, a vítima sofre um apagão e só toma consciência do que ocorre após o efeito da droga, não se recordando do crime ocorrido.

Portanto, se torna necessário abordar profundamente estes casos de forma alarmante para repelir qualquer tipo de agressão e aumento do uso de violência sexual contra as mulheres, as quais estão perdendo seu espaço de socialização e tranquilidade até em ambientes que deveriam produzir alegria e bem-estar, tornando a vida exterior uma prisão.

Dessa forma, além do extremo cuidado e atenção em ambientes desconhecidos, para prevenir e erradicar o feminicídio e a violência sexual contra as mulheres é necessário combater a misoginia, rompendo estruturas enraizadas acerca da sexualidade das mulheres, desconstruindo pensamentos de objetificação feminina e elaborando uma reeducação social, com incentivo midiático, para que tais concepções não possam mais ser disseminadas, negando também a facilitação do acesso a produção e circulação da droga.


REFERÊNCIAS

TILLY. C. O acesso desigual ao conhecimento científico. Tempo Social – Revista de Sociologia da USP, 2006, v. 18, n. 2. 

TILLY, C. La desigualdad persistente. Buenos Aires: Manantial, 2000 (capítulo selecionado: “Cómo funcionan las categorías”, p. 87-128)

Moreno, Ana Carolina, Violência sexual é mais comum em festas e trotes, diz professora da USP, 2014. Disponível aqui. Acesso em: 22/08/2019.


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Paola Bragança