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Autotutela do século XXI: o linchamento de Fabiane Maria de Jesus

Autotutela do século XXI: o linchamento de Fabiane Maria de Jesus

O CRIME

No dia 03 de maio de 2014, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus foi espancada até a morte por vários moradores do bairro de Morrinhos IV, periferia do município de Guarujá (SP). Os moradores acreditaram que ela seria uma criminosa que raptava crianças e decidiram fazer justiça com as próprias mãos.

Mas Fabiane não era a pessoa que os agressores imaginavam que fosse.

Há um bom tempo, circulava uma notícia pelo bairro de Morrinhos IV de que havia uma mulher raptando crianças para realizar rituais de magia negra, no qual matava a criança, arrancava seu coração e seus olhos. O boato se tornou tão intenso que os moradores começaram a compartilhar a notícia até em redes sociais, mais especificadamente no Facebook.

A comunidade não falava em outra coisa que não fosse a “bruxa que sequestrava crianças”, de modo que, temendo que seus filhos fossem vítimas, as mães estavam os proibindo de brincarem na rua.

O ápice do boato se deu quando surgiu, no Facebook, um suposto retrato falado da mulher que estava realizando brutalidades com crianças. Todos compartilharam a notícia. Os comentários nas postagens eram os mais pesados possíveis, desde xingamentos como “bruxa” até mensagens de promessa de morte, caso a mulher pensasse em passar pela comunidade.

linchamento retrato

O retrato falado divulgado nas redes sociais (Crédito: Guarujá Alerta)

Fabiane era uma antiga moradora do bairro de Morrinhos IV e possuía parentes na região. Em um sábado comum, após ter realizado uma mudança radical no visual, haja vista que seu cabelo era comprido e escuro e ela havia pintado de loiro e cortado radicalmente, resolveu mostrar o novo visual aos parentes que ainda residiam em seu antigo bairro.

Para tanto, saiu de sua casa de bicicleta, rumo ao bairro que a receberia com muita violência.

No caminho, Fabiane lembrou que havia esquecido sua bíblia na Igreja que frequentava, razão pela qual aproveitou para pegá-la. Já em posse dela, continuou o trajeto.

Ao chegar em Morrinhos IV, a dona de casa resolveu parar em um bar, onde tranquilamente se sentou e tomou uma cerveja. Ao avistar um menino de rua e ficar compadecida com sua situação, ofereceu-lhe uma banana para que o garoto pudesse saciar sua fome.

Mas o que seria bem visto por qualquer pessoa, foi tido como uma ameaça para os moradores de Morrinhos IV. Entendeu-se o ato como uma sedução para o sequestro, que em breve poderia acontecer. A atitude de Fabiane, juntamente com a bíblia de capa preta que carregava, fizeram com que a comunidade achasse que ela seria a “bruxa que fazia magia negra com crianças”. Uma voz feminina, não identificada, gritou em alto e bom tom:

É ela!!!

Após esse alarde, inúmeras pessoas cercaram Fabiane, rendendo-a e amarrando suas mãos. Nesse instante começou o horror. Já não se sabia quantas pessoas estavam em volta de Fabiane, se 200, se 1.000, se 3.000, mas eram muitas, homens, mulheres e até mesmo as crianças acompanharam de perto a moça ser amarrada, arrastada, chutada, espancada. Um homem chegou até passar, por várias vezes, em uma bicicleta por cima de sua cabeça

Enquanto Fabiane era massacrada pela população, muitas das pessoas que “apenas” acompanhavam o espancamento, filmaram a barbárie em seus celulares, divulgando os vídeos depois do ataque.

Como alguns moradores não participaram e acreditaram que os demais estavam precipitados com o que estavam fazendo – pois ninguém tinha certeza de que Fabiane era a criminosa que a comunidade temia tampouco foi dada a ela a chance de se apresentar e/ou se defender das acusações – decidiram ligar para polícia.

linchamento fabiane

Fabiane foi massacrada pela população (Reprodução/YouTube)

Enquanto isso, a dona de casa continuava sofrendo inúmeros socos, pontapé e “pauladas”. O massacre durou aproximadamente 30 minutos. Ao final, sem saber se ela ainda estava viva ou morta, lhe jogaram em cima de um colchão que tinha no meio da rua.

A polícia recebeu 17 ligações de números diferentes relatando o linchamento de Fabiane. Todavia, só chegou quando ela já estava jogada no colchão. A população ainda estava ao redor da vítima, e, tentando conter o tumulto para socorrê-la, a polícia teve que ceder ao que estavam exigindo: só poderiam chegar perto da moça com a presença da imprensa. E assim foi feito.

Com a chegada da imprensa, a dona de casa foi socorrida e levada ao hospital, mas não resistiu e faleceu na manhã do dia 05 de maio de 2014, após 36 horas do ocorrido. Os médicos relataram que, se Fabiane tivesse sobrevivido, ficaria com sequelas graves e permanentes, dada as gravíssimas lesões em seu crânio e ao sangramento interno que teve.

Como a própria população filmou e divulgou as filmagens do linchamento, os vídeos serviram como meio de prova e ajudaram a polícia a chegar nos principais agressores. Entretanto, apenas cinco foram identificados.

A VÍTIMA

Fabiane Maria de Jesus tinha 33 anos, era dona de casa, muito religiosa, participava da Igreja São João Batista. Foi casada com o Jaílson, e, como fruto dos dezesseis anos de matrimônio, tiveram duas filhas.

linchamento family

O marido de Fabiane, Jaílton, com as duas filhas do casal, Yasmin e Esther (Marcos Alves/Agência O Globo)

Fabiane ficou nacionalmente conhecida após sua morte, pois foi vítima de um linchamento após ser confundida com uma suposta criminosa. Deixou o marido e duas filhas de 12 anos e 1 ano.

O JULGAMENTO

Como já mencionado, os vídeos que foram divulgados pela comunidade ajudaram a polícia na identificação dos agressores. Apenas cinco agressores foram identificados e tiveram prisão preventiva decretada em 2014.

Lucas Rogério Fabrício Lopes foi o responsável por passar com a bicicleta por cima da cabeça da vítima por várias vezes. Jair Batista dos Santos foi o responsável por ter jogado Fabiane na passarela, justificando que só fez isso para proteger a vítima da população enfurecida.

Carlos Alex Oliveira de Jesus foi o responsável por bater a cabeça da vítima várias vezes contra o chão, segurando seus cabelos. Abel Vieira Batalha Júnior foi o responsável por vários golpes contra a vítima, mas nega.

Valmir Dias Barbosa foi o responsável por desferir golpes na cabeça da vítima se utilizando de um pedaço grosso de madeira (desferiu “pauladas”). Ele disse que não teve a intenção de matar.

Todos foram denunciados por homicídio qualificado e ainda esperam julgamento.


REFERÊNCIAS

Wikipédia, Veja, G1 e Estadão.


Leia também sobre o Linchamento do Guarujá AQUI.

Autor

Lana Weruska Silva Castro

Pós-graduanda em Ciências Criminais.
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